A sete semanas da eleição presidencial de 4 de outubro, o cenário político expõe um dado que desmonta qualquer pressa em proclamar vencedores: 37 em cada 100 eleitores ainda não conseguem citar espontaneamente o nome do candidato em quem pretendem votar. É uma massa expressiva de cidadãos sem escolha definida, que mantém a disputa em aberto e tem potencial para alterar profundamente o rumo da sucessão.
A pesquisa espontânea merece atenção porque mede o grau de cristalização do voto. Quem chamou a atenção sobre esse fato foi a diretora do Datafolha, Luciana Chong, em palestra para empresários paulistas. Ao contrário da estimulada, na qual o entrevistado escolhe entre nomes previamente apresentados, ela identifica o candidato que já ocupa lugar na memória e na preferência do cidadão. Quando 37% não mencionam ninguém, o dado revela que uma parcela expressiva do eleitorado ainda não incorporou a eleição à sua rotina, não se identificou com as opções disponíveis ou prefere esperar o desenvolvimento da campanha.
O contraste histórico reforça a dimensão do fenômeno. Em período equivalente de 2022, os eleitores sem candidato eram 25%. Agora são 37%. A indecisão alcança 45% das mulheres, ante 28% dos homens, e aparece com força entre jovens, moradores da Região Sul e cidadãos não alinhados aos agrupamentos tradicionais. O calendário avança, mas a escolha amadurece lentamente. A polarização domina o debate, porém ainda não conquistou por inteiro o coração nem a razão do eleitor.
As pesquisas estimuladas exibem Lula e Flávio Bolsonaro à frente dos demais concorrentes, reproduzindo, sob novos personagens, a conhecida geografia da polarização. Mas esse retrato não deve ser confundido com sentença. Ao oferecer uma lista, a pesquisa induz o entrevistado a escolher entre as alternativas daquele momento. A espontânea mostra quantos nomes já se transformaram em convicção. Entre reconhecer um candidato numa relação e carregá-lo espontaneamente na cabeça existe uma distância política considerável.
É nessa faixa que pode germinar uma terceira via. Ela não nascerá, porém, da simples existência de indecisos. Indecisão não se converte automaticamente em voto centrista, moderado ou alternativo. Muitos poderão migrar para Lula ou Flávio Bolsonaro; outros optarão pelo voto branco, nulo ou pela abstenção. Para ocupar esse espaço, uma candidatura terá de se tornar conhecida, apresentar uma narrativa clara, demonstrar viabilidade e convencer o cidadão de que não representa apenas um projeto pessoal ou uma composição de cúpulas partidárias.
A terceira via precisa ser mais do que uma terceira candidatura. Deve encarnar uma saída para o cansaço com a polarização, sem cair na neutralidade vazia. Terá de oferecer respostas concretas aos problemas que apertam o cotidiano: custo de vida, emprego, saúde, segurança, educação e corrupção. O eleitor desmobilizado não procura necessariamente um discurso ideológico intermediário. Procura competência, confiança, estabilidade e esperança. Quer saber quem poderá melhorar sua vida e reduzir a temperatura de um país permanentemente tensionado.
Há outro elemento: os candidatos que lideram carregam rejeições elevadas. A rejeição funciona como teto. Um concorrente pode reunir uma base fiel e ruidosa, mas encontrará dificuldade para crescer quando desperta resistência em parcela tão ampla da sociedade. A combinação entre votos ainda não cristalizados e rejeições altas produz um cenário mais aberto do que as aparências sugerem. O favoritismo existe; a inevitabilidade, não.
Para romper a lógica binária, contudo, as candidaturas alternativas terão de superar a fragmentação. Se cada governador, partido ou liderança insistir em preservar seu pequeno território, o espaço potencial se dissolverá. A pulverização fortalece os polos, pois impede que o eleitor identifique quem possui condições reais de chegar ao segundo turno. Uma terceira via competitiva exige convergência, generosidade política e senso de oportunidade. Exige que projetos individuais cedam lugar a um projeto de país.
A eleição de 2026 entra, assim, em sua fase decisiva sob o signo da incerteza. A propaganda, os debates e as entrevistas poderão mobilizar quem ainda observa a campanha em silêncio. Lula parte em vantagem, e Flávio Bolsonaro ocupa o principal polo de oposição. Ambos dispõem de estruturas políticas, bases mobilizadas e forte presença no imaginário nacional. Os demais correm contra o relógio. Mas o relógio ainda não parou, e mais de um terço do eleitorado espontâneo continua sem candidato.
Nada está decidido. Há tendências, favoritos e obstáculos, mas ainda não há veredicto. Se surgir uma candidatura capaz de reunir os dispersos, dialogar com mulheres e jovens, conquistar os independentes e traduzir o desejo de pacificação em um programa convincente, a terceira via poderá deixar de ser hipótese retórica para se transformar em alternativa real. A urna de 4 de outubro continua aberta ao imponderável. E, na política, 37 em cada 100 eleitores representam não um detalhe da fotografia, mas a possibilidade de uma nova paisagem.
P.S.: Flávio Bolsonaro tem um índice de rejeição de 50% e Lula, de 48%, segundo a última pesquisa BTG/Nexus. Mais um índice que expande as incertezas.
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor (USP) e consultor político



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