Todos os anos, quando se aproximam as Paradas do Orgulho LGBTI+, voltam as mesmas críticas. Há quem questione sua necessidade, se incomode com a ocupação das ruas ou reivindique um “dia do orgulho heterossexual”.
Não consigo compreender como a existência e a celebração de outras pessoas podem incomodar tanto.
Ninguém costuma questionar pessoas heterossexuais sobre aquilo de que gostam ou fazem na intimidade. Já a sexualidade das pessoas LGBTI+ desperta uma curiosidade invasiva e, muitas vezes, cruel.
Nos comentários sobre nossos eventos, lemos absurdos que associam diversidade sexual à pedofilia, à promiscuidade e a determinadas práticas íntimas. Esse discurso não possui qualquer sustentação. Pedofilia é violência e crime — não orientação sexual. A intimidade entre pessoas adultas e capazes pertence à esfera privada e não define o caráter ou a dignidade de ninguém.
Por que, então, somente as pessoas LGBTI+ são julgadas por sua sexualidade?
Alguns reivindicam um “dia do orgulho heterossexual”. Nós, mulheres, sabemos que a heterossexualidade nunca precisou lutar para existir publicamente. Casais heterossexuais sempre puderam demonstrar afeto, constituir família e ocupar todos os espaços sem que sua existência fosse considerada uma ameaça.
Também precisamos perguntar por que certas autoridades políticas demonstram tanta aversão à diversidade, enquanto seus gabinetes contam com assessores e servidores LGBTI+.
Por que prefeitos e vereadores resistem a medidas destinadas a proteger nossas famílias? Por que vetar leis que reconhecem nossa cidadania? Por que sancionar normas que censuram projetos culturais e dificultam o debate sobre diversidade e direitos humanos?
Que medo é esse? Medo de quê?
De que jovens LGBTQIA+ saibam que não estão sozinhos? De que nossas famílias sejam reconhecidas? De que duas mulheres possam criar seus filhos com amor? De que dois homens caminhem de mãos dadas? De que pessoas trans possam estudar, trabalhar e viver com dignidade?
É por tudo isso que as Paradas do Orgulho existem.
Elas existem porque jovens ainda são expulsos de casa e humilhados nas escolas. Porque pessoas trans encontram portas fechadas no mercado de trabalho. Porque famílias LGBTI+ continuam sendo tratadas como inferiores. Porque ainda precisamos recorrer ao Poder Judiciário para garantir direitos que deveriam pertencer naturalmente a qualquer cidadão.
A Parada é celebração, mas também manifestação política. É alegria, afeto, memória, denúncia e resistência. Ocupamos as ruas para mostrar que existimos, constituímos famílias, trabalhamos, pagamos impostos, produzimos cultura e participamos da vida da cidade.
Não queremos privilégios. Queremos viver sem medo.
Desajustadas não são as famílias formadas por duas mães, dois pais ou pessoas LGBTI+. Desajustadas são as estruturas que ensinam e mantêm o preconceito por raça, sexo, orientação sexual, identidade de gênero ou cor da pele.
Blumenau gosta de exaltar sua herança europeia e apresentar-se como uma cidade desenvolvida. Mas desenvolvimento não se mede apenas pela arquitetura, pela economia ou pelas festas turísticas. Mede-se também pela capacidade de respeitar as diferenças e garantir dignidade a quem vive aqui.
Não podemos celebrar uma imagem de modernidade enquanto somos obrigados a enfrentar preconceitos do século passado.
A Parada existe porque o silêncio nunca protegeu nossas famílias. A visibilidade protege, educa e transforma.
Enquanto houver preconceito, estaremos nas ruas — com orgulho, coragem e amor.
Rosane Magaly Martins, advogada e presidenta da ONG Mães do Amor em Defesa da Diversidade




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