Opinião | Domingou de Gil, do Brasil!

Imagem: Gilberto Gil, obra de Isaías Medeiros/ Divulgação

Eu, que empunho armas feitas de poesia e som, que testemunho dramas da canção fugaz e que experimento o quanto a fantasia é bom alimento para a paz, preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar. Não vou mudar um mundo louco dando socos para o ar.

Eu vou contar uma história: é domingo na moça e na praça. Sou viramundo virado. Moro onde o pecado mora ao lado. Você já ouviu falar? E da pílula de alho? Fizeram muitos milagres. Feita de alho e calor… Com imunidades contra o vírus da maldade.

Pode olhar o jornal paciência, que não traz o que eu quero saber. As notícias que leio conheço, já sabia antes mesmo de ler: quanto custa hoje em dia o feijão?

Não tenho medo da morte, não tenho medo da vida. Mas, tenho que lhe ouvir dizer aos berros que a vida é pura maldição. E que o mundo é feito só para os eleitos, que houve sempre fraude na tal da eleição.

Não vou fazer seu coro, seu sermão. A não ser que você possa instalar o chip da ignorância em minha cuca.

Da janela a cidade se ilumina. Mas alguma coisa acontece… a solidão apavora. Se eu ando o tempo todo aflito, se eu ando por aí correndo, ao menos aprendi a dar meu grito e a carregar a minha cruz.

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar. Não posso me esquecer que um dia você há de imaginar. O menino que abriu a porta do Zoo. Zoo, zoo, zoo Ilógico. Sonhos guardados, perdidos em claros cofres de vidro.

Mandai a alforria pro meu coração. Brasil, meu Brasil brasileiro, meu grande terreiro, meu berço e nação: a felicidade do negro é uma felicidade guerreira!

Como poderei ter medo? Olha o tempo passando, olha o tempo…É domingo, outra vez domingou.

Um registro, uma explicação:

O texto foi todo organizado com trechos de músicas de Gilberto Gil, que neste domingo, dia 26, completa 80 anos. Uma das personalidades mais importantes da história brasileira, imortal da Academia Brasileira de Letras.

Tive o privilégio de conhecer e conversar por algum tempo com Gil quando a cultura era um Ministério e existiam políticas públicas para o setor. Ele Ministro. Eu um jornalista.

Há época, o baiano usava cabelos longos e eu também. Em uma agenda, em Santa Catarina, uma das primeiras visitas dele ao Estado após 1976, o Ministro e eu eramos os únicos negros entre todos os presentes no evento, repleto de autoridades. Gilberto Gil perguntou meu nome e antes de discursar quebrou o protocolo, me cumprimentou em saudação a todos os catarinenses de bom coração. O que preencheu e completa o meu de felicidade guerreira.

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