Opinião | A caricatura e a realidade

Imagem gerada com IA

A imagem de Santa Catarina costuma aparecer de modo caricaturado nas redes sociais. Muitos descrevem o estado pelos excessos de parte de seu eleitorado, reduzindo todos a adjetivos como “bolsonarista”, “fascista”, “racista”, “xenófobo” e por aí vai. Aí, o julgamento vem pronto, embalado em certezas morais e nenhuma reflexão ética. É certo: temos algumas estultices, como a possibilidade de eleger mais um embusteiro ao senado, defenestrando um dos melhores senadores do País, pelo sectarismo de uns vinte por cento do eleitorado – democracia não privilegia inteligência. Ainda assim, simplificações ignoram os detalhes que constituem um estado acima da média e solidário com o País.

Frequentemente apontado como símbolo máximo do conservadorismo brasileiro (algo que relativizei nos meus três artigos antecedentes), Santa Catarina tem o melhor índice de distribuição de renda do País, liderando o coeficiente de Gini ininterruptamente, no Brasil, desde 2012. Isso significa uma sociedade menos distante do ideal de “liberdade, igualdade e fraternidade”, o grande sonho da Modernidade. Pequenas cidades industrializadas, cooperativismo, empreendedorismo regional e forte presença comunitária ajudaram a construir esse cenário. O estado cresceu distribuindo melhor sua riqueza, o que abre espaço à solidariedade.

Nessa perspectiva, Santa Catarina tornou-se, proporcionalmente, o maior doador de órgãos do País (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos – ABTO). Significa que milhares de famílias, em dor extrema, autorizam a doação de órgãos para salvar vidas desconhecidas. É um gesto silencioso de solidariedade que dificilmente combina com os adjetivos preconceituosos atribuídos ao estado. Uma sociedade que lidera a doação de órgãos revela confiança institucional, organização e cultura cívica. Afinal, doar órgãos não é um ato ideológico; é um ato moral.

Curiosamente, parte do debate público é incapaz de lidar com as ambiguidades. Quando um estado vota majoritariamente em candidatos conservadores, muitos passam a enxergar sua população como moralmente desprezível e socialmente perigosa. Gera-se a lógica tribal em que o adversário político passa a ser tratado como problema antropológico. O resultado é o empobrecimento da compreensão do Brasil real. Porque sociedades concretas são feitas de histórias, contradições e experiências tão complexas quanto as escolhas eleitorais.

Santa Catarina possui contradições, como qualquer sociedade. Há episódios de preconceito e radicalização política (como se fosse só aqui!), mas também muitos dos melhores indicadores sociais do País, como a doação de órgãos, as taxas de analfabetismo e os elevados índices de capital humano e social. Reconhecer essas virtudes em um território politicamente divergente é insuportável para certas narrativas “do bem acima do mal”. Seja ele quem for, seja qual for o grande plano, a fé cega na grande razão da política, ou num líder carismático, tem verdadeiro pavor à diversidade de ideias e valores. Seus adeptos, não receio em afirmar, preferem a servidão, o uso das caricaturas, e tem nojo do liberalismo.

É irônico que o estado menos desigual do País, seja acusado de egoísmo político ao mesmo tempo em que lidere justamente um dos maiores gestos de generosidade humana: a doação de órgãos. Enquanto o debate digital produz ofensas, milhares de catarinenses autorizam a doção de órgãos, sem preconceito, por uma decisão moral acima de qualquer caricatura. Talvez isso diga algo importante sobre a distância entre discurso e realidade. Nem sempre quem fala mais sobre empatia pratica mais empatia. Atos morais, sim, fazem política e os indicadores sociais contam a história, muito acima de narrativas e caricaturas.

Muito acima estão o espírito comunitário, os hospitais, as associações, as cooperativas, as pequenas empresas familiares e suas campanhas de solidariedade. Reduzir milhões de pessoas a um insulto político nada diz de real sobre os catarinenses, mas revela muito sobre a pobreza analítica de quem nos julga. Enquanto uns fazem, outros reclamam, uns decidem, outros criticam, há os realistas e os idealistas, nem precisariam se odiar como alguns se odeiam, e a caravana passa, enquanto os cães ladram.

Walter Marcos Knaesel Birkner, sociólogo, autor de Capital Social em Santa Catarina, Editora da Furb

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