Opinião: a normalização do Bolsonarismo

Foto: Reuters/Reprodução

A indicação de Kássio Numes para o STF, o jantar com Tofolli e Alcolumbre, a aproximação de Guedes e Maia devem ser vistos a luz das investigações sobre as rachadinhas, as fake News e o gabinite do ódio. Ampliam-se os sinais explícitos de que o Governo Bolsonaro abandonou a estratégia de radicalização e fez sucessivas concessões ao establishment político. Em termos políticos isto significa o limite da Política de Polarização e a aproximação do Centrão. Já em termos práticos isto significa a diminuição da centralidade da estratégia de radicalismo online, e o aumento da negociação política. Este processo tem duas implicações políticas mais evidentes:

  • Fim da Nova Política: o deslocamento do Governo Bolsonaro para o centro assinala o fim da chamada Nova Política. A Nova Política constitui a tentativa do Presidente Bolsonaro de governar sem a negociação política por meio da radicalização para acabar com os vícios fisiológicos. Dito de outra forma, a substituição da lógica de confrontação pela lógica de intermediação política. Neste sentido, reflete o enfraquecimento da ala ideológica olavista e fortalecimento da ala pragmática militar. Ou seja, a percepção política que a contenção da agitação militante implica aumento da aprovação.
  • Início do Bolsonarismo Social: a descoberta imprevista pelo Governo Bolsonaro de que políticas sociais rendem voto. Parece que o Presidente Jair Bolsonaro acabou descobrindo durante a pandemia que a implementação de um programa amplo de transferência de renda pelo Auxílio Emergencial acabou fortalecendo a imagem do governo. Embora o Presidente Bolsonaro seja obtuso politicamente, possui um senso de oportunidade muito apurado. Por isto, a maior parte do esforço do Ministério da Economia compreende encontrar uma forma de política de financiar o Renda Brasil.

O efeito combinado da conciliação e do paternalismo constitui a emergência do Neo-bolsonarismo. O Neo-bolsonarismo compreende o retorno ao Presidencialismo de Cooptação e ao Assistencialismo Populista. Neste sentido, o Bolsonarismo vai se assemelhando cada vez mais ao modo sobrevivência criado pelo Lulismo. É que depois do Mensalão Lula passou a governar combinando Presidencialismo de Cooptação para cima com Populismo Assistencialista para baixo. A recalibragem do discurso e o ajuste da equipe materializam este processo de redefinição do Bolsonarismo. O Bolsonarismo mistura-se assim a geleia ideológica e programática do Centrão.  

O Neo-bolsonarismo significa a diminuição da política virtual nas mídias sociais e o aumento da política real no congresso. Afinal, ampliação do diálogo com grupos políticos no congresso que até pouco tempo não faziam parte do Bolosonarismo implica a diminuição do apoio a política digital do Bolsonarismo Ideológico. Ou seja, a aproximação de partidos como, por exemplo, o PP, MDB, PSDB e DEM teve como consequência o afastamento do 02 e a desativação do Gabinete do Ódio. Portanto, em nome da sobrevivência política o Presidente Bolsonaro afastou os apoiadores radicais (polêmicas ideológicas) se aproximou dos chamados profissionais (fisiológicos). 

Este processo pode ser ilustrado por dois movimentos muito precisos. Primeiro, o Presidente Bolsonaro substituiu seu líder e os vice-líderes do governo na Câmara que eram apoiadores ideológicos por veteranos para formar um cinturão de proteção. Por outro, patrocina a criação de um programa de transferência de renda que penaliza seu eleitorado para favorecer seus novos adeptos. É por isto que o Presidente Bolsonaro deixou de lado o radicalismo de candidato e substituiu pela estratégia negociação política. Portanto, o Presidente Bolsonaro decidiu, ao mesmo tempo, evitar novos confrontos e isolar a militância radical. 

Parece, assim, que a distensão entre os poderes reflete a compreensão do Presidente Bolsonaro dos riscos jurídicos não somente para a continuidade de seu mandato, mas também para sua família. Evidentemente, a moderação do discurso do Presidente Bolsonaro não foi uma escolha pessoal. O Presidente Bolsonaro continua avesso a qualquer tipo de composição. Afinal, tanto sua atuação parlamentar quanto sua campanha basearam-se num discurso agressivo e sucessivas demonstrações de desapreço à democracia. Por isto, na verdade, não foi o Presidente Bolsonaro que escolheu a normalização, mas ela foi imposta. Foi o preço a pagar a proteção. 

Alguns podem dizer aliviados que finalmente o Bolsonarismo foi normalizado. Porém, a normalização do Governo Bolsonaro deixa uma lição muito importante também para a oposição em geral e a esquerda em particular. Afinal, as forças que enquadraram institucionalmente o Bolsonarismo e bloquearam o seu projeto de verticalização do poder, são as mesmas forças que impedem a diminuição das desigualdades social, modernização do Estado ou conquistas civilizatórias. Para o bem e para o mal somos reféns de um conjunto de forças conservadoras que bloqueiam toda proposta de mudança. O crônico problema de desenvolvimento brasileiro deve ser explicado a partir delas.

Portanto, o cavalo-de-pau político efetuado pelo Governo Bolsonaro deixou muitos militantes com a sensação de corno ideológico. Os eleitores perceberam que o Presidente Bolsonaro instrumentalizou a indignação das classes médias prometendo moralização política. Contudo, a valorização dos acordos políticos trai o programa ideológico do Bolsonarismo e desengaja moralmente os eleitores. As duras críticas da militância e de apoiadores nas mídias sociais mostram que nem sempre as condições políticas são compatíveis com o entusiasmo militante. Porém, a negociação não garante reeleição… Afinal, nem tudo que ajuda a governar, ajuda a se reeleger.

4 Comentário

  1. Discurso perfeito… Bolsonaro se tornando cada vez mais o discípulo fiel do Lula… Casa verde e amarela (minha casa minha vida)… Renda Cidadã (Bolsa Família)… Visitas ao nordeste… Auxílio emergencial, que a princípio foi contra, mas depois viu que alavanca voto, e que na campanha era contra esse tipo de programa!!! Só falta a roubalheira, que por sinal já começou … Haja cueca… mas agora está melhor, com a nota de 200, são menos notas para carregar.

  2. Acorda Dotô! Bolsonaro e Guedes são apenas fantoches. Quem manda, desmanda, decide e TRAVA tudo nesse país são os infames congresso e stf!

  3. Ponderada opinião. O movimento de Bolsonaro é prova de que “esquerda” e “direita” governam da mesma forma corrupta. O caminho que resta ao povo é enxugar e diminuir o poder dos políticos, independente do espectro ideológico.

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