Opinião | No trânsito, o problema é sempre o outro

Foto: Lucio Beckhauser

Tenho repetido que para conhecer uma sociedade, basta observar seu trânsito. É ali que descobrimos o quanto as pessoas estão dispostas a respeitar o próximo quando seus interesses entram em conflito.

No trânsito de Blumenau, tudo parece girar em torno do indivíduo: minha pressa, meu compromisso, minha necessidade. O problema é que, quando todos pensam assim, ninguém está disposto a ceder.

Dizem que, no Japão, quando alguém chega cedo a um estacionamento, estaciona seu carro mais longe para que os atrasados possam estacionar mais perto. O simples fato de pensar nisso demonstra que as pessoas estão dispostas a fazer o bem, desde que saibam