Opinião | A delicada coragem de desenhar uma cidade sem medo

Foto: divulgação

O complexo desafio sobre a segurança nas escolas, voltou ao centro do debate público nas últimas semanas, uma pergunta que reaparece sempre que enfrentamos episódios de violência: qual é a melhor solução para garantir segurança, especialmente nas escolas?

A resposta parece simples quando o medo aumenta: mais muros, mais câmeras, mais armas, mais controle. Mas problemas complexos raramente encontram solução em uma única medida. Na mesma intensidade em que pedimos proteção, também cresce outro risco silencioso: o medo da convivência no espaço público, justamente onde a vida cotidiana deveria acontecer.

Quando desenhamos cidades orientadas pelo medo, desenhamos também o isolamento. Isso aparece nos debates sobre segurança nas escolas, nas políticas para população em situação de rua, no receio de cair nas calçadas, na expressão do artista nos muros, na dificuldade de deslocamento ou no medo que muitas mulheres sentem ao caminhar sozinhas pela cidade.

O sociólogo Zygmunt Bauman ajuda a compreender esse dilema ao apresentar dois conceitos que moldam a vida urbana contemporânea: mixofobia e mixofilia.

A mixofobia representa o medo de conviver com o diferente, o desejo de previsibilidade, controle e separação. No espaço urbano, ela se traduz em condomínios fechados, ambientes excessivamente vigiados e espaços homogêneos onde encontramos apenas pessoas semelhantes a nós.

Já a mixofilia representa o movimento oposto: a curiosidade, a disposição para o encontro e o reconhecimento de que a diversidade fortalece a vida coletiva. Ela aparece em ruas vivas, praças ocupadas, escolas integradas ao bairro e espaços públicos onde o encontro acontece de forma natural.

Isso não significa ignorar a necessidade de segurança. Significa compreender que segurança duradoura não nasce apenas da vigilância, ela também depende de pertencimento, confiança, acessibilidade e presença das pessoas na cidade.

É nesse contexto que ganham força conceitos como desenho universal e urbanismo inclusivo.

Uma cidade democrática não trata todas as pessoas exatamente da mesma forma; ela trabalha com o princípio da equidade, reconhecendo diferentes necessidades para garantir acesso semelhante às oportunidades urbanas.

O desenho universal propõe que arquitetura e urbanismo cumpram seu papel social por meio da acessibilidade, da mobilidade e da promoção da qualidade de vida. Entre as medidas possíveis estão calçadas acessíveis, rampas de acesso, banheiros públicos adaptados, sinalização tátil, transporte público inclusivo e espaços urbanos acolhedores e equipados para apoiar as rotinas do cotidiano e do cuidado com a vida.

Pensar uma cidade para as pessoas significa construir rotas seguras e autonomia para o cotidiano. Significa garantir que crianças possam ir à escola, idosos possam acessar serviços e mulheres possam circular sem medo, e sejamos todos pedestres livres.

Exemplos internacionais mostram que esse caminho já está em curso.

Na cidade de Vigo, na Espanha, uma ferramenta passou a medir o nível de acessibilidade urbana a partir da autonomia das crianças. O sistema calcula quantas etapas e qual distância uma criança precisa percorrer para alcançar uma área infantil sem auxílio de um adulto. Os resultados geraram mudanças concretas: ampliação de calçadas, redução de velocidade em áreas escolares e criação de zonas seguras próximas a serviços voltados à população idosa.

Em Auckland, na Nova Zelândia, o programa Escolas Seguras adotou medidas como fechamento temporário de vias próximas às escolas, reorganização de embarque e desembarque, ampliação de travessias e redução de velocidade dos veículos. O objetivo foi tornar o entorno escolar mais seguro e incentivar deslocamentos ativos, a pé ou de bicicleta.

Essas experiências com os espaços para acolher as crianças na cidade também dialogam diretamente com outro desafio que já está transformando as cidades brasileiras: o envelhecimento populacional.

Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, enquanto a população brasileira cresceu 6,43% desde 2010, o número de pessoas com 65 anos ou mais aumentou 57%, representando atualmente 10,9% da população.

Mais do que uma mudança estatística, trata-se de uma transformação urbana.

O envelhecimento solitário já é reconhecido como questão de saúde pública. A solidão entre idosos está associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, depressão e declínio cognitivo. Planejar cidades para reduzir o isolamento significa facilitar o acesso aos serviços e ampliar oportunidades de convivência.

Em Blumenau, esse cenário já é visível. Atualmente, o município possui cerca de 58 mil pessoas idosas. Estudos da FURB indicam que, em até duas décadas, esse número poderá ultrapassar 100 mil habitantes com mais de 60 anos.

O diagnóstico também mostra que 57% da população idosa do município é composta por mulheres, refletindo o fenômeno conhecido como feminização da terceira idade.

Esses dados reforçam uma pergunta que vai além da segurança: para quem estamos desenhando nossas cidades?

Talvez o caminho não esteja apenas em aumentar barreiras, mas em criar lugares onde as pessoas queiram permanecer. Porque cidades mais acessíveis, mais inclusivas e  espaços públicos com mais presença das pessoas tendem a ser também cidades mais seguras.

Segurança não é apenas proteção contra o outro. É também garantir condições para que todos possam conviver juntos.

Daniela Sarmento, arquiteta e urbanista

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*