Opinião | O conservadorismo relativizado pela história – parte III

Foto: Marcelo Martins/PMB/Reprodução

A ética da ordem e o voto inesperado

Há um imaginário persistente sobre o Vale do Itajaí e Santa Catarina em geral, já mencionado em dois artigos precedentes nesta Coluna: o de que o estado consolidou uma cultura social conservadora – notadamente no seu comportamento eleitoral. A imagem é próxima daquilo que o sociólogo Max Weber descreveu como uma ética da produtividade — disciplina, racionalidade econômica, valorização do trabalho e previsibilidade institucional. Em tese, um terreno pouco propenso a aventuras políticas, avesso a mudanças abruptas.

Mas a história eleitoral de cidades como Blumenau, mas também Joinville, sugere algo mais dinâmico e complexo, em que, historicamente, a ordem social não implica rigidez política, como entendem os mais desavisados, externa e internamente.

Durante o regime militar, quando o país foi submetido ao bipartidarismo, seria natural imaginar que uma cidade com esse perfil gravitasse de forma consistente em torno da ARENA, o partido do governo. Ainda assim, Blumenau faz um movimento precoce e persistente em direção ao MDB, o partido contrário à ditadura, elegendo sucessivamente vários prefeitos do partido de oposição – MDB, desde 1970. Ou seja, a sequência de prefeitos de Blumenau entre 1966 e a abertura política, até meados dos anos noventa (38 anos), revela uma dinâmica mais complexa, como se pode ver abaixo: 

Carlos Curt Zadrozny (1966–1970) – ARENA 

Evelásio Vieira (1970–1973) – MDB 

Félix Theiss (1973–1977) – MDB 

Renato de Mello Vianna (1977–1982) – MDB 

Ramiro Ruediger (1982–1983) – PMDB 

Dalto dos Reis (1983–1988) – PMDB 

Vilson Pedro Kleinubing/Vitor Sasse (1989-1992) – PFL

Renato de Mello Viana (1993-1996) – PMDB

Décio Lima (1997-2004) – PT (reeleito)

Ou seja: ainda durante o regime, Blumenau não apenas elegeu, mas consolidou a oposição. Em plena vigência de um sistema político controlado, com restrições institucionais claras, a cidade migra da ARENA para o MDB já em 1970. E não volta atrás. Ao contrário: aprofunda essa escolha ao longo da década de 1970 e vai até meados da primeira década deste século, somando quase quatro décadas.

Isso não é trivial. O MDB, como se sabe, era a única legenda de oposição permitida, funcionando como um canal institucional para o descontentamento. Em muitos lugares, diga-se, na maioria das cidades brasileiras do interior, sua força era limitada. Em Blumenau, não. Aqui, o “conservadorismo” conviveu com algo mais pragmático: a disposição de votar contra o poder estabelecido quando necessário. 

A abertura política no Brasil deu continuidade do padrão, isto é, com o fim do regime e a redemocratização, poder-se-ia imaginar uma inflexão. Talvez uma volta a um eixo político mais previsível. Mas, a tendência favorável a um partido antielitista e em defesa nacional pela democracia se manteve. A sequência pós-ditadura ganha alguma alternância e a fluidez, mas não de uma contra hegemonia estável. Blumenau não se comportou como um bloco ideológico homogêneo, mas como um eleitorado que oscila — às vezes com critérios locais, às vezes com critérios nacionais, frequentemente com ambos – atualmente, este último critério tem pesado bastante e em todo o Brasil.

Em 1996, Blumenau elege Décio Lima, do Partido dos Trabalhadores, que governaria de 1997 a 2004. Então, em 35 anos, Blumenau teve apenas quatro anos de um executivo declaradamente conservador. A eleição e reeleição de um prefeito do Partido dos Trabalhadores não fora coisa do acaso, mas um caso emblemático. Uma cidade frequentemente associada a valores de ordem, disciplina e tradição escolhe um partido que, à época, era identificado com sindicalismo, movimentos sociais e crítica estrutural ao modelo econômico.

Para quem insiste em categorias rígidas — “cidade conservadora”, “eleitorado previsível” — isso soa como contradição. É fato que em 2022, Jair Bolsonaro teve aproximadamente 68% dos votos no primeiro turno e mais ainda no segundo. Mas, também é fato que vinte anos antes (2002), Lula da Silva obteve cerca de 65% dos votos. Hoje, é governado por forças conservadoras e talvez continue assim por um bom tempo, a depender da capacidade administrativa, diante de um eleitor tradicionalmente independente e muito, muito “reclamão”. 

Portanto, historicamente, o eleitor de Blumenau e outras cidades catarinenses não confirma a ideia de um conservadorismo rígido, linear e previsível. O que a trajetória revela é algo mais complexo: um eleitorado capaz de combinar valores de ordem e disciplina com decisões políticas circunstanciais, ajustadas ao contexto histórico. Se há um padrão, ele não é ideológico, mas adaptativo – a teoria da evolução explica. E é justamente essa capacidade de mudança — ainda que silenciosa e muitas vezes contraintuitiva — que relativiza, pela própria história, qualquer tentativa de rotular de forma definitiva o comportamento político catarinense.

Na próxima e última crônica desta série sobre o conservadorismo catarinense, farei uma comparação de Blumenau e Joinville com grandes cidades do interior de estados que votaram em Lula nas últimas eleições, comparando as trajetórias eleitorais mais ou menos conservadoras entre elas. E tentarei também responder porque o eleitorado pode alternar radicalmente suas escolhas.

Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo/Canal no Youtube: SC Think Tank

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*