A descoberta da paleotoca na cidade de Lauro Müller, no Sul do Estado, reacende, mais uma vez, um ponto importante: o patrimônio arqueológico e paleontológico, em Santa Catarina, ainda é pouco explorado – e, na maioria das vezes, pouco protegido.
O túnel identificado como paleotoca, de aproximadamente 25 metros de extensão, é uma estrutura subterrânea escavada por animais da megafauna, isto é, animais de grande porte físico e que viveram durante a pré-história brasileira, destacam-se: os tatus gigantes (gliptodonte), hipopótamo americano (mixotoxodon larensis), tigre dente de sabre (smilodon populator), preguiça gigante (megatherium americanum), etc., e interagiram com grupos humanos que habitaram o nosso continente, por volta de 60 mil anos, ancestrais dos povos indígenas atuais, conforme corrobora em suas pesquisas na Serra da Capivara (PI), a arqueóloga franco-brasileira, Niéde Guidon (1933-2025).
Esse tipo de formação ajuda a mapear a presença e a dinâmica de animais pré-históricos no Brasil, especialmente no eixo sul, em que pouco se conhece de um período tão remoto; revela características ambientais do passado (clima, solo, fauna) e pode ter valor científico e também turístico, se bem preservado.
Apesar de essa paleotoca ter sido localizada no Sul do Estado, o problema que ela expõe bate à porta de Blumenau: o choque entre o desenvolvimento urbano acelerado e a preservação histórica. Nos últimos anos, a especulação imobiliária tem alterado sistematicamente as paisagens que guardam a nossa identidade original, substituindo-as por um artificialismo que ignora o passado indígena.
Blumenau é um exemplo disso: a cidade ignora o espaço geográfico como elemento fundamental na formação da memória coletiva, sacrificando-o em detrimento de interesses particulares alinhados a um discurso de progresso econômico. Para se ter uma ideia, recentemente, o município de 385 mil habitantes (IBGE 2025) foi presenteado com mais uma unidade da loja Havan, a quinta da cidade, pertencente ao empresário Luciano Hang. O local escolhido foi um terreno de grandes proporções, desocupado desde 2007, quando foi demolido o Estádio de Futebol Aderbal Ramos da Silva, no seu centro histórico.
Apesar de as obras urbanas não exigirem estudos técnicos arqueológicos prévios rigorosos, quando estes são realizados, ocorrem de maneira muito superficial. Áreas com potencial histórico (antigos estádios, centros urbanos antigos e ou comerciais), como é o caso deste em que fora instalada a Havan, não são tratados como sítios sensíveis, infelizmente. Há pouca integração entre as universidades, prefeituras e órgãos de preservação do patrimônio cultural, em diferentes regiões do Brasil, mas se acentua exponencialmente nos estados sulistas.
Isso não significa necessariamente negligência deliberada; demonstra, na realidade, a falta de uma política pública estruturada, diálogo entre os segmentos político, científico e social e de exigência legal efetiva. Principalmente, a ausência da valorização por parte da comunidade por histórias que fogem à regra de um passado hegemônico, privilegiando deliberadamente um passado estático e europeu.
No fundo, o patrimônio arqueológico e paleontológico só entra no debate quando algo já foi encontrado por acaso, no momento em que houve a tentativa de supressão da vegetação nativa, exploração do solo ou em obras de ampliação e reforma de espaços já constituídos por imóveis de uso residencial ou comercial ou mesmo através de obras rodoviárias. Este último ponto interessa-nos pois, em um caso recente (2018) e regional, ocorrido, na cidade de Ilhota, durante as obras de duplicação da BR-470, no processo de licenciamento da obra foi localizado um sambaqui, contendo entre muitos artefatos, ossadas humanas de aproximadamente 6 mil anos.
Isso é o oposto do ideal. O correto seria o mapeamento preventivo, exigência sistemática de estudos de impacto arqueológico e fiscalização real antes e durante as obras. Fortalecer programas como o de pós-graduação da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE) é um caminho lógico. Regiões que têm centros ativos de arqueologia costumam identificar sítios antes que sejam destruídos; formam profissionais locais capacitados e antenados com o contexto em que vivem; pressionam por políticas de preservação e transformam as descobertas em educação e turismo científico.
Em Santa Catarina, não existe, hoje, uma graduação completa em Arqueologia (como há em outros estados do país, com forte concentração no Norte e Nordeste e, em menor grau, no Sudeste, esta última região possui a tradição e não passou por recente expansão na área, diferentemente das duas primeiras). O caminho costuma ser indireto, através de disciplinas isoladas em cursos de graduação em História, Antropologia e Geografia ou via programas de pós-graduação. Para se ter uma ideia, as universidades que possuem programas de pós-graduação Stricto Sensu, relacionados à área, em nosso estado são: a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) e a Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).
Santa Catarina possui grande potencial arqueológico e paleontológico, com a presença de sambaquis, objetos líticos, oficinas líticas, inscrições rupestres e mais recentemente paleotocas, mas peca quando interessados em aperfeiçoar os seus conhecimentos na área precisam se deslocar (sair do estado) para fazer graduação específica em outro; até mesmo seguir o caminho indireto, cursar um outro curso conforme os citados anteriormente ou abandonar o seu sonho e seguir uma carreira totalmente diferente daquela que foi o seu objetivo inicial.
Vale também ponderar, ampliar campi e investimentos na área é imprescindível, mas não resolve sozinho o problema. Sem legislação aplicada e fiscalização nas esferas estadual e municipal, o conhecimento ficará restrito à academia e o patrimônio continuará sendo perdido pelo processo de urbanização.
Não me surpreenderia se tal negligência fosse, verdadeiramente, um esforço para encobrir o nosso passado pré-histórico indígena. Torná-lo secundário parece um projeto para privilegiar, como sempre, a narrativa de uma tradição histórica regional puramente europeia, de progresso e civilização. Mas, a história de Santa Catarina é muito mais antiga, profunda e rica do que as paredes dos nossos centros urbanos cinzas, verticalizadas tocando os céus e distante das mãos da população, revelam.
Eller Cristine Müller, pesquisadora e professora





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