No Brasil, a palavra “ideologia” virou um espetáculo de época eleitoral. Com raras exceções, ela não aparece como convicção política verdadeira. Surge apenas como uma janela de oportunidade para ganhar voto.
De tempos em tempos, o país entra no mesmo teatro. Políticos sobem no palanque, vestem o figurino ideológico do momento e começam a apontar inimigos. Para uns, o perigo é o “comunismo”. Para outros, o perigo é o “fascismo”. A plateia se divide, as redes sociais explodem, e a política vira um campeonato de gritos.
No centro desse palco estão duas figuras que dominam o debate nacional há anos: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Cada um representa um polo que alimenta o outro. Um precisa do adversário para manter viva a própria narrativa.
O problema é que, passada a eleição, boa parte desse discurso simplesmente evapora.
O político que dizia combater o sistema passa a negociar com ele. O que prometia ruptura faz acordo com o centrão. O que discursava contra privilégios aprende rapidamente a conviver com eles. A ideologia, que parecia uma convicção profunda no palanque, revela-se muitas vezes apenas estratégia eleitoral.
Mas talvez a maior contradição esteja em um grupo que se apresenta como a alternativa racional da política brasileira: os autodeclarados liberais.
No discurso, defendem Estado mínimo, mercado livre e menos intervenção. Na prática, disputam fundo partidário, defendem emendas bilionárias, protegem interesses de setores específicos e ocupam cargos em estruturas estatais que dizem combater.
Criticam privilégios, mas raramente começam pelos próprios. Falam em meritocracia, mas convivem tranquilamente com dinastias políticas. Pregam liberdade econômica, mas pedem proteção quando o mercado ameaça seus aliados.
É um liberalismo de palanque: duro no discurso, flexível na prática.
Enquanto isso, o debate público fica preso nesse ringue ideológico permanente. Tudo vira esquerda contra direita. Lula contra Bolsonaro. Comunismo contra liberdade.
E o Brasil real fica de fora da conversa.
Pouco se fala sobre produtividade, sobre desigualdade estrutural, sobre racismo, sobre eficiência do Estado, sobre políticas públicas baseadas em evidência. Esses temas exigem trabalho, estudo e complexidade. Já o discurso ideológico pronto exige apenas um microfone e um inimigo.
E assim a engrenagem continua funcionando.
A polarização garante engajamento, movimenta redes sociais, mobiliza militâncias e, principalmente, ganha eleição. É mais fácil vender medo do que explicar orçamento público.
No fim das contas, a ideologia que domina o debate político brasileiro, com raras exceções, não é exatamente uma crença. É uma ferramenta.
Uma ferramenta eleitoral.
E enquanto o país continua brigando por rótulos, a estrutura de poder segue praticamente intocada.
Talvez esteja na hora de fazer uma pergunta simples: quem realmente acredita no que diz — e quem apenas encontrou na ideologia mais uma estratégia de campanha?
Porque, se o Brasil não acordar para isso, a próxima eleição terá exatamente o mesmo roteiro.
Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos



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