Vitor Nunes Leal escreveu uma obra clássica sobre a política no Brasil intitulada “Coronelismo, Enxada e Voto”. Analisa o poder na velha república, demonstrando os mecanismos da aliança entre o poder público (político) e os grandes proprietários de terra e de escravos, e como este modelo se manteve após o “fim da escravidão”, com o conhecido voto de cabresto. A obra do Vitor Nunes continua atual e muito lida. Parece que toda a transformação ocorrida com a industrialização e urbanização da sociedade brasileira não alterou os fundamentos do exercício do poder político, mesmo que instituído de forma democrática.
Nas últimas eleições, muitos processos tramitaram na justiça do trabalho, denunciando a ação de grandes proprietários (empresários), utilizando sua relação de poder econômico sobre trabalhadoras e trabalhadores para direcionar o voto para candidatos da extrema-direita.
Mas queria utilizar esta referência para alguns vídeos (aparentemente cortes), que circularam nas redes sociais (ou seriam redes “antisociais”?), nas quais um destes coronéis contemporâneos, bastante excêntrico e com gostos estéticos peculiares, munido de um rolo de tinta e acompanhado de autoridades locais e serviçais, apaga grafites. Faz valer seu poderio econômico para definir um padrão estético do “belo e do feio” para a cidade que está recebendo mais uma de suas unidades comerciais. Belas e coloridas imagens, que embelezavam muros na cidade, foram apagadas, com o uso de rolos de tinta, para tornar os muros monocromáticos e pálidos.
Nosso coronel contemporâneo utiliza o momento para propagar um julgamento estético, afirmando que a cidade está feia, precisa ser repintada, precisa eliminar todos os traços de diversidade artística. Esquece o nosso coronel de plantão que estética duvidosa é o seu “barração de zinco”, instalado em área nobre e histórica, com um estacionamento amplo e lúgubre, para acolher as latarias modernas de sua clientela.
Fazer o quê? Numa sociedade da mercantilização universal, na qual o dinheiro opera como mediador de todas as relações, o feio torna-se belo na medida em que este julgamento passa a ser definido pela quantidade de dinheiro apropriada por aquele que emite o juízo estético. O rico torna-se belo porque é rico, e as coisas dos ricos, por mais ridículas que possam ser, passam a ser belas aos olhos das massas. Este é o poder prostituidor do dinheiro numa sociedade mercantilizada.
No entanto, não bastou o coronel assumir o figurino de paladino da estética urbana. Ao tomar conhecimento que um dos artistas que afixou sua arte, a ser eliminada pelo rolo portador da tinta purificadora, não somente era um artista, mas também professor universitário, a situação ficou mais complicada. Utilizando de impropérios, passou a atacar o professor, as ciências humanas e a universidade que acolhe ambos. De duvidoso julgamento estético, passou para julgamento ético/moral — “vagabundo de Blumenau”. Novamente, utilizando a categoria econômica do dinheiro/mercadoria para fundamentar sua visão de mundo (“se pelo menos utiliza-se a arte para vender e ganhar dinheiro”).
A isto se agrega o julgamento feito, aparentemente em outro momento, sobre o centro de acolhimento de indígenas, localizado na entrada da cidade. Aí assumiu o figurino do bugreiro. Bugreiros foram os milicianos contratados para perseguir os povos originários, no período de colonização no Vale do Itajaí.
O que impressiona mesmo foi a submissão das autoridades locais, que “engoliram a seco” a vergonha pela falta de manutenção da cidade. Mais envergonhadas ainda, pois a ação sanitarista de limpeza da cidade se desenrolou num momento em que jorram pelas telas de TV, páginas de jornal, redes sociais, a carcomida corrupção entranhada nos poderes públicos locais, sob os auspícios das autoridades que acompanhavam o empunhar dos rolos de tinta.
Impressiona também a apoteótica acolhida das massas que, acotoveladas em frente ao “barracão de zinco”, aclamavam pela salvação vinda do panteão do consumo, assemelhando-se à experiência romana do “pão e circo”. Faltou a estátua da liberdade. Não foi necessária. A situação de subordinação, de tão explícita e naturalizada, tornou a mediação simbólica da imitação da obra neoclássica estadunidense dispensável.
Coronelismo, Rolo de Tinta e Voto traduzem os desafios da sociedade contemporânea, da despudorada subordinação da política ao poder econômico, do domínio da mercadoria sobre a estética e a ética, do encantamento pelo caricato.
Ah, por fim, podem desconsiderar todo o escrito. Afinal, para o novo coronelismo, “pessoas inteligentes que lêem livros errados tornam-se idiotas” (outra pílula de sabedoria emanada pelo mecenas verde-amarelo). É o que fazem seres humanos que se dedicam às ciências humanas. Mesmo não me considerando inteligente, provavelmente li livros errados, portanto tornei-me…
Valmor Schiochet, doutor em Sociologia (Unb) e Professor da Universidade Regional de Blumenau (aposentado)




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