Opinião | Solicitar lombada é irracional

Foto: PMB/Reprodução

Acho, no mínimo, curioso como, dentro do trânsito, conseguimos enxergar a racionalidade da sociedade ou, neste caso, a irracionalidade.

O simples fato de primeiro ajeitarmos a estrada para depois enchê-la de obstáculos me faz analisar que estamos desenvolvendo uma sociedade representada pelos motoristas com algum problema relacional de socialização.

Como é possível, sob uma ótica racional, que, em um momento, se invista na pavimentação viária com o objetivo de eliminar irregularidades, reduzir obstáculos, melhorar a fluidez e proporcionar maior conforto e segurança ao deslocamento de veículos e, em seguida, se reivindique a instalação de novos obstáculos artificiais, redutores, canalização ou lombadas, que restabelecem barreiras físicas ao fluxo originalmente qualificado.

Não faz sentido algum. Pensando pelo lado racional do fazer para depois desfazer, mas, pela ótica do comportamento humano, de não ser plenamente correto, é possível compreender essa lógica. É curioso observar como alguns vereadores e, por vezes, deputados, prefeitos ou outros representantes da sociedade —, em um momento, defendem com entusiasmo a instalação de mais redutores de velocidade. Inclusive, agora há pouco, vi dois vereadores requisitando, na Rua das Missões, a adoção de medidas desse tipo, ainda que sem nomeá-las diretamente. 

O discurso passou a abranger qualquer mecanismo que force a redução da velocidade, seja por meio de obstáculo físico ou outra alternativa. No entanto, permanece a contradição: defende-se a contenção do comportamento do condutor, mas rejeita-se a fiscalização sob o argumento da “indústria da multa”. A correlação que se estabelece é semelhante à de um pai que, diante de um filho mal-educado, opta por não corrigir o comportamento, preferindo alterar o ambiente ao redor. O problema central, porém, continua sendo ignorado.

Ao mesmo tempo que requisitam redutores, esses mesmos vereadores costumam atacar o que chamam de “indústria da multa” sempre que há fiscalização de trânsito com foco na redução e punição aos apressados. Ecoam que deveria haver fiscalização que avisasse antecipadamente o condutor. Na prática, demonstram que, para eles, fiscalizar só seria aceitável se o motorista fosse avisado antes.

Sempre penso na lógica de que só se beneficia de aviso prévio quem está fazendo errado; quem está cumprindo a velocidade, as regras, avisar antecipadamente não muda nada.

Seguindo essa lógica, o condutor não precisaria dirigir corretamente o tempo todo, mas apenas nos momentos em que soubesse que poderia ser fiscalizado.

Obviamente, nessa disputa entre automóveis e pedestres, sempre teremos uma disputa injusta, ou seja, já é irracional por sua própria natureza. Nunca o veículo estará em uma velocidade proporcional à segurança dos pedestres. Então, mesmo que se pense em induzir ou encher de barreiras e fiscalização para veículos automotores, nada mudará muito enquanto as cidades não forem planejadas para as pessoas. Não tem cabimento existir essa divisão de espaço, e muito menos dar prioridade aos automóveis. Assim, não importa a defesa ou os pedidos que se façam, não parece existir, de maneira individualizada, possibilidade de intervenções que possam diminuir ou melhorar a redução de sinistros.

É muito comum a pessoa desejar um redutor de velocidade próximo à sua casa, ao seu trabalho, na escola dos filhos ou na sua empresa. No entanto, quando precisa respeitar esses mesmos espaços dos outros, não o faz. Quer proteção para si, mas não aceita oferecer o mesmo aos demais.

Mas, antes mesmo de pensar na socialização dos condutores, precisamos imbuir na mentalidade de todos o entendimento de que andar de carro é um privilégio individual, mas, para a sociedade, é um péssimo negócio e deve ser sempre desprestigiado.

Países desenvolvidos já entenderam que o debate não é “redutor ou fiscalização”, mas sim coerência entre projeto viário e uso humano. No Reino Unido, por exemplo, zonas residenciais com limite de 20 mph (cerca de 32 km/h) combinam desenho urbano, estreitamento de vias e obstáculos físicos, partindo do princípio de que o erro humano é inevitável, ou seja, é claro que já somos capazes de entender que somos ineficientes e precisamos sempre ser ajustados e cobrados pelos nossos erros.

Já na Suécia, com a política Vision Zero, a prioridade absoluta é a vida. Toda vida é importante, nenhuma morte no trânsito é aceita, e isso inclui aceitar intervenções que diminuam a fluidez dos veículos para compensar falhas humanas previsíveis. A lição é clara: não se trata de punir motoristas ou esperar uma racionalidade perfeita, mas de construir um sistema que funcione apesar das imperfeições, onde o erro existe e, por isso, não pode custar uma vida.

Com o trânsito não se brinca.

Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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