Opinião | O começo do fim? A interferência de Trump expõe a fragilidade da FIFA e ameaça o futuro da Copa do Mundo

Foto: AP Photo/Evan Vucci/Reprodução

A Copa do Mundo sempre foi apresentada como o maior símbolo da igualdade no esporte. Durante noventa minutos, pouco importavam o tamanho do país, o poder econômico ou a influência política. Dentro de campo, todos jogavam sob as mesmas regras.

Pelo menos era isso que acreditávamos.

A Copa de 2026 pode entrar para a história não apenas pelos gols, pelas surpresas ou pelos campeões. Ela pode ser lembrada como o momento em que o mundo começou a questionar se o futebol continua sendo governado pelas regras do jogo ou pelos interesses de quem concentra mais poder.

Durante anos, pesquisadores alertaram que as mudanças climáticas poderiam colocar em risco o modelo atual da Copa do Mundo. Ondas de calor extremo, incêndios florestais, enchentes e eventos climáticos cada vez mais severos já obrigam organizadores a rever horários, calendários e até os critérios para escolha das sedes.

O problema, porém, deixou de ser apenas ambiental.

Nesta Copa, outro fato ganhou proporções muito maiores do que um simples lance dentro de campo. A intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, para pedir a revisão da punição aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun desencadeou uma crise institucional que ultrapassou as quatro linhas.

Mais do que discutir um cartão vermelho, o episódio levantou uma pergunta incômoda: se um chefe de Estado consegue influenciar uma decisão disciplinar durante uma Copa do Mundo, quem realmente governa o futebol mundial?

A resposta da UEFA foi imediata e contundente. A entidade criticou duramente a decisão da FIFA e alertou para o risco de um precedente que comprometa a independência das competições internacionais. Quando uma confederação do peso da UEFA questiona publicamente a condução da principal entidade do futebol, o problema deixa de ser um caso isolado e passa a atingir a credibilidade do sistema.

Ao mesmo tempo, outro debate voltou a ganhar força.

No futebol moderno, nunca se movimentou tanto dinheiro. Direitos de transmissão, contratos de patrocínio, publicidade, plataformas digitais e apostas esportivas transformaram atletas em ativos globais de bilhões de dólares.

Nesse cenário, toda vez que um jogador de enorme apelo comercial é convocado mesmo cercado por dúvidas sobre sua condição física, surgem questionamentos inevitáveis sobre o peso dos interesses econômicos nas decisões esportivas. Não há provas de que fatores comerciais determinem convocações, mas a recorrência desse debate revela um problema em si: parte dos torcedores já não acredita que apenas o mérito esportivo seja suficiente para explicar todas as escolhas.

E quando a confiança desaparece, perde-se o maior patrimônio do esporte.

O futebol nunca foi apenas um negócio.

Ele se tornou o esporte mais popular do planeta porque vendeu algo que dinheiro nenhum poderia comprar: a sensação de justiça dentro de campo.

É essa confiança que hoje parece ameaçada.

De um lado, cientistas alertam que as mudanças climáticas exigirão uma transformação profunda na forma como a Copa do Mundo é organizada.

De outro, cresce a percepção de que decisões esportivas podem sofrer pressões políticas e econômicas cada vez maiores.

Se essas duas crises caminharem juntas, talvez o maior risco para a Copa do Mundo não seja o calor extremo, nem a expansão do torneio ou os custos bilionários de organização.

O maior risco será a perda da confiança.

Porque uma Copa do Mundo sobrevive sem um grande craque.

Sobrevive sem uma seleção favorita.

Sobrevive até sem um país tradicional.

O que ela não consegue sobreviver é sem credibilidade.

Talvez esta não seja a última Copa do Mundo.

Mas poderá ser lembrada como a Copa que marcou o começo do fim de uma era: a era em que o torcedor acreditava que o resultado de uma partida era decidido apenas pelo talento, pela estratégia e pela coragem de quem estava dentro das quatro linhas.

Se o futebol perder essa confiança, continuará sendo um espetáculo.

Mas deixará de ser aquilo que o transformou na maior paixão esportiva do planeta.

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

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