Opinião | Agência da cidade

Foto: arquivo pessoal

Agência vem do verbo agenciar: articular, negociar, fazer a ponte entre partes e conseguir algo para alguém. Em tempos de rápidas e profundas mudanças, como não ficar para trás? Como compreender as tendências, expectativas e necessidades das pessoas e comunidades e formular um novo desenho para o século XXI, baseado no conceito de “cidade para as pessoas”? Um primeiro passo é reconhecer que nossos modelos, práticas e ideias para o planejamento e produção do espaço urbano estão ultrapassados, pois ainda se baseiam em práticas e lógicas do século passado. Isso é natural: somos o acúmulo de nossas tentativas, experiências e ações, algumas bem-sucedidas, outras não. Mas precisamos não apenas aprender com nossos erros e com o passado, mas criar condições para construir o futuro, formulando soluções participativas, socialmente justas, inovadoras, inclusivas e sustentáveis, capazes de animar a população e devolver esperança às pessoas.

Um espectro paira no ar: o da digitalização, da tecnologia, dos sensores, da Inteligência Artificial, dos algoritmos e das Big Techs que tudo veem e tudo controlam, individualizando, desumanizando, comercializando e objetificando pessoas e relações. Ao mesmo tempo, tecnologia, ferramentas digitais e planejamento urbano baseado em dados não são nossos inimigos, mas oportunidades para construir um novo modelo de planejamento urbano que considere as necessidades das comunidades, fortaleça a participação social e tenha a responsabilidade social e ambiental como diretriz central na formulação das decisões e políticas públicas.

Temos muitos caminhos possíveis. Blumenau já conta com um Centro de Inovação (construído no campus da FURB) e implanta o Distrito de Inovação para ampliar trocas, encontros, novos negócios e a experimentação de processos, produtos, serviços e tecnologias diante das oportunidades e desafios dos novos tempos. Esse desafio pertence à sociedade e envolve todos, mas lideranças políticas, empresariais, acadêmicas e comunitárias podem assumir o protagonismo e ampliar sua participação cidadã. Nosso Ecossistema Local de Inovação (ELI), construído ao longo de quase 20 anos, já alcançou maturidade. A pergunta que podemos fazer juntos é: quais mudanças são necessárias para acelerar o desenvolvimento territorial, diversificar a economia, ampliar a inclusão social e consolidar a inovação como parte do DNA de Blumenau e do Vale Europeu?

Uma oportunidade inclusiva e descentralizada, presente nos bairros, comunidades e espaços públicos da cidade, indo além dos ambientes privados e corporativos, contribuindo para uma cidade com mais ciclovias, praças, parques públicos, arborização urbana, segurança, saúde coletiva, fiação subterrânea e políticas de tarifa zero.

É justamente para enfrentar esse desafio que ganha sentido a criação de uma Agência da Cidade. Nesse cenário, uma proposta concreta se impõe: uma Agência da Cidade vinculada à universidade, capaz de articular permanentemente poder público, empresariado, academia e comunidade em torno de projetos reais de desenvolvimento territorial. Mais do que um espaço físico, seria um dispositivo de agenciamento — no sentido pleno da palavra — conectando demandas, conhecimento e investimentos e funcionando como ponte entre quem formula políticas públicas, produz conhecimento técnico e científico, investe, empreende e vive a cidade no dia a dia. A Agência poderia atuar como braço técnico e propositivo do próprio Distrito de Inovação, formulando projetos-piloto, testando soluções em escala de bairro antes de políticas públicas mais amplas e formando profissionais capazes de pensar a cidade de forma interdisciplinar e socialmente comprometida.

Mais do que tornar Blumenau uma cidade inteligente, o verdadeiro desafio é construir uma cidade inteligente para as pessoas.

Christian Krambeck, arquiteto e urbanista

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