Opinião | Seu Jair contra o espírito do tempo – ética e saúde mental em um tempo pontilhado

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Uma constatação intuitiva presente nas pessoas que estão atentas aos sinais do tempo presente é de que vivemos sob o império do instante. As notificações chegam em cascata, as relações se desfazem com um toque na tela, as certezas de ontem são descartadas como embalagens vazias. Nunca se produziu tanta informação, nunca se acumulou tanto conhecimento, e nunca, paradoxalmente, nos sentimos tão perdidos. A promessa da modernidade era clara: progresso, razão e um futuro melhor, construído passo a passo, geração após geração. Mas essa promessa se desfez como fumaça. Em seu lugar, instaurou-se um presente perpétuo, raso e buliçoso, que nos convida a consumir, sentir e descartar no mesmo movimento. Somos livres, supostamente; mas livres para quê? Livres para escolher entre sabores de iogurte, planos de celular e rostos em aplicativos de relacionamento – enquanto as escolhas que verdadeiramente importam, aquelas que forjam caráter, tecem laços e constroem legados, parecem cada vez mais difíceis, quase anacrônicas.

Nesse cenário, a figura de um homem comum pode dizer mais sobre nosso tempo do que supõe nossa vã filosofia. Conheci Seu Jair há poucas semanas. Um senhor de meia-idade, prestador de serviços, que veio ao condomínio para uma manutenção. Nada nele anunciava um filósofo ou um herói. E, no entanto, sua conduta me fez lembrar que a filosofia, em sua origem grega, não era uma disciplina de gabinete, mas um modo de vida – uma arte de viver bem. O que Seu Jair fez foi simples, quase banal: recusou-se a executar um serviço malfeito, mesmo que isso lhe garantisse o pagamento imediato. Recusou-se a ser mais um na longa fila de prestadores que, antes dele, tinham feito exatamente o oposto. Antes mesmo que eu perguntasse as razões de seu comportamento, ele respondeu com a sabedoria herdada do pai: “faça sempre a coisa certa porque se quiserem falar mal de você, eles terão que mentir”. Uma frase simples, despretensiosa. Mas que representa uma sabedoria arguta: a de que a vida não é uma coleção de episódios isolados, mas um fio condutor que atravessa o tempo, ligando o menino que ouviu o conselho do pai ao homem que o pratica.

O que um prestador de serviços tem a nos ensinar sobre o século XXI? Por que sua atitude, que deveria ser a regra, soa hoje como exceção tão surpreendente que merece ser registrada em um ensaio? E, acima de tudo: se somos tão livres quanto proclamamos, por que a liberdade que exercemos nos conduz, com tanta frequência, à incoerência, à fragmentação e ao vazio? Se a tecnologia nos conecta instantaneamente, por que nos sentimos tão solitários e desconectados de nós mesmos? Se o prazer é a medida de tudo, por que a busca desenfreada por ele nos entrega, no fim, apenas insegurança e insatisfação?

Voltando ao seu Jair, ele poderia ter feito como todos os outros. Apenas que fingir que tinha feito o trabalho e receber por ele. Seu Jair escolheu o caminho mais difícil, resolveu ajudar pessoas que ele nunca tinha visto. Executar um serviço a mais para o qual ele não seria pago. E no final ainda se machucou e teve que receber atendimento médico. Sim! Fazer a coisa certa em determinados momentos pode te trazer prejuízos. O que Seu Jair exerceu, sem saber, foi o mais nobre atributo humano: a liberdade. Mas não a liberdade reducionista de escolher entre alternativas prontas. Trata-se da liberdade que envolve maturidade cognitivo-moral para analisar as consequências de cada decisão tomada. Sem essa liberdade reflexiva e responsável, o ser humano se reduz a um ser instintivo, reativo, conduzido apenas por impulsos. A liberdade, portanto, é a base fundacional do humano. Escolher é mais do que decidir: é preferir a partir de valores, experiências e da consciência de que cada escolha molda a realidade que se vive e o mundo que se constrói. Entender que as escolhas podem e vão construir quadros de saúde pessoal e interacional e quadros de adoecimento. Seu Jair preferiu a honestidade ao lucro fácil, a coerência à conveniência. Aparentemente, ele escolheu, conscientemente, ser o mesmo homem em todas as esferas de sua vida.

Na contemporaneidade, porém, essa liberdade parece sequestrada por uma lógica que valoriza a gratificação imediata. Como afirma o sociólogo Anderson Clayton Pires, “a civilização não se caracteriza pelo bem-estar, mas pela gratificação. A experiência do prazer define a psicomoralidade da civilização.” Isso significa que, ao invés de pautarmos nossas escolhas por princípios éticos ou coletivos, passamos a orientá-las pelo critério da satisfação individual, mesmo que isso implique consequências negativas a longo prazo – tanto para saúde do sujeito quanto para a sociedade. 

O princípio da psicologia das escolhas reforça essa ideia ao afirmar que “quem escolhe decide, e quem decide prefere”, revelando que as escolhas humanas são ancoradas em valores subjetivos e, muitas vezes, na tentativa de evitar o desprazer. A civilização contemporânea, entretanto, tornou-se viciada em enviesar todas as experiências do cotidiano para vivenciar o prazer. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman alerta para essa dinâmica ao dizer que “a sociedade de consumo promete o prazer, mas o que entrega, no fim, é a insegurança”. O prazer, nesse contexto, se tornou um imperativo: deve ser constante, fácil e acessível. E, quanto mais se busca o prazer, mais ele escapa, como observa Anthony Giddens: “o mundo moderno multiplica desejos que não podem ser plenamente satisfeitos.”

É provável que seu Jair nunca tenha ouvido falar em “tempo pontilhado” – uma metáfora cunhada por Zygmunt Bauman para explicar como a vida e o tempo, na modernidade líquida, perderam a qualidade de um fluxo ou de uma narrativa contínua, como um rio ou uma linha reta, e se transformaram em uma sucessão de pontos isolados: eventos, encontros, compras, sentimentos. Um contexto marcado por episódios desconexos, inconsistência e falta de coesão. Nesse regime temporal, o passado não pesa, o futuro não compromete, e cada ação vale apenas por seu impacto imediato. O eu de segunda-feira não precisa ter nada a ver com o eu de sexta-feira. A lógica da gratificação instantânea é a gasolina que alimenta esse motor fragmentado: se o prazer deve ser agora, não há tempo para construir narrativas, e a liberdade reflexiva cede lugar ao impulso reativo.

Também é provável que os prestadores de serviços que antecederam seu Jair – aqueles que apenas “roubaram” nosso dinheiro – sejam legítimos representantes desse tempo pontilhado, dessa sociedade líquida. Mas que fique claro: isso não tem nada a ver com a idade do indivíduo. Não se trata de uma nostalgia geracional. Trata-se de um modus operandi. Sobre estilo de vida. Sobre crenças, princípios e valores. Sobre como nós, a despeito de quando nascemos, optamos pela coesão, pela conexão, consistência e continuidade – ou pela fragmentação conveniente. Estamos falando de pessoas que mentem, roubam, traem, enganam como estilo de vida e no domingo vão à missa ou ao culto e rezam, louvam, choram, se emocionam, sem estabelecer nenhuma conexão entre seu modus vivendi e sua vida litúrgico-religiosa. Seu Jair, sem saber, nos dá uma lição que a sociologia leva páginas para explicar: a integridade não é um ato isolado, mas uma narrativa que teimamos em construir, ponto a ponto, contra a corrente dos tempos líquidos.

Talvez a grande lição de Seu Jair não seja apenas moral, mas também psicoemocional. Em uma época marcada pela fragmentação das experiências, pela multiplicidade de papéis e pela dificuldade de sustentar compromissos duradouros, a saúde mental parece depender cada vez mais da capacidade de construir uma narrativa coerente sobre quem somos. Escolhas éticas não produzem apenas efeitos externos; elas moldam a relação que estabelecemos com nossa própria consciência. Quando pensamos, sentimos e agimos de forma desconectada, abre-se espaço para conflitos internos, ansiedade, culpa e o sem sentido existencial. Por outro lado, quando há alinhamento entre valores, decisões e condutas, fortalece-se um senso de identidade, pertencimento e integridade psíquica. Seu Jair nos recorda que a saúde da mente não se constrói apenas nos consultórios ou nos manuais de autoajuda, mas também no exercício cotidiano de escolher, repetidamente, aquilo que nos permite ser a mesma pessoa diante dos outros, diante de nós mesmos e diante do tempo.

Alexandre De Paula Amorim, antropólogo, teólogo e graduando em psicologia

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