Opinião | O feitiço que volta, com toga e tudo

Foto: reprodução

Há ironias que são tão perfeitas que parecem roteirizadas. A política brasileira, generosa como sempre, entregou mais uma, parte da chamada esquerda foi contra a indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal. Sim, o mesmo Moraes que hoje é tratado por muitos desses mesmos setores como uma espécie de bastião da democracia, ou, no mínimo, como a última linha de defesa contra o caos institucional.

Na época da indicação, o currículo causava urticária. Moraes vinha da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo com números de letalidade policial difíceis de relativizar. Em 2015, a polícia paulista matou 848 pessoas. Em 2016, já sob sua gestão, o número passou de 900 mortes decorrentes de intervenção policial. Para quem sempre denunciou o excesso do braço armado do Estado, não era detalhe, era o ponto central.

E não parava aí. Pairavam também acusações e narrativas políticas sobre sua atuação como advogado em casos envolvendo integrantes do crime organizado, algo que ele sempre negou e que nunca resultou em condenação. Ainda assim, o estrago político estava feito. Para muitos setores, especialmente à esquerda, seu nome era sinônimo de tudo aquilo que se dizia combater.

Corta para alguns anos depois.

O mesmo Alexandre de Moraes vira protagonista central no enfrentamento à tentativa de ruptura institucional no país. O mesmo ministro conduz processos que culminam, entre outros desdobramentos, na condenação do ex presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. E, como num passe de mágica, o antigo problema vira solução emergencial.

E aí entra o detalhe que desmonta qualquer narrativa confortável.

Mesmo hoje, longe daquele momento de indicação, episódios recentes, como o chamado “caso Master”, voltam a colocar Moraes sob questionamento público e político. Ou seja, a desconfiança nunca desapareceu, ela apenas foi convenientemente ignorada enquanto o alvo era outro.

O que mudou, Moraes, ou a conveniência?

A resposta mais honesta é simples, mudou o interesse.

A política brasileira tem esse talento curioso de transformar vilões em heróis provisórios. Não se trata de absolver o passado de Moraes, ele continua lá, com seus números, suas polêmicas e suas contradições. Mas também não dá para ignorar o pragmatismo seletivo de quem, ontem, rejeitava seu nome e, hoje, relativiza tudo isso porque ele se tornou útil.

E é aí que mora a lição, amarga, mas necessária.

Quando o debate político abandona princípios e passa a operar apenas na lógica do contra quem, e não do a favor do quê, o risco é inevitável. Hoje você aplaude porque o alvo é o seu adversário. Amanhã, o mesmo instrumento pode estar apontado para você.

Não é sobre defender Jair Bolsonaro, nem sobre atacar Alexandre de Moraes. É sobre coerência, essa raridade em extinção.

Porque, no fim das contas, o sistema não muda de natureza só porque, desta vez, está funcionando a seu favor.

E a política, como a vida, tem memória longa e senso de humor afiado.

Cuidado com o que você deseja de mal ao outro. No Brasil, isso não só volta, como volta com toga, caneta e poder.

Marco Antonio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

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