No trânsito, parece que tudo pode. Todo mundo diz que se preocupa com o trânsito, mas realmente quem se importa com o trânsito?
Quem pensa realmente em fazer o certo pelo certo, sem demagogia, sem ser da boca para fora, sem se preocupar somente consigo, pensando de fato em transformar o trânsito mais seguro?
Pense bem: lá no fundo, suas atitudes no trânsito refletem responsabilidade ou apenas conveniência?
Historicamente o trânsito só entra em pauta em último caso: depois da perda, depois da morte, depois da dor, depois da comoção. E, mesmo assim, achamos normais essas tragédias, como se fizessem parte do dia a dia de todo mundo. Até quando vai ser assim?
Quantas pessoas vão precisar se machucar, ser amputadas, mudar a vida, perder a vida, para começarmos a dar atenção ao trânsito?
De acordo com a Abramet, entre 2015 e 2024, o trânsito levou 1,8 milhão de brasileiros à internação no SUS, gerando R$ 3,8 bilhões em custos hospitalares, um aumento de 44% no período, segundo levantamento da Abramet e da Abramed com dados do Ministério da Saúde.
No Brasil, para variar, promessa e planejamento ficaram no papel. O Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) incorporou oficialmente os princípios da Visão Zero, afirmando que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Mas fazemos exatamente o contrário, aceitamos todas. O Maio Amarelo, que deveria acontecer envolto da sociedade organizada, se enraizou na política do Estado.
E, na prática, o Brasil ainda opera sob um raciocínio ilógico, confrontando o próprio plano que finge existir: reage ao desastre quando deveria prevenir, promete segurança, mas mantém vias inseguras e fiscalização intermitente; reconhece que o erro humano é inevitável, mas não educa bem tem planos de redundâncias, insiste em tratar a culpa como exclusivamente individual; no papel, diz que fará planejamento proativo, mas age apenas após o aumento inevitável de mortes e, pior, nem age; assume metas de redução no trânsito, mas tolera números que envergonham qualquer política pública séria; institui planos, mas não consolida nada no máximo, troca o pneu com o carro andando.
Entre o discurso da “Vida em Primeiro Lugar” e a realidade das ruas, o Brasil ainda entrega só promessa e nenhuma proteção. Um Estado que não resolve e uma sociedade que não confia nos gestores, que aproveitam o trânsito para fazer política, brincam com a vida de todos com ideias duvidosas e jamais com a responsabilidade que cabe ao gestor do trânsito.
O condutor está indiferente com a segurança, tanto que nem as pessoas que mais ama ele protege. Na maioria das vezes, se não fosse a interferência do Estado, nem os próprios filhos estariam seguros no trânsito.
Quantas vezes abordei condutores, antes da regulamentação dos equipamentos de retenção, transportando seus filhos no colo, crianças mal e porcamente usavam o cinto de segurança, isso quando ainda hoje vemos essa prática. Ou seja, as regras da cadeirinha vieram 2009 antes disso era um Deus nos acuda e só ganharam atenção quando as estatísticas e os acidentes escancararam a tragédia.
O motociclista que usa capacete apenas por obrigação levanta uma questão: é falta de consciência ou ausência de uma cultura de segurança mais ampla? Por que não usam roupas mais seguras? Será que o Estado deve obrigar também o uso de vestimentas adequadas, ou isso ainda depende da responsabilidade individual?
Se o próprio indivíduo não se preocupa com a sua segurança, com que legitimidade cobra do Estado que proteja a todos?
O trânsito deixou de ser apenas um tema técnico, virou pauta política de facilitação e não de segurança, Cnh entregue a reverias, fiscalização chamada de indústria, primor o veículo depois as pessoas. E, nesse processo, as mortes foram sendo naturalizadas.
Até quando vamos fingir que está tudo sob controle?
Com o trânsito não se brinca.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito

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