A questão da corrupção

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Aroldo Bernhardt

Professor

 

Na concepção grega clássica, a Política seria a dimensão do bem-comum e se orientaria pela razão substantiva (wertrational em Weber). Na Modernidade, entretanto, a Política se subordinou à dimensão econômica.  E o bem-comum sempre declarado como desiderato, pode até eventualmente ser atendido, desde que não atrapalhe os projetos de poder e do lucro.

Por isso há quem acredite que a política é o valhacouto da corrupção. Mas a coisa não é assim tão simples.

Corruptos e corruptores estão em toda parte.

Parecem se identificar e se reconhecer como uma seita secreta, mediante símbolos e ícones coerentes com a ostentação consumista e equivocada. A corrupção não é um fenômeno exclusivo de um período histórico, sistema econômico, ideologia ou partido. Também não é exclusivo do nosso país.

Tratar desse tema, em atitude acusatória e acrítica pode até recrudescer a própria corrupção. O Brasil já vivenciou experiência desse tipo, o golpe de 1964 pretendia erradicar a corrupção e a exacerbou. Seu enfrentamento implica cautela porque pode servir a muitos propósitos, legítimos ou não, justos ou não, ao discurso moralista e às propostas demagógicas.

Se de fato acreditamos que houve um desvirtuamento da racionalidade política, o enfrentamento da corrupção pede a reversão dessa lógica, de modo a subordinar o individualismo do interesse privado ao superior interesse público. Algo na linha de um projeto cultural que envolveria práticas individuais, coletivas e institucionais muito complexas.

Contudo é possível agir de maneira imediata e objetiva, daí a primeira providência é a Reforma Política com o propósito de limitar a influência do poder econômico no sistema representativo e no aparelho do Estado, além de outras reformas essenciais como a Tributária e do Judiciário, entre tantas outras necessárias à atualização da Democracia.

Em outra frente, o Brasil não pode perder a oportunidade histórica desenhada com as operações da Polícia Federal, do Ministério Público, da CGU e instituições afins. O importante é passar o país a limpo, porém sem sectarismo, sem protecionismo e com horizonte temporal justo e equilibrado. Doa a quem doer.

Cabe ainda lembrar que a corrupção está nos indivíduos, na prática do “jeitinho” que se apresenta cotidianamente em pequenas demonstrações ou no argumento falacioso de “que não é nada pessoal”, “são apenas negócios” como se a lógica do mercado, própria da dimensão econômica, não carecesse de limites.

Temos que prestar atenção ao moralismo, essa tendência tão humana (ou seria desumanizadora, na linha do pensamento de Hannah Arendt) de apontar o dedo em riste para outrem. Aliás, o moralismo está na ribalta com a recente demissão de dois Ministros do governo federal interino, em público arautos do combate à corrupção e no recôndito apanhados no “flagra” em conversas e negociatas deploráveis.

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