Opinião | O que o prefeito Egidio Ferrari pode ter aprendido com o transporte público na China?

A recente missão oficial do prefeito Egídio Ferrari (PL) à China rendeu assinaturas promissoras. Em Jiangsu, o município formalizou tratativas com a Wuxi Xinhongye Wire & Cable, gigante na produção de cabos para veículos elétricos e energia solar. Inserir Blumenau em cadeias globais de inovação é, inegavelmente, estratégico. No entanto, fica o questionamento: entre as agendas em empresas chinesas, o prefeito testou o transporte público chinês, hoje referência mundial? Tomara que sim, e que traga inspiração para mudar a nossa realidade.

Como pesquisador de geografia urbana estudando na China e usuário do transporte público blumenauense, estou observando diariamente um modelo que trata a mobilidade como pilar de desenvolvimento, e não como fonte de lucro privado. Para sermos justos, deixemos de lado a fantástica malha metroviária chinesa. O Brasil patina para garantir esses modais em metrópoles; imagina para Blumenau. O mais alcançável hoje seria um BRT. A exemplo de Florianópolis, a Prefeitura de Blumenau poderia submeter um projeto ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para viabilizar este investimento. Mas, mesmo focando apenas nos ônibus comuns, o abismo entre a China e Blumenau é revelador.

A tecnologia a favor do usuário, não do capital

Na China, o transporte é um direito à cidade, refletido no bolso: a tarifa média custa entre 1 e 2 yuans (R$ 0,70 a R$ 1,40). O pagamento é universal e rápido, feito via aplicativos, QR Code ou cartões bancários diretamente na porta do ônibus (não existe catraca). Em contraste, o blumenauense é refém do cartão da Piracicabana (Blumob é apenas um CNPJ para dar ares locais à empresa paulista), sem flexibilidade para pagar com PIX ou cartões convencionais. E o cenário piora: no fim do ano passado, a Câmara de Vereadores aprovou na surdina, um projeto enviado pelo executivo que retira a obrigatoriedade dos cobradores em todas as linhas (estima-se que 70% das linhas perderão esses profissionais). Dados revelados pelo jornalista Pedro Machado (NSC) mostram que a receita líquida da empresa em 2025 cresceu 11,5% (R$ 142,3 milhões), mas o lucro líquido caiu devido a despesas diversas, entre elas, curiosamente, as obrigações trabalhistas.

Pensando na qualidade do transporte público, os cobradores não deveriam ser demitidos, mas sim requalificados como agentes de bordo, como ocorre na China. Por aqui, os agentes de bordo auxiliam idosos e pessoas com deficiência, informam trajetos e mediam conflitos, permitindo que o motorista foque no trânsito. Em Blumenau, como o motorista fará um embarque acessível sozinho? Quantos minutos o ônibus ficará parado, prejudicando a integração nos terminais? Demitir os cobradores atrasa as viagens na catraca lenta e retira o poder de consumo de milhares de famílias do comércio local, tudo isso para maximizar o lucro de uma empresa paulista. O transporte público chinês entende que a tecnologia não substitui o cuidado humano na prestação de um serviço essencial. Nas grandes cidades, como Pequim, linhas específicas chegam a ter mais de um agente por veículo.

 

Ônibus elétrico chinês com piso baixo operando com um agente de bordo.

Subsídios milionários e falta de contrapartidas

Em 2026, Blumenau injetará cerca de R$ 70 milhões em subsídios na Piracicabana. O problema não é subsidiar, mas a qualidade entregue. A tarifa embarcada subiu 20 centavos, contrariando promessas, e o serviço não acompanhou o retorno da demanda pós-pandemia. A raíz do problema está no contrato assinado pelo ex-prefeito Napoleão Bernardes (PSD): a concessionária ganha por quilômetro rodado, não por passageiro transportado. Logo, quanto mais o ônibus vira uma “lata de sardinha”, maior o lucro.

Enquanto a empresa busca financiamento a juros reduzidos no BNDES para renovar a frota, a Prefeitura de Blumenau deveria exigir contrapartidas do século XXI: veículos elétricos, automáticos, articulados nas linhas principais, piso baixo e ar-condicionado. Na China, a frota já é assim, com horários e linhas que absorvem a demanda. Blumenau, vale lembrar, já teve veículos de piso baixo e articulados quando operada por consórcios locais, que mantinham o dinheiro na nossa economia.

