Estamos em meados da segunda década do século XXI, na época em que tecnologias como a IA avançam diuturnamente em suas funções e, com ela se apresenta a promessa da informatização da vida que se renova a cada procedimento maquinalmente desenvolvido. Porém, a sensação é a de que, paradoxalmente, o mundo novo é como aquele que se supõe superado com a revolução tecnológica das últimas décadas e que, portanto, a história se repete.
Rememorando a história recente, as primeiras décadas do século XX são marcadas por uma profunda crise do regime de acumulação de capital. Naquele contexto, estava em jogo para os países geopoliticamente centrais, sobretudo a Inglaterra (potência econômica e militar hegemônica), manter o domínio sobre os demais povos e países. Por outro lado, França, Itália, Holanda, Alemanha, entre outros países da Europa ocidental reivindicavam sua parcela de participação na ordem política e econômica global em curso. Naquele contexto, a crise de acumulação de capital (própria ao capitalismo) no plano externo foi aliviada com a expansão do imperialismo europeu sobre o continente africano e sobre povos asiáticos e latino-americanos.
No plano europeu interno eclode a Primeira-Guerra, de 1914 a 1918, marcada pelo horror da produção em série de cadáveres nas trincheiras e campos de batalha. Em 1930 manifesta-se a extensa e profunda crise do capitalismo, em seu regime de acumulação de capital realizado a partir da exploração e expropriação do trabalho humano e da vida em sua totalidade, intensificando as tensões que irão acelerar contradições e conflitos mundiais. É neste contexto que entre os anos de 1919 a 1939 a crise do capitalismo em sua vertente europeia produzirá as experiências totalitárias do fascismo italiano (e que rapidamente se expandiu por diversos países como Espanha, Portugal, Japão) e, assumindo a forma do Estado nazista, na Alemanha a partir de 1933. O resultado foi a Segunda Guerra (1939-1945) que assumiu proporções mundiais em seu rastro de destruição.
É assim que se compreende que as primeiras décadas do século XX foram marcadas pela explosão da violência no interior das sociedades europeias. Especificamente, da violência na forma de guerras e de barbárie promovidas pelos países centrais do capitalismo imperialista sobre os povos do mundo. Culturas devastadas, massacres de povos, destruição de mundos, banhos de sangue, redefinição de fronteiras e interesses geopolíticos estratégicos vinculados ao capitalismo promovido pelos países centrais. Ao final da Segunda Guerra, abriu-se uma nova guerra, a guerra-fria marcada pela disputa geopolítica entre dois blocos políticos e econômicos hegemônicos em suas regiões de influência. O bloco capitalista capitaneado pelos Estados Unidos e países da Europa Ocidental e o bloco socialista capitaneado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Em nome dos interesses de uma das partes beligerantes no contexto da Guerra Fria, povos e países foram invadidos, populações civis foram violentadas e mortas aos milhares. Entre estes conflitos encontram-se: Guerra das Coreias (1950-1953); Guerra do Vietnã (1955-1975); Crise dos mísseis em Cuba (1963); Guerra do Afeganistão (1979-1989). Estes são alguns dos tantos conflitos que poderiam aqui ser listados e que promoveram, sob justificativa de levar progresso e desenvolvimento aos povos subalternos às potências de plantão, rastros de destruição e morte em escalas jamais vistas pelos seres humanos em contextos pregressos.
O que estamos assistindo de forma espetacularizada a partir dos sofás de nossas salas de estar e defronte aos nossos televisores nestas primeiras décadas do século XXI é a expressão do “eterno retorno” (remontando a Nietzsche) das crises do regime de acumulação do capital e de suas brutais estratégias de recomposição da acumulação. Com a decomposição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1989, o cientista político norte-americano Francis Fukuyama (1952) aligeiradamente anunciou a tese do “Fim da história”. Para o referido autor, o capitalismo saiu vencedor da Guerra Fria. O modo de produção capitalista, de intensa produção de valor de troca em âmbito global, de bens de consumo e de mercadorias, que sob os imperativos do mercado prometia levar os seres humanos a prosperidade e, por decorrência ao fim dos intermináveis e sangrentos conflitos que afligem os seres humanos, havia vencido o socialismo e assim justificava-se como o mais apropriado sistema de organização econômica, política e social, desde que povos e culturas se submetessem aos seus imperativos. Porém, para o economista francês Pierre Salama (1942-2024) o problema do futuro do capitalismo é o próprio capitalismo.
