“Segundo o filósofo alemão Immanuel Kant, a pessoa só consegue ser verdadeiramente livre quando é capaz de fazer aquilo que precisa, mesmo quando não é aquilo que quer.”
Esse conceito poderia muito bem ser levado para o trânsito, principalmente em uma sociedade em que o pensamento está cada vez mais voltado para a perspectiva individual, e não para a coletiva. Essa lógica acaba contribuindo para termos um trânsito e uma cidade piores para todos.
Para essas pessoas, basta falar em aumentar as calçadas, reduzir a velocidade, retirar carros das ruas ou ampliar a fiscalização para que o pensamento imediato seja: ‘Mas isso não vai ficar bom para mim.’ Logo, surgem argumentos para justificar a própria individualidade. A ideia de abrir mão de uma conveniência pessoal em favor do bem coletivo parece simplesmente inconcebível.
Quando estão dentro do carro, a calçada deixa de ser importante. Se estiverem sozinhas no trânsito, mas nunca estão, querem andar mais rápido sem preocupações com quem está fora do seu carro. A fiscalização é necessária para os outros, mas, quando a regra atinge a si próprios, passa a ser vista como uma tentativa de arrecadação ou como uma “indústria da multa”.
O problema é que não conseguem enxergar o trânsito como um sistema coletivo.
Em um trânsito congestionado, pouco importa qual é a velocidade máxima permitida. Quando falamos de um trânsito com inúmeras vítimas, a velocidade máxima permitida passa a ter grande importância.
A velocidade média, por sua vez, é influenciada por diversas outras variáveis, como cruzamentos, semáforos, paradas, acidentes, conflitos entre veículos e pedestres, excesso de veículos e a própria organização da cidade.
Então pare de se preocupar com a velocidade máxima, essa só aumenta os riscos, para a mobilidade o que importa é a velocidade média. Mas, para muitos condutores, a lógica é outra: se ele precisa se adaptar para que o sistema funcione melhor para todos, isso parece ser um sacrifício. É mais fácil imaginar que todos os demais deveriam se adaptar a ele. Obviamente, essa lógica não leva ninguém a lugar nenhum.
Assim como na vida, no trânsito, precisamos, a todo momento, fazer, treinar, aprender e melhorar. Precisamos estar dispostos a fazer coisas que não desejamos, abrir mão de algumas vontades e aceitar determinadas regras para alcançar algo maior. É justamente aí que existe uma forma mais profunda de liberdade.
É óbvio que, individualmente, para mim é melhor poder parar onde quiser, fazer o retorno pelo caminho mais curto, andar na velocidade que eu quiser e ter cada vez mais espaço para o meu meio de transporte.
Mas a pergunta precisa ser outra: isso é melhor para a cidade?
Fazer o que não queremos no trânsito é aprender a dirigir corretamente. É ser um motorista defensivo. É respeitar os limites de velocidade. É usar o cinto de segurança. É jamais dirigir embriagado. É respeitar o pedestre. É defender um transporte público eficiente. É compreender que a cidade pertence às pessoas, e não aos carros.
Fazer o que não queremos é entender que nem sempre a nossa conveniência individual deve estar acima do interesse coletivo.
No trânsito, talvez a verdadeira liberdade não seja poder fazer tudo aquilo que queremos.
Talvez seja justamente ter consciência suficiente para fazer aquilo que precisamos — mesmo quando não queremos — para que todos possam chegar ao seu destino com mais segurança, respeito e dignidade.
Com o trânsito não se brinca.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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