Opinião | O conservadorismo relativizado pela história – parte IV

Imagem gerada com IA

No último artigo, mostrei como Blumenau, entendida eleitoralmente conservadora, foi pioneira na transição ao progressismo. De 1970 a 2004, foram dez eleições municipais e em nove venceram partidos de oposição ao governo federal, de perfil conservador.  As coisas mudaram a partir de 2008, do centro para a direita. É interessante comparar com cidades de estados majoritariamente pró-Lula, hoje, tiveram transição oposta. Por fim, vale uma breve especulação sobre a transição de um perfil “progressista” para um perfil eleitoralmente conservador, como aconteceu em Blumenau, mas também em Joinville e outras catarinenses.

O mapa eleitoral brasileiro é paradoxal ao observar onde se concentram as maiores votações proporcionais de Lula em 2022. Os cinco estados líderes — Piauí (76,8%), Bahia (72,1%), Maranhão (70,9%), Ceará (69,7%) e Pernambuco (66,2%) — formam um bloco regional coeso, mas não único. Não se trata apenas de vitórias expressivas, mas de margens amplas e consistentes. Em quatro desses estados, o apoio supera dois terços dos votos válidos. Esse padrão sugere mais do que preferência momentânea: aponta para uma estabilidade política desde 2002 até 2022 – em 1998, FHC venceu em todos; depois, só deu PT e os percentuais são quase invariáveis.

É verdade que a realidade é sempre mais complexa e aqui só apresentamos um fragmento estatístico. Só um bom livro poderia apresentar uma análise mais depurada. Uma crônica jornalística, normalmente não faz mais que deixar uma pulga atrás da orelha, mas um bom livro também não ignoraria essa “pulga”.

Quando interpretados sociologicamente, esses dados revelam três dimensões importantes. Primeiro, uma forte concentração regional do voto, indicando que o Nordeste opera como um sistema político relativamente integrado. Segundo, menor volatilidade eleitoral, em escala agregada, especialmente quando comparado a regiões mais competitivas. Terceiro, um peso decisivo no resultado nacional, capaz de compensar perdas em outras áreas. Em outros termos, no Nordeste existe um comportamento eleitoral que se reproduz com regularidade. Antes de 2002, um voto “conservador”; a partir de 2002, um voto “progressista” – pra usar o português das redes sociais virtuais.

Ao observarmos cidades do interior desses estados do Nordeste — fora das capitais — percebemos trajetórias políticas distintas daquelas registradas em municípios de Santa Catarina. O que se vê não é apenas uma diferença de resultados eleitorais, mas de temporalidade política. O ritmo da mudança, a forma da transição e os atores envolvidos variam significativamente. E é nesse ponto que Blumenau e Joinville (apenas pra citar dois exemplos coadunantes com outras cidades catarinenses) se torna um caso particularmente interessante.

Enquanto boa parte do interior nordestino experimentava uma transição mais lenta do regime bipartidário, Blumenau e Joinville apresentavam sinais precoces em direção ao “progressismo”. Desde os anos 1970, o MDB ganhava espaço de forma consistente, antecipando um movimento que em outras regiões só se consolidaria bem mais tarde. Esse dado não é trivial. Ele sugere uma cultura política menos dependente de mediações tradicionais e mais aberta à alternância. E fica mais interessante quando percebemos que cidades atualmente conservadoras, já representaram algo oposto às cidades que, outrora conservadoras, se comportam eleitoralmente mais à esquerda, desde o início deste século.

O quadro comparativo ajuda a visualizar essa diferença:

Quadro comparativo (1966–início dos anos 1990)

(ARENA / MDB-PMDB / Pós-1985)

Cidade Regime militar (1966–1982) Abertura 

 (1982–   1988)

Início anos 1990 Padrão dominante
Blumenau forte ida ao MDB 

já em 1970

Consolidação MDB/PMDB Alternância + chegada do PT  Oposição precoce e consistente
Joinville ARENA e MDB Sem migração

tão forte

Forte pluralização Oposição crescente
Parnaíba ARENA com

oposição

 pontual

Transição gradual ao MDB Lideranças locais

dominam

Mudança lenta, mediada
Picos Forte controle

ARENA

MDB cresceno fim 

do regime

Continuidade com

rearranjos

Dependência de elites locais
Feira de Santana ARENA dominante MDB ganha 

espaço anos 

1980

Alternância mais

aberta

Transição progressiva
Vitória da Conquista Disputa mais

equilibrada

MDB fortalece Posterior abertura

à esquerda

Oposição crescente
Imperatriz Predomínio ARENA MDB avança

lentamente

Alternância negociada Mudança tardia
Timon ARENA forte MDB cresce

no final

Continuidade com

elites

Baixa ruptura
Juazeiro do Norte ARENA relevante MDB expande Alternância mais clara Transição intermediária
Sobral Disputa ARENA/MDB MDB ganha 

força

Consolidação de novos grupos Reconfiguração política
Caruaru ARENA-

oposição limitada

MDB cresce 

 anos 1980

Alternância regional Mudança gradual
Jaboatão dos Guararapes ARENA MDB/PMDB avança Diversificação partidária Abertura tardia