 

Ônibus articulado de piso baixo projetado para acessibilidade e rapidez no embarque que pertencia à frota da Empresa Nossa Senhora da Glória do consórcio SIGA.

De volta para o futuro: a memória dos “vermelhinhos”

Nas províncias chinesas, destaca-se o ASTAR, um micro-ônibus elétrico, extremamente ágil, que realiza embarque e desembarque em qualquer ponto da sua rota nas regiões com pouco fluxo de passageiros (em algumas províncias pode ser solicitado pelo passageiro via smartphone com 5G). A lógica chinesa é clara: não se cortam linhas alegando “baixa demanda”; adapta-se o serviço com veículos menores e econômicos. Atualmente, em Blumenau, corta-se o direito de ir e vir porque rodar com veículos grandes a combustão gera prejuízo em linhas de bairros com pouca demanda.

Micro-ônibus elétrico modelo ASTAR, da fabricante Golden Dragon. Com apenas seis metros de comprimento e capacidade para até 24 passageiros, o veículo destaca-se pela agilidade.

Ironicamente, essa inovação chinesa lembra a Blumenau do ex-prefeito Décio Lima (PT), que utilizava os famosos “vermelhinhos” que basicamente eram micro-ônibus que paravam fora dos pontos fixos, acessando os morros e integrando os bairros aos terminais. Era uma época em que o transporte era pensado como política de integração urbana, com direito a fins de semana com tarifa reduzida ou gratuita. Hoje, perdemos capilaridade e regredimos na infraestrutura.

A partir do contrato de concessão assinado com a Piracicabana, as plataformas climatizadas de pagamento antecipado, que davam fluidez ao fluxo do transporte coletivo, foram desativadas; os “vermelhinhos” que garantiam integração ágil e capilar dos nossos bairros e morros não foram incluídos no novo modelo; e as passagens gratuitas ou reduzidas aos finais de semana foram eliminadas. A cidade já tinha ônibus climatizados em circulação. Com a chegada da nova empresa, a frota retrocedeu a zero.

Para sermos justos, na gestão de Mário Hildebrandt (PL) o ar-condicionado voltou timidamente em 2022, restrito à Linha 10. Dois novos terminais foram construídos. Contudo, o investimento em concreto pouco adianta se as estruturas seguem operando com linhas e horários insuficientes para suprir a demanda represada da população.

O que trazer na bagagem?

Atrair fábricas globais é excelente, mas a verdadeira transformação tecnológica se mede pela qualidade de vida proporcionada pela infraestrutura urbana à população. Diante da renovação da frota através do PAC, o prefeito Egídio Ferrari tem a chance de exigir a modernidade vista aqui na China e no mundo. Porque não adianta atrair empresas globais se não conseguimos resolver os problemas de mobilidade urbana que adoecem os blumenauenses diariamente. Resolver a mobilidade exige planejamento integrado entre as secretarias de Planejamento Urbano, Obras, Trânsito, Transportes e Desenvolvimento Econômico.

O transporte público não pode ser um mero balcão de negócios entregue à iniciativa privada. Aparentemente, na relação com o poder público de Blumenau, é a empresa quem dá as cartas, deixando o interesse coletivo da cidade em segundo plano. Passamos de referência em integração urbana para uma cidade com o trânsito paralisado em qualquer horário do dia. Que os ares da China tragam ao prefeito mais do que promessas industriais: que tragam a coragem política de exigir um transporte público eficiente, sustentável, tecnológico e, acima de tudo, digno para a população blumenauense.

Por fim, é inevitável olhar para o passado recente e constatar o tamanho do retrocesso estrutural da nossa mobilidade. O antigo Consórcio SIGA, composto por empresas locais, operaria com folga e extrema eficiência se contasse com os volumosos subsídios que hoje são injetados na Piracicabana. Se esse montante milionário fosse gerido para valorizar o planejamento local, Blumenau poderia ter continuado a ostentar um transporte público de qualidade, com ônibus articulados de piso baixo e ar-condicionado em toda a frota. Talvez o futuro da mobilidade blumenauense não exige fórmulas do outro lado do mundo; exige apenas o resgate da dignidade, do investimento estratégico e do respeito ao usuário que a própria cidade já provou, um dia, ser capaz de entregar.

Kayuã Girardi, Mestre em Desenvolvimento Regional (PPGDR/FURB), doutorando em Geografia (PPGG/UFSC) e pesquisador visitante em Pequim (MCTI/CNPq)

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