Opinião | Arte, cultura e inteligência urbana

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“A cultura é a memória do povo, a consciência coletiva da continuidade histórica.” — Milan Kundera 

Urgentemente, precisamos reagir com inteligência, argumentos e coragem. Não podemos normalizar ataques a professores, universidades, historiadores e às ciências humanas, como se cultura, memória e pensamento crítico fossem “inúteis”.

As maiores potências tecnológicas do planeta — Alemanha, Japão, Coreia do Sul, França, Estados Unidos e países nórdicos — não cresceram destruindo as humanidades. Pelo contrário: investiram simultaneamente em matemática, física, engenharia, filosofia, sociologia, história, artes e educação pública de qualidade.

Nenhuma sociedade verdadeiramente avançada se sustenta apenas com planilhas, lucro e consumo. Engenharia constrói pontes; história ajuda sociedades a não repetirem tragédias. Física cria tecnologia; filosofia debate ética. Economia produz riqueza; sociologia ajuda a compreender desigualdade, violência e exclusão.

Arquitetura e urbanismo, por exemplo, não existe sem compreender cultura, território, comportamento humano e memória coletiva.

O discurso de que “só exatas importam” revela uma visão limitada de civilização. Uma sociedade precisa de ciência, tecnologia, indústria, mas também de consciência histórica, capacidade crítica, criatividade e compreensão humana.

Curiosamente, muitos dos que desprezam as humanidades valorizam marketing, design, narrativa, psicologia do consumidor, branding e construção simbólica — áreas profundamente conectadas às ciências humanas.

A universidade existe justamente para formar cidadãos completos, e não apenas peças de engrenagem econômica. Quando professores e instituições de ensino são atacados, também se enfraquece a capacidade da sociedade de refletir criticamente sobre democracia, desigualdade, memória e futuro.

Precisamos de debate público, sim. Mas de debate qualificado. Colocar frente a frente educadores, cientistas, historiadores, filósofos, arquitetos, físicos, sociólogos e empresários. Mostrar, com argumentos, que civilização não se constrói apenas com dinheiro. Constrói-se com conhecimento, cultura, ciência, memória, ética e humanidade.

Uma sociedade sem história, sem arte e sem pensamento crítico torna-se mais vulnerável à manipulação. E isso interessa muito a quem enxerga pessoas apenas como consumidores ou força de trabalho.

Dietmar Starke, arquiteto e urbanista

3 Comentário

  1. Penso, logo existo! (Cogito, ergo sum) René Descartes
    Não basta existir, creio ser fundamental participar da construção coletiva, da comunidade, do debate de ideias, ser protagonista (cada um como queira) da luta por uma vida melhor para todos e com todos. Se dispor a estar no palco do debate público, com ideias, argumentos, inteligência e serenidade não devia ser um privilégio ou raridade, deveria ser a regra, o normal, neste sentido celebro com felicidade o artigo do meu grande amigo querido, um dos mais importantes arquitetos e urbanistas brasileiros do século XX, o blumenauense carioca Dietmar Starke. Você é sempre bem vindo por aqui!!!

  2. ótimo texto, Dietmar, concordo plenamente e me sinto representada! Sou blumenauense e senti vergonha dos acontecimentos recentes de ataque a arte, professores, artistas. uma cidade não pode ser vista como mercadoria e seus cidadãos e cidadãs como meros consumidores! pensamento mesquinho, limitado que empobrece a cidade, a sociedade e a evolução humana!

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