A nova utopia

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AROLDO BERNHARDT
Professor

Paulo Freire dizia que as utopias buscam uma sociedade “menos malvada e que tornem menos difícil o amor”. Poesia à parte, desde que Thomas More usou o termo pela primeira vez, referindo-se a uma ilha-reino imaginária, as utopias oscilaram entre duas versões, ambas maximalistas. Uma com o capitalismo industrial e financeiro que insinuava a promessa de progresso e riqueza para todos e outra com socialismo e a visão de uma sociedade igualitária e sem classes.

Mais recente, no Brasil, surgiu uma utopia diferenciada e minimalista, quando se interpretou que o dever do Estado seria o atendimento das necessidades humanas mínimas ou básicas como diria Maslow (Hierarquia das Necessidades). Na prática isso significou a implantação de programas sociais como “Fome Zero”, “Minha Casa, Minha Vida”, “Luz para Todos” e outros tantos.

Em comum, tanto a perspectiva maximalista quanto a minimalista, apresentam um limitado e limitante viés economicista. Contudo, ao contrário da proposta maximalista, que gerou enorme passivo humano e ambiental, a visão minimalista brasileira alcançou em grande parte o seu desiderato, inclusive com reconhecimento de organismos internacionais.

Agora é hora de construir uma nova utopia, a de transcender a visão do “homo economicus”, de fazer ressurgir o aristotélico “zoon politikon”, de aceitar como humana a tendência ao pertencimento e à participação ativa e consciente na vida comunitária.

 Ter esperança de que é possível promover a cultura política, de modo a propiciar o saudável embate de ideias. De que nos habituemos todos ao confronto do pensamento sem necessariamente combater o pensador.

A nova utopia coloca a Política, cuja racionalidade própria é substantiva, como caminho único para a justiça social, tão escassa em todos os quadrantes. Muito mais que uma reforma da legislação, essa coisa de duração dos mandatos, reeleição, financiamento das campanhas, votos em listas e outros tantos temas acessórios, a meta agora é a transformação da mentalidade política, tanto do povo quanto dos atores da política.

Quimera, ficção? Bem, superar a miséria absoluta num país desigual como o nosso também o foi um dia.

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