Opinião | Um país dividido não se governa pela metade

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada nas urnas em 25 de outubro, representa mais do que a continuidade de um projeto político. Ela reafirma a existência de um Brasil dividido, no qual a disputa pelo poder ultrapassa as divergências sobre os rumos da economia e alcança a maneira como os cidadãos enxergam a sociedade, a família, a religião e o próprio conceito de liberdade. A vitória eleitoral assegura legitimidade democrática ao presidente eleito, mas não significa que o país tenha superado as fraturas que marcaram os últimos anos. Governar será, também, enfrentar o desafio de conviver com uma sociedade que frequentemente enxerga o adversário não como alguém que pensa diferente, mas como uma ameaça aos seus valores.

Uma das particularidades desse cenário é que as divergências econômicas, embora reais e importantes, nem sempre explicam sozinhas a intensidade da polarização. Existem diferenças profundas sobre o papel do Estado, a tributação, os programas sociais, as privatizações e a distribuição de renda. Ao mesmo tempo, há convergências pragmáticas entre setores que, no discurso político, parecem irreconciliáveis. A necessidade de crescimento econômico, geração de empregos, estabilidade e melhoria das condições de vida atravessa diferentes campos ideológicos. O paradoxo é que, mesmo diante de problemas materiais compartilhados, a disputa política frequentemente se desloca para temas capazes de mobilizar sentimentos de pertencimento, medo e rejeição.

É nesse terreno que as pautas de costumes assumem papel central. Aborto, religião, direitos da população LGBTQIA+, educação, segurança pública e modelos de família tornam-se símbolos de uma disputa que vai muito além de políticas específicas. Para parte do eleitorado, essas questões representam a defesa de uma determinada concepção de sociedade; para outros, simbolizam a luta por direitos, reconhecimento e autonomia individual. O problema começa quando o debate deixa de tratar de propostas concretas e passa a estabelecer uma fronteira moral entre os cidadãos, como se um dos lados detivesse o monopólio da honestidade, da decência ou do patriotismo.

Nesse processo, o voto também se transforma em identidade. Não se escolhe apenas um candidato ou um programa de governo: escolhe-se, muitas vezes, um grupo ao qual pertencer. A identidade política passa a influenciar amizades, relações familiares, ambientes de trabalho e a interpretação das notícias. O adversário deixa de ser alguém com quem se pode discordar e passa a representar tudo aquilo que o indivíduo teme ou rejeita. Estudos sobre a polarização brasileira identificam justamente a importância dessa dimensão afetiva, marcada pela hostilidade entre grupos, que não se confunde necessariamente com uma oposição igualmente intensa entre todas as suas propostas econômicas.

As redes sociais ampliam esse fenômeno ao oferecer ambientes nos quais convicções são reforçadas continuamente. Mensagens indignadas circulam com facilidade, enquanto explicações complexas perdem espaço para frases de efeito, acusações e interpretações simplificadas. A política passa a funcionar como uma espécie de disputa permanente por reconhecimento dentro do próprio grupo. Em vez de convencer o outro, busca-se demonstrar lealdade aos seus. Em vez de examinar os fatos, selecionam-se aqueles que confirmam as crenças já estabelecidas. A consequência é uma esfera pública na qual ouvir pode ser interpretado como fraqueza, rever uma opinião pode parecer traição e admitir um acerto do adversário se torna um constrangimento.

A reeleição de Lula, nesse contexto, não deve ser confundida com uma reconciliação nacional automática. Uma vitória nas urnas define quem recebeu o mandato para governar; não autoriza concluir que todos os que votaram no candidato vencedor compartilham das mesmas convicções, nem que os eleitores derrotados deixaram de ter suas preocupações e seus direitos. A democracia não se resume à contagem de votos. Ela depende da aceitação das regras, da legitimidade das instituições, da liberdade de oposição e da capacidade de transformar conflitos em decisões coletivas. O resultado eleitoral encerra uma etapa da disputa, mas não elimina a responsabilidade de reconstruir condições para a convivência política.

Cabe ao governo, portanto, compreender que governar para todos não pode ser apenas uma fórmula pronunciada em discursos. Exige políticas públicas que respondam a problemas concretos, diálogo com setores divergentes e disposição para reconhecer que uma parcela expressiva da população não se sente representada pelo projeto vencedor. Isso não significa abandonar compromissos assumidos nas urnas ou relativizar princípios democráticos. Significa distinguir a firmeza na defesa de propostas da disposição de tratar adversários como inimigos. À oposição, por sua vez, cabe exercer a fiscalização do poder sem transformar toda decisão governamental em ameaça à nação ou toda divergência em motivo para deslegitimar o processo democrático.

Pacificar o Brasil tampouco significa exigir que todos pensem da mesma maneira. Uma sociedade democrática não precisa eliminar suas diferenças religiosas, culturais, econômicas ou morais. Precisa estabelecer limites para que essas diferenças não se convertam em justificativa para a intolerância, a desinformação ou a negação dos direitos alheios. O diálogo não pressupõe concordância, assim como a convivência não exige uniformidade. Pressupõe, antes, reconhecer que nenhum grupo possui o país como propriedade exclusiva e que a cidadania não depende da preferência política de cada indivíduo.

O desafio do próximo governo será, assim, maior do que administrar a economia ou garantir a execução de seu programa. Será contribuir para que a política volte a ser um espaço de disputa entre projetos, e não uma guerra permanente entre identidades inconciliáveis. A economia pode oferecer problemas comuns e soluções passíveis de negociação; as pautas de costumes, quando convertidas em fronteiras absolutas entre o bem e o mal, tornam essa negociação mais difícil. É preciso recuperar a capacidade de discutir ambas sem reduzir pessoas inteiras a um voto, a uma bandeira ou a uma convicção.

O Brasil não precisa escolher entre a existência de divergências e a possibilidade de viver em democracia. Precisa compreender que a divergência é parte da democracia, enquanto a desumanização do adversário ameaça suas condições de funcionamento. Lula recebeu um novo mandato, mas a pacificação do país não será decretada pelo Planalto nem conquistada pela derrota definitiva de um dos polos. Ela dependerá de instituições responsáveis, lideranças dispostas a conter a radicalização e cidadãos capazes de reconhecer, mesmo em meio às discordâncias, que compartilham o mesmo espaço público. Afinal, uma nação não se torna mais forte quando metade de sua população deseja o fracasso da outra. Torna-se mais frágil. E nenhum projeto de governo pode prosperar indefinidamente sobre as ruínas do diálogo.

Rafael Garcia dos Santos, professor, sociólogo e pesquisador em geopolítica e relações internacionais

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