Opinião | Quando a corrupção leva mais do que dinheiro: leva o futuro

Foto: reprodução

Tem se tornado assunto recorrente as operações desencadeadas pelo Gaeco e pelo Ministério Público em Blumenau nas últimas semanas. As operações revelam mais que um esquema de fraudes e contratos manipulados. Revelam uma ferida profunda: a corrosão da confiança pública. Porque, quando um agente público decide aviltar os cofres do Estado, ele não está simplesmente desviando números de uma contabilidade oficial. Ele está subtraindo esperança, comprometendo o futuro e ferindo o pacto básico que sustenta qualquer democracia, o pacto da confiança.

Os fatos investigados impressionam não só pelo montante financeiro, mas pelo método. A merenda escolar, obras viárias, contratos emergenciais, áreas sensíveis, que afetam diretamente o cotidiano de milhares de cidadãos. Cada propina paga em estacionamento, cada licitação direcionada, cada aditivo forjado é uma agressão concreta à vida da população, especialmente dos mais vulneráveis. Não há abstração possível… o desvio de recursos públicos gera fome, precariedade, atraso, insegurança e pobreza.

É nesse contexto que emerge uma questão incontornável: a responsabilidade política do prefeito à época. Ainda que seu nome não apareça no foco imediato das investigações, muitos envolvidos eram pessoas nomeadas por ele, escolhidas por confiança pessoal, alçadas a cargos de direção justamente para representarem  e exercerem  sua autoridade. Não se governa sozinho; governa-se por meio daqueles que se escolhe. E essa cadeia de escolhas tem consequências.

A responsabilidade do chefe do Executivo, portanto, é total. Se uma quadrilha se instala dentro de uma estrutura administrativa, ela não se instala por acaso. Ela encontra ambiente, permissividade, omissão, e, muitas vezes, prestígio. Não é suficiente alegar desconhecimento. A ignorância, nesse caso, não absolve… compromete.

Prefeitos, governadores, presidentes, todos que ocupam cargos eletivos chegam ao poder carregando consigo o peso simbólico do voto popular. Leva-se para o gabinete a esperança de cada eleitor que apertou o botão da urna acreditando em mudança, eficiência, honestidade, modernização. Quando essa confiança é traída, não é apenas um mandato que falha, é o próprio vínculo entre sociedade e Estado que se rompe.

A gestão pública exige vigilância. Exige controle. Exige critérios rigorosos na escolha de secretários, diretores e coordenadores. Exige coragem para cortar na raiz sinais de corrupção, por menores que pareçam. Porque a corrupção nunca nasce grande: ela cresce onde ninguém olha.

O que se vê agora em Blumenau é o retrato de uma máquina pública que, ao menos em parte, foi sequestrada por interesses privados e criminosos. E isso não aconteceu à revelia da política, aconteceu dentro dela, alimentado por escolhas equivocadas ou por ausência de controle.

É preciso repetir o óbvio: quem elege governantes não elege quadrilhas. E se uma quadrilha opera sob o guarda-chuva da administração, o titular desse guarda-chuva deve explicações…e deve assumir as consequências.

Os cidadãos de Blumenau merecem mais. Merecem transparência, integridade, governança moderna e uma administração que trate o dinheiro público como sagrado, porque é. Cada centavo desviado representa uma oportunidade que deixa de existir, uma rua que não será pavimentada, uma criança que não será alimentada, um atendimento de saúde que não será prestado.

Quando o dinheiro público é roubado, o maior prejuízo não está na conta bancária do município, mas no horizonte de toda uma população.

Futuro roubado não se recupera. E justamente por isso, a responsabilidade política, inteira e indelegável, precisa ser cobrada com rigor.

Edson José de Souza, engenheiro e empreendedor

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