Opinião: o fim do papel e com ele o triste acesso à informação

Imagem: reprodução

Há alguns dias, circulou a notícia em um dos periódicos da região do Vale do Itapocú, a respeito do fim do uso de papel nas repartições públicas. Realmente, a proposta à primeira vista se mostrou atrativa, ainda mais quando se referiram muito bem a redução de custos e a preocupação ambiental. Somente isso bastava para causar atração nos olhos atentos dos condutores dos paços municipais. Se mensurassem o número de cidades no Estado de Santa Catarina, com toda certeza, haveriam maiores competidores, é um nicho de mercado cabível por sua forma simples de aplicabilidade, isso não quer dizer módico, e inovadora pela quase que insignificante concentração de usuários atualmente.

No entanto, o tema carece de maiores informações, e foi por isso que decidi escrever sobre este assunto. Afinal, boa parte dos leitores passaram batido diante a matéria, não os culpo, também passaria, pela aparência desinteressante para um leigo e simplista para um conhecedor do assunto seria esta uma opção desejável. Ela nos disse tudo e não disse nada.

Digo, este deve ser um daqueles temas que costumeiramente chamamos da pedra no sapato dos historiadores e arquivistas. Inofensivo? Não. Nos últimos anos, fomos pegos pela inovação, a Geração Z, entende-se nascidos a partir de 1995, já fazem parte do universo consideravelmente movido pelas tecnologias. Os avanços da ciência, pelo menos das três últimas décadas nos prepararam, de certo modo, para antever a sucessão de ofertas que viriam pela frente por um mundo globalizado. Consequentemente, o consumismo desenfreado alavancou a economia daqueles que detém as melhores tecnologias, potencializando as condições que suprem o mercado interno e externo (dependente, como é o caso do Brasil), e, isso acabou por fortalecer o posicionamento estratégico de alguns países no mercado mundial. Mas, por outro lado, cresce o desespero das nações mundo afora que nos enche de porcarias e, ao mesmo tempo, clama por ações ligadas as pautas ambientais.

Mas, e o papel? Ah… ele já teve outra importância no passado. Até o século XIX, a historiografia comportava o estudo do passado a partir da existência de documentos que pudessem atestar com veracidade o cotidiano das populações, isto é, que pudessem ser comprovados cientificamente segundo as operações metodológicas da época. Portanto, documentos desse suporte eram majoritariamente considerados imprescindíveis para a História, quando se poderia atribuir procedência “confiável”, lê-se aqueles originados de instituições “oficiais” eclesiásticas, órgãos públicos e demais segmentos da sociedade, que possibilitassem reconstruir as histórias das civilizações e dos povos. 

Claramente, essa ideia se alterou muito nos últimos anos, contudo, o papel continua sendo indispensável, tanto quanto um livro físico para um leitor assíduo. Na primeira metade do século XX, os historiadores da Escola francesa dos Annales propuseram novas abordagens e métodos a História, e se mantém até os dias de hoje, uma das mais importantes fora a expansão do que se entendia por documento histórico. Um século antes, bem sabemos, o papel era o protagonista. No entanto, nas décadas de 1930/40, houve uma ampliação gradual das possibilidades, “Tudo aquilo que fosse resultado da ação humana” passou a ser considerado um documento histórico, desde as pinturas rupestres da Serra da Capivara, no Nordeste brasileiro até “Pra não dizer que não falei das flores”, canção de Geraldo Vandré, que ao serem avaliadas poderiam ser conduzidas a posição de Fonte Histórica numa pesquisa. Atrelado a formulação de um Problema, teríamos, finalmente, os dois elementos fundamentais que principiam a operação historiográfica.

O que preocupa, neste momento, é a política arriscada aplicada aos documentos históricos que porventura, no futuro, possa interessar ao faro detetivesco dos Historiadores e demais pesquisadores em outras áreas. Como preservar arquivos digitais para posteridade? A precipitada ação pode custar não apenas a eliminação de um suporte cuja pena deposita conteúdo, mas também a dificuldade de acesso à informação havendo a migração para a informatização. Resta-nos saber se estamos realmente preparados para que todos detenham-na ou estamos sepultando o conhecimento à custa de uma liberdade que há tempos se mostra seletiva e de conveniência?

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