Afirmar a vitória do capitalismo também revelava e revela uma incômoda falta de significado: isto é, o que significa que o capitalismo afirmou sua primazia diante de propostas socialistas? Qual o aspecto especificamente capitalista que emerge no triunfo desse sistema sobre demais propostas políticas, econômicas e sociais? Necessariamente marcado pela produção do valor com base na extração de mais-valia pela expropriação da terra e exploração do trabalho, a afirmação e manutenção do capitalismo depende, ao mesmo tempo, de indivíduos, trabalhadores, gestores, desempregados, pobres… depende de todos esses que de um modo ou de outro permitem que a máquina da produção de valor reproduza também desigualdades insuperáveis. Afirmar a vitória do capitalismo, nesse contexto, é quase um paradoxo: não se pode dizer que existem vencedores quando a vida humana permanece apenas um meio para uma forma de acúmulo.
De toda forma, a efemeridade da tese de Fukuyama não resistiu mais do que alguns meses até eclodir a Guerra Civil da Iugoslávia entre 1990 a 2001, com intensa participação norte-americana e europeia na desintegração da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Bombardeios massivos, massacres e chacinas de minorias patrocinadas pelo “Ocidente coletivo” foram a tônica do conflito. Em nome da defesa dos direitos humanos e da promoção da democracia, os EUA e seus aliados europeus promoveram a Guerra do Afeganistão entre 2001 a 2021; Guerra do Iraque (2003 – 2011); Intervenção na Líbia (2011), entre outras intervenções e financiamento de conflitos no continente africano e latino-americano.
Todo este percurso histórico demonstra de forma inequívoca que a acumulação de capital enquanto fundamento ontológico do capitalismo se realiza sobre a exploração e expropriação do trabalho humano, bem como com sobre a expropriação, senão a destruição da vida humana e natural. Quando estas agressivas formas de expropriação da vida são questionadas em esferas que incidem sobre a forma de extração do lucro, da concentração da riqueza e socialização massiva da desigualdade, o “sistema” responde de forma agressiva, brutal, destrutiva, tanatopolítica. Trata-se de promover a violência de forma generalizada, de destruir a política como arte da palavra, do discurso, da ação humana em torno das questões públicas vitais para o compartilhamento do mundo entre os seres humanos.
No início do século a destruição da política passou pela disseminação do fascismo e do nazismo. Ambos, filhos diletos do capitalismo. Na atualidade a destruição da política se expressa no desprezo dos indivíduos pela política e, ato contínuo, adesão à lógica de mercado de satisfação individual via crédito e consumo. Passa pelo aniquilamento dos partidos políticos, instituições outrora detentoras de um programa político e ideológico específico a ser debatido com os cidadãos eleitores. Reduzidos a meras siglas, destituídos de ideologia e de programática política, apresentam-se como grupos de oportunistas com pretensões obscuras em relação à administração pública. Relaciona-se também com o financiamento pelo capital em crise de grupos de extrema direita que sob os escombros da política e de forma ambivalente anunciam às massas de indivíduos, capturando os afetos das multidões, a salvação nacional por meio do patriotismo, dos valores morais, da família e da propriedade. Mas que também anunciam ao capital as garantias de uso dos ativos do Estado e cerceamento dos direitos trabalhistas e sociais das massas, como estratégias de sustentação do regime de acumulação do capital. Estratégias já bem conhecidas a partir das experiências fascistas e nazistas das primeiras décadas do século XX.
Sob todos estes aspectos e no âmbito da crise atual do capitalismo, sejam eles de ordem interna aos povos e países, sejam eles de ordem externa, trata-se sempre de eleger e difundir ideologicamente um inimigo externo ao sistema. Um inimigo que diuturnamente se esforça para destruir as infindáveis e nunca alcançáveis promessas de progresso e desenvolvimento – dois termos utilizados à esmo sem nunca serem questionados em seus significados. Um inimigo que odeia os direitos humanos e a democracia promovida pelo sistema. Um inimigo que odeia as promessas de prosperidade ofertadas pelo capitalismo. Um inimigo perverso que no entardecer se alimenta de corpos de crianças indefesas, que maltrata velhinhos, que não quer a tão almejada “Paz” advinda da exploração e expropriação promovida pela generosidade do capital e implementada pela adesão incondicional à lógica de mercado.
Este inimigo conhecido de todos nós, pois anunciado ideologicamente durante décadas, foi e é o comunismo, o socialismo e até mesmo o anarquismo, tão desconhecido como desafortunadamente interpretado por analfabetos funcionais ventríloquos dos argumentos ideológicos do capital. Mas este inimigo também é materializado na Revolução Cubana que ousou questionar a lógica do império do capital norte-americano e de seus aliados europeus. Este inimigo é o movimento bolivariano liderado inicialmente por Hugo Chaves e sua defesa intransigente das riquezas naturais venezuelanas. Este inimigo é o Irã e sua longeva trajetória civilizacional de mais de 4.000 anos. Este inimigo é a China, também ela com uma cultura de milênios. Este inimigo é qualquer pensamento ou posicionamento crítico, que questiona a brutalidade, a voracidade pelo consumo dos corpos inerentes à lógica do capital.
Nos últimos anos assistimos a Guerra entre a Rússia e a Ucrânia consumindo vidas, enquanto as indústrias do complexo militar do Ocidente lucram bilhões de dólares. Assistimos ao genocídio da Faixa de Gaza promovida pelo Estado sionista de Israel, afiançado pelos Estados Unidos. Não assistimos aos massacres promovidos pela Guerra Civil no Sudão e em outras regiões da África porque são filtrados pelas redes sociais e agências oficiais de notícias. Estamos assistindo a agressão promovida novamente pelos estados párias do direito internacional (EUA e Israel) em relação ao Irã, que ousa afirmar seu direito à existência e ao desenvolvimento de seu povo. A barbárie do capital encontra-se em curso na contínua produção de valor de troca associada à brutal destruição do mundo humano, na disseminação da desigualdade, da fome, da miséria e, sobretudo, da morte. Parece que a ideologia do progresso e do desenvolvimento disseminada pelo Ocidente somente pode se efetivar sobre cadáveres, a partir da socialização da morte.
No plano interno, os brasileiros continuam enredados no lamaçal da falência da política, terreno propício para vicejar o ódio contra os pobres, contra minorias sociais, enfim, contra os históricos inimigos do Brasil, entre eles: o comunismo, as vacinas, os que pensam os que fazem pesquisa, os que defendem a primazia dos interesses públicos em relação aos interesses privados. Evidencia-se a cada dia o desprezo da classe média, títeres das elites oligárquicas sobre as classes pobres do país como responsáveis pelos limites, senão ausência de propostas de desenvolvimento nacional que paira sobre o país.
O tempo em que estamos vivendo está chocando o ovo da serpente (Gramsci). A lógica nazi-fascista ronda o mundo. Ela adentrou as nossas casas. Talvez, como sugerem alguns pensadores e intérpretes, o Ocidente ao longo do século XX nunca tenha de fato se desnazificado. O desafio, nestes tempos sombrios (Hannah Arendt) é manter-se intransigente em relação a toda e qualquer forma de violência que incide sobre a vida. Trata-se de manter a capacidade de posicionamento crítico e de denuncia diante da cultura da morte, do genocídio que tem em Gaza sua forma mais brutal e desumana em curso. Trata-se de ser intransigente em relação à morte da política, pois se a política não nos garante o céu, ela nos livra do pior dos infernos. Ou seja, a política ainda é o espaço em que os interesses humanos podem ser definidos e defendidos diante da máquina destruidora do capital.
E, sobretudo, prezado leitor, se você chegou até este ponto do texto solicitamos que não nos confunda. Não se trata de debate de torcida contra ou a favor do Flamengo, ou de qualquer time de futebol do qual seja torcedor. Dito de outra forma, não se trata de ser contra o capitalismo e a favor do comunismo, ou vice e versa. Trata-se de reconhecer que os grandes projetos societários da modernidade em seus antagonismos escondem profundas contradições que violentam a vida. Também não se trata de contraposição à racionalidade instrumental que afirma a primazia da economia sob a tutela da lógica de mercado e contra a ação do Estado e vice-versa em curso na contemporaneidade. Trata-se de defesa da vida e da política como arte do discurso, da negociação em torno de um mundo, que acolha e promova a vida em sua totalidade de formas de manifestação. Nesta direção, urge pensar formas de uso comum do mundo que transcenda o mero valor de troca próprio do fetiche da mercadoria em curso na atual quadra histórica.
Sandro Luiz Bazzanella, Professor de Filosofia e
Sandra Eloisa Pisa Bazzanella, pesquisadora em Filosofia




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