Fonte: Dados eleitorais compilados a partir das estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A leitura desse quadro permite identificar um padrão claro: o tempo da oposição. Em Blumenau, ela surge cedo e se consolida rapidamente. Em Joinville, só demora um pouco mais. Nas demais cidades, aparece de forma gradual, muitas vezes mediada por lideranças locais. Isso implica diferenças no grau de autonomia do eleitor. Onde há maior dependência de estruturas tradicionais, a mudança tende a ser mais negociada e menos abrupta. Onde essa dependência é menor, a alternância se antecipa. 

Essa diferença também se expressa na forma da transição política. Em Blumenau, o percurso parece relativamente linear: ARENA, MDB, pluralização e, posteriormente, a chegada do PT. Joinville foi parecido. Já em grandes cidades do interior nordestino, a trajetória é mais fragmentada, marcada por acomodações e rearranjos. Não se trata de ausência de mudança, mas de um processo mais gradual. A política, nesses contextos, avança por camadas.

É nesse contraste que se encontra o núcleo interpretativo mais forte. Enquanto estados como Piauí, Bahia e Maranhão, Ceará e Pernambuco revelam uma consistência eleitoral estrutural, cidades como Blumenau e Joinville evidenciam uma tradição de alternância pragmática. De um lado, estabilidade regional; de outro, adaptabilidade local. Não são modelos exatamente opostos, mas ritmos distintos de organização da vida política. Cada um responde a contextos sociais específicos. Resumidamente: mais ou menos dependência, mais ou menos autonomia às lideranças tradicionais – leia-se, oligárquicas.

Bem no fim, a síntese se impõe com certo capricho histórico. Enquanto cidades do interior nordestino migravam lentamente da ARENA para o MDB, sob mediação de elites locais, Blumenau e Joinville já experimentavam uma oposição consistente desde os anos 1970. O que em boa parte do Brasil foi transição, ali já era prática. E talvez seja justamente essa antecipação que ajude a explicar a singularidade de sua trajetória política.

Nessa perspectiva, o fato de que Blumenau já chegou a conferir mais de 60% dos votos a Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 exige uma leitura histórica mais cuidadosa. Indica que o atual perfil eleitoral da cidade não é linear nem imutável, mas resultado de inflexões ao longo do tempo. Nesse sentido, a transição em direção a um comportamento atualmente mais “conservador” parece encontrar um ponto de inflexão importante a partir da crise política desencadeada pelo chamado escândalo do mensalão. Para um eleitorado que, em algum momento, depositou expectativas na ideia de renovação política, o episódio representou uma ruptura simbólica relevante, resultado de uma decepção, de um sentimento de traição.

Essa inflexão se aprofunda nos anos seguintes, especialmente durante o governo de Dilma Rousseff, que foi profundamente marcado por dificuldades econômicas e instabilidade política. Nesse contexto, consolidou-se, em segmentos do eleitorado urbano mais escolarizado e economicamente autônomo, uma percepção crítica em relação ao Partido dos Trabalhadores, não apenas por questões de gestão, mas também por um desgaste acumulado de imagem. A combinação entre frustração de expectativas iniciais e avaliação negativa de desempenho contribuiu para reorientar preferências políticas e isso aconteceu em várias cidades catarinenses que já haviam elegido prefeitos do PT, como Blumenau, Joinville, Chapecó, Brusque, Itajaí, Indaial, Gaspar e vai longe…

O resultado desse processo não foi simplesmente uma migração ideológica clássica, mas, em muitos casos, a emergência de um voto de caráter reativo. Em cidades com tradição de maior autonomia decisória do eleitor, como Blumenau, esse movimento tende a assumir a forma de rejeição a determinados atores políticos antes mesmo de uma adesão plena a novos projetos. Não é simplesmente um voto orientado pelo preconceito ou pela transição da confiança à execração, sentimento de muitos que já não votavam na esquerda. Assim, o que se observa não é apenas uma guinada conservadora em sentido estrito, mas uma reconfiguração do comportamento eleitoral ancorada em experiências concretas de frustração, avaliação e distanciamento político.

O que muitos, ainda fiéis ao “progressismo” de outros feitos custa a entender, é que quebra de confiança é algo muitas vezes irreversível e mexe com sentimentos e valores que vem da profundeza da história e do fundo da alma. Como observa o psicólogo social Jonathan Haidt, em política e religião, a razão se torna, com frequência, escrava das emoções. Imagine-se quando as duas se juntam!

Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo

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