Durante a divulgação da maior festa alemã das Américas, vimos novamente uma composição de assuntos relevantes para a sociedade e várias novidades para atrair o público e tornar o evento ainda mais aprazível, familiar, aconchegante e seguro. Houve até a divulgação e questionamentos sobre a preocupação com o El Niño. Mas, novamente, o que me vem à mente é a despreocupação com o trânsito.
Sem qualquer demérito a ninguém ou objeção às ações realizadas, até porque a Oktoberfest, há alguns anos, tornou-se um dos melhores eventos do mundo — este é apenas um questionamento dirigido a todos nós: poder público, sociedade, imprensa e qualquer pessoa que possa contribuir para esse debate.
Afinal, todos podem se identificar mais com uma atração ou outra, mas há uma única certeza comum a todos os envolvidos no evento: todos utilizarão o trânsito para chegar aos pavilhões e para voltar para casa.
Que a Oktoberfest é uma das festas mais seguras no quesito furtos, isso já sabemos, pois é muito divulgado. Existe um grande cuidado com quem entra no evento. Mas será que não chegou a hora de darmos um passo além e voltarmos nossa atenção também ao que acontece com os participantes antes e depois da festa? Como chegam? Como retornam para casa? E se fazem isso com a máxima segurança.
Seja pela eficiência, pelo conforto ou, principalmente, pela segurança, esse tema merece maior destaque. Quem está dentro do Parque Vila Germânica quer estar ali. Já no trânsito, até quem não participa da festa acaba sendo envolvido, seja porque precisa alterar sua rotina em razão do aumento do fluxo de veículos e pedestres, seja porque a segurança viária também se modifica com milhares de foliões circulando pela cidade.
Eu sei que existe uma preocupação, até porque participei de inúmeras reuniões envolvendo diversas secretarias voltadas especificamente às ações de segurança do evento. Também é justo reconhecer que, há alguns anos, a organização da Oktoberfest passou a adotar importantes medidas técnicas desenvolvidas, principalmente, pela Diretoria de Trânsito, Transporte e Mobilidade para minimizar os impactos do evento. De lá para cá, diversas mudanças foram implantadas para tornar o entorno da Vila Germânica mais seguro, acalmando o trânsito e priorizando a segurança dos pedestres.
O cenário é muito diferente do início dos anos 2000, quando falar sobre conscientização para não dirigir após consumir bebida alcoólica era visto quase como ser contra a festa do chope. Felizmente, essa mentalidade mudou. Hoje, a Oktoberfest é reconhecida como uma festa das famílias. E, com esse mesmo propósito, deveríamos desejar que todos chegassem e retornassem para casa em segurança, sem serem vítimas de furtos, mas também sem se envolverem em sinistros de trânsito.
O que mais impressiona é a falta de divulgação desse tema antes, durante ou depois do evento. Quantas oportunidades perdemos de construir uma verdadeira consciência coletiva sobre a segurança no trânsito. Poderíamos estabelecer um novo objetivo: transformar a Oktoberfest na festa mais segura para chegar na festa e para voltar para casa. A festa sem vítimas no trânsito. A festa em que ninguém saia dirigindo sob efeito de álcool. A festa alemã que incentive e consiga fazer as pessoas realmente utilizarem o transporte público, aplicativos de transporte, táxis e até mesmo o terminal urbano, localizado a cerca de 700 metros da Vila Germânica, que continua sendo pouco utilizado.
Diante dessas necessidades construímos juntos nas últimas edições alguma mudanças, tive a oportunidade de contribuir com a equipe em inúmeras melhorias, como alterações semafóricas, o fechamento da Rua Alberto Stein em momentos estratégicos, a definição de locais apropriados para estacionamento, a implantação de painéis de informação ao público, a sinalização de estacionamentos para ônibus, a indicação da localização do pátio de remoção de veículos e diversas outras medidas voltadas à segurança dos pedestres e à organização do trânsito, mas é preciso sempre evoluir no tema, principalmente na conscientização.
Observando eventos na Europa e o que mais me chama a atenção alem do evento em si, mas a forma como as pessoas chegavam até ele. Quase não se viam carros. As pessoas utilizavam ônibus, metrô e, em países como Alemanha e Suíça, era extremamente comum chegarem de bicicleta. Como consequência, praticamente não havia filas e, certamente, esses eventos estão entre os mais seguros do mundo. Arrisco dizer que, por lá, o risco de alguém sofrer um furto durante a festa talvez seja maior do que o de se envolver em um sinistro de trânsito, aqui a preocupação de todos parece ser outra.
Talvez esse seja o próximo grande passo da nossa Oktoberfest: não apenas ser referência pela organização, pela cultura, pela segurança dentro dos pavilhões e pela alegria da festa, mas também pela forma segura, inteligente e sustentável como as pessoas chegam e voltam para casa.
Se beber não dirija.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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