Análise | O retorno de Merisio e o novo momento dele e da esquerda em Santa Catarina

Foto: divulgação

Foram oito anos de atuação nos bastidores. Depois da derrota em 2018 para governador, quando, no segundo turno, mesmo declarando-se bolsonarista, perdeu para um outro que usava o mesmo número de Jair Bolsonaro, Gelson Merisio está de volta aos holofotes da política catarinense. Mas ocupando um novo papel, que mostra o dinamismo dela.

Com a derrota eleitoral e ascensão do bolsonarismo no país, com a perda de espaço da direita para uma extrema direita, Merisio recolheu o time e foi cuidar de sua vida Na área profissional, aproximou-se ainda mais das empresas do grupo JBS, dos irmãos Joeslei e Weslei Batista, um conglomerado mundial que se relaciona com todos os lados da política em diferentes países, cuja ligação vai desde Nicolás Maduro a Donald Trump, passando por Lula e Temer.

Ainda longe dos holofotes, Merisio engajou-se na campanha que levou Décio Lima (PT) a um inédito segundo turno em Santa Catarina e, quatro anos depois, dá-se visibilidade a esta aproximação improvável. Atribui-se a ele o papel de coordenador; pode ser um exagero, mas muitos petistas com quem conversamos atribuem ao ex-presidente da Assembleia Legislativa papel importante na disputa de 2022.

No seu retorno ao palco político, na última quinta-feira, foi apresentado como o candidato ao governo pelo “time do Lula”, uma chapa majoritária que conta com uma ex-deputada do PCdoB, hoje no PDT, como vice, um petista e uma liderança histórica do PSOL para o Senado.

Todos sendo liderados agora para esta disputa eleitoral pelo político que construiu sua carreira política pelo antigo PFL e chegou ao comando do parlamento estadual pelo PSD, sempre marcando posição contra a esquerda. Hoje é um “socialista”, filiado ao PSB, o mesmo do vice-presidente Geraldo Alckmin.

Na sua fala no ato político de apresentação da chapa, Merisio foi questionado sobre seu apoio a Bolsonaro em 2018, e a resposta deve ter doído nos ouvidos de petistas e psolistas. Disse não ter se arrependido da manifestação do voto, entendendo que, naquele momento, com Fernando Haddad candidato a presidente pelo PT e Lula preso, era preciso “encerrar um ciclo”. Na sequência da fala, disse que a posição de hoje veio depois do que aconteceu na gestão de Jair Bolsonaro, em especial pela postura do ex-presidente na pandemia do coronavírus.

“Oito anos depois, estou de volta, tranquilo e com a certeza de estar do lado certo do rio nesse momento”, escreveu Gelson Merisio no retorno nas suas redes sociais.

A aliança é pragmática e o campo da esquerda coloca um ex-conservador na liderança da chapa para tentar fazer o enfrentamento eleitoral no estado chamado de mais bolsonarista do país.

Sabe-se que será difícil fazer a disputa na urna, mas percebe-se a oportunidade de fazer o discurso em defesa de Lula nos palanques eletrônicos que a campanha eleitoral proporciona. E, apostando em conseguir uma vaga ao Senado, de olho na disputa fratricida que se avizinha na direita, com a entrada de Carlos Bolsonaro no tabuleiro pré-eleitoral.

Merisio tem capacidade de fazer o debate, é experiente e bem preparado, mas carrega contradições que muitos do campo que ele representa agora não esquecem e que serão exploradas pelos adversários atuais, aliados do passado.

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*