Opinião | O Vale Europeu incomoda quem?

Foto: reprodução

O Informe Blumenau noticia que “Um projeto de lei (…) apresentado pelo deputado estadual Marquito (PSOL), de Florianópolis,” propõe a mudança da denominação “Vale Europeu”, sob a justificativa de que privilegia os colonizadores e exclui a participação dos povos indígenas. O deputado estadual Napoleão Bernardes (PSD) é contra o projeto, justificando que o nome “representa a identidade histórica, cultural e turística construída pelos municípios que integram o Vale Europeu”. Iniciativas banais denotam sentimentos ocultos e consequências incertas.

Concordo com o deputado Napoleão. É melhor conter logo essa onda, antes que “visionários” como o legislador do PSOL se empolguem a propor a mudança de nomes de municípios, do tipo, Brusque porque vem do italiano Bruschi ou do polonês Bruski, Nova Trento, Nova Veneza, Alfredo Vagner, por excluírem quem não descende de italianos ou alemães, eslavos ou escandinavos.

Se der corda, essa gente do bem começa a questionar as cidades com nomes de santos, do tipo, São Bento, São Pedro, Santa Terezinha porque exclui os não católicos, até que, opa! Santa Catarina também não pode, porque nem não venera santos está sendo excluído. 

Até que aparece um lunático do outro lado e propõe a mudança de Indaial, Timbó e Apiúna (nomes de origem tupi-guarani, porque excluem os brancos e os negros). E nós somos impostos a pagar essa gente pra legislar sobre esse tipo de bobagem. 

Infelizmente, essas bobagens têm sido difundidas no ensino superior por uma certa “teoria decolonial” – que não é teoria, é discurso contra o colonizador europeu, como se a colonada que fez este estado prosperar tivesse que pagar indenização pela prosperidade que gerou. 

Depois, essas ideias se disseminam pelas escolas, até serem capturadas pelos demagogos que um tanto de nós elege com a missão de combater o “mal” e reinstituir o estado de natureza do ser humano – como queria o filósofo franco-suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778).

É o que o filósofo britânico Michael Oakeshott (1901-1990) chamou de política da fé, pela qual políticos acreditam, ou fazem crer, que há um jeito de resolver os problemas da humanidade e de curar os homens do pecado original. Mas, isso, desde que os políticos certos cheguem ao poder e instituam governos eticamente capazes de cumprir a missão.  É essa fé platônica, em nada difere das bancadas da fé, que gera disparates legislativos como o mencionado projeto. E a reação gera outros disparates.

É claro que a inutilidade bem paga pelo contribuinte não escolhe lado. Catarinenses, também pagamos bem a Jorge Seif (PL), um senador carioca, eleito por Santa Catarina, para defender a responsabilidade fiscal. Aí, o referido se licencia, abrindo vaga a um suplente, o senhor Hermes Klann (PL-SC), um empresário que, aposto minhas fichas, é a favor da responsabilidade fiscal. 

Pois, o suplente assume a relatoria de um projeto de lei que propõe a isenção do IR a militares, bem no colo do contribuinte. Ora, o referido suplente pode até ser um bom cidadão catarinense, desses para quem o deputado Marquito (PSOL) torce o nariz. Mas que forças o levam a assumir um papel contraditório desses? A política da fé? A fé na política do bem? Bem a quem?

Nada disso é republicano, progressista ou conservador. É eleitoreiro, entranhado na política atual, nas oposições e nos governos, numa fé cínica na guerra entre o bem e o mal. São, aqui e ali, iniciativas banais que jogam gasolina para apagar o incêndio. Vejo isso em atitudes do governador, como as vejo no presidente da República. Por um cálculo eleitoral de soma zero, tudo fazem para conflagrar, ao invés de cooperar, dividir, ao invés de unir a Sociedade.  

Querer mudar o nome do Vale Europeu é só mais uma dessas iniciativas banais, que podem parecer apenas inúteis e inofensivas, a serem ridicularizadas. Mas, são mais que isso: são tijolos na construção do muro da política da fé, que separa pessoas. E, como disse, joga gasolina pra apagar o incêndio, ao provocar a índole coletiva de pessoas com senso de pertencimento, de identidade local-regional, algo que incomoda profundamente os universalistas que sonham com um mundo de iguais, desde que iguais a eles. 

Tudo isso me faz lembrar uma crônica de Raquel de Queiroz, aliás, Rachel, de 1949, intitulada “Olhos azuis”, disponível neste link.

Ali, é provável, se encontre a origem do incômodo do deputado Marquito, um sentimento oculto e profundo, de consequências incertas – assunto pra outra crônica.

Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo, autor de “Capital social em Santa Catarina”, Ed. da FURB


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