Memórias do Sabiá a Itoupava-Sêca

Por Aroldo Bernhardt – Professor

Nada melhor do que a inauguração de um boteco, principalmente se acompanhado de roda de samba, nem que seja só um violão e um pandeiro para ativar memórias e saudades. Pois foi agorinha mesmo, ali na Vila Nova, na Almirante Barroso. No meio do “fuzuê” inauguratório eis que me aparece o Sabiá, amigo de “calças curtas” ali da antiga Itoupava-Sêca.

E começamos a lembrar da época em que o nosso mundo tinha começo e fim; começava na antiga Cristais Hering e ia no máximo até o Ipiranga onde jogávamos basquete, no “infantil”, treinados pelo Wilsinho, o “Toco” (como um baixinho daqueles “manjava” de basquete?). Eu lembrei de alguns poucos daquele “timaço”: o Lique Silva, o Hello, o Aníbal, mas o Sabiá, memória prodígio, escalou o time inteiro e pipocaram os nomes de um dos Nees, do Djalma e mais “trocentos”. E claro, naquele ambiente propício o Sabiá falou de quando a gente escapava do treino para espiar as meninas do vôlei, na quadra ao lado. E a rapaziada comentava a “performance” delas e daí o danado do Sabiá, começou a descrever a competição que fazíamos, assistido as moças … melhor deixar pra lá.

Em seguida a gente começou a reconstruir de memória as Ruas São Paulo e Bahia, com sua fantástica e imprescindível transversal, a Gustavo Salinger. Havia a pracinha da Fábrica de Gaitas, no entroncamento entre a Bahia com a São Paulo e o acesso a Cel. Federsen e à ponte da Itoupava-Norte. Sentávamos lá até altas horas (mais ou menos as 22 horas, limite para chegarmos em casa, caso contrário – castigo). Papo furado e olhando o movimento do operariado (em especial delas), de bicicleta, saias esvoaçantes a atiçar nossas fantasias adolescentes.
Mais adiante, a Farmácia do “Seu” Pfau, depois uma bomboniere onde a gente comprava banana seca (quando se tinha algum trocado), a sorveteria do “Seu” Leo (e os aguados picolés de framboesa), o Posto de Gasolina (ainda está lá, mas não tem mais o frentista “Seu” Booz), o Açougue do “Seu” Pfuetzenreuter (concorrente do outro açougueiro o “Seu” Jensen lá perto do Cemitério); do táxi do “Seu” Chico Vahldieg e da Farmácia Thomsen.
E, é claro, o Machado de Assis (na época Grupo Escolar Municipal Machado de Assis) da D. Elza, da Profa. Nemésia Margarida, da D. Maria, do já citado Wilsinho. Ah! O Sabiá lembrou também do “Inspetor Escolar” “Seu” Alírio.
Muito bem, cada um desses locais mereceu registro de fatos lá ocorridos, é claro com o protagonismo da nossa inquieta e irreverente turminha.

Foram horas de papo e ao final o Sabiá me arrancou a promessa de escrever algumas crônicas sobre aqueles tempos memoráveis de infância/adolescência ingênua e que, à época, parecia que duraria para sempre. Não haviam os “games” e toda a parafernália eletrônica de hoje. Contudo, para não cansar ninguém vou me limitar a alguns dos muitos ataques de nostalgia do Sabiá.

A saber: A rua Gustavo Salinger, chão de barro, íngreme, cruzava lá embaixo com os trilhos do trem (EFSC) e desaguava (literalmente em dias de chuva) na Rua Bahia, também de barro e que seguia serpenteando rumo à “Ponte do Salto”. Ladeada por um grande valo de sapos coaxantes, a ruazinha tinha pra nós uma serventia extra – era nosso escape, quando a descíamos de “carrinhos de rolamentos” de parcos freios.

A gente se lançava na vala diante do grito de alerta – “olha o trem!”. Um de nós sempre era escalado para ficar de plantão à espreita da “Maria Fumaça” a fim de evitar um atropelamento. Em casa uma explicação – “tô molhado da chuva e o joelho ralado é do futebol” (para evitar que os “carrinhos” fossem prudentemente confiscados).
Outro dos nosso programas, além das peladas no campinho ao lado do Machado de Assis ou em terreno baldio da inefável Gustavo Salinger, era o banho no Itajaí Açu, próximo a ponte da Itoupava-Norte e do “Vapor Blumenau” que à época jazia largado e enferrujando na barranca do rio. Todo mundo aprendeu a nadar ali. Fazíamos até competição de travessia do rio (loucura, escondida dos pais, felizmente sem nenhuma consequência).

Bem, tem muito mais, como a viagem de um pequeno “batel boot” (um espécie de caiaque à vela) de Blumenau até Balneário Camboriú, aventura da qual não participei, mas isso fica para outra hora …

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