A cidade não é neutra. Ela tem um corpo preferido. E esse corpo costuma esbarrar no nosso. Caminhar por uma rua é, para muitas mulheres, um exercício de cálculo: a hora, o caminho, o passo apressado, a bolsa firme, o olhar que evita. A cidade exige atenção constante — como se nunca fosse totalmente nossa.
O direito à cidade, dizem, é para todos. Mas basta observar o cotidiano para perceber que esse “todos” tem exceções não ditas. Para muitas mulheres, especialmente as que vivem longe do centro — longe de tudo —, a cidade é mais tarefa do que abrigo. Mais obrigação do que escolha.
A rotina feminina não anda em linha reta. Ela dobra esquinas invisíveis. Vai da casa ao trabalho, do trabalho à escola, da escola ao mercado, do mercado ao cuidado de alguém. O tempo se fragmenta. O corpo se cansa. E a cidade, muitas vezes, não ajuda: calçadas quebradas, caminhos inseguros, ônibus raros, distâncias longas demais para quem carrega o mundo nas mãos.
Há cidades que parecem esquecer que a vida cotidiana existe. Que o cuidado existe. Pensar uma cidade do cuidado é pensar no óbvio que foi ignorado: proximidade, descanso, encontro, equipamentos públicos eficientes, luz, sombra, água, ar fresco. Uma cidade que cuida não foca apenas em vigiar — ela acolhe. Ela permite que as pessoas fiquem. Que permaneçam sem medo.
Em Blumenau, como em tantas outras cidades, essas ausências são visíveis. A violência contra as mulheres atravessa os dados e atravessa os corpos. A participação feminina nas decisões ainda é pequena. E, nas periferias — onde a vida pulsa apesar de tudo —, faltam espaços de convivência, falta moradia digna, e cada chuva que ameaça a vida vira um pesadelo.
É nesse vazio que o projeto “Mulheres na Praça – Se a cidade fosse nossa” acontece. E acontece como gesto. Ocupa a praça — esse lugar que é de todos — com vozes, histórias, cultura e escuta. A praça deixa de ser passagem e vira permanência. Vira encontro. Vira possibilidade.
Não se trata apenas de eventos. Trata-se de algo mais delicado: reconhecer que mulheres precisam — e têm direito — ao espaço público como extensão da vida. Estar na praça é existir sem pedir licença; é criar laços, se divertir, respirar. É descobrir que o corpo também pode repousar na cidade. Compreender que, enquanto o espaço público for apenas passagem, vigilância ou risco — e não permanência, descanso e encontro —, a cidade falha.
Quando a cidade oferece lugar para ficar, para conversar, para criar, para se divertir ela afirma: vocês importam. E essa afirmação transforma. Pertencer à cidade é poder habitá-la com o corpo inteiro, sem medo e sem desculpas. É saber que a rua e a praça também nos guardam. Quando as mulheres estão visíveis, juntas e cuidadas, a cidade deixa de ser cenário hostil e começa, enfim, a ser casa.
Daniela Sarmento, arquiteta e urbanista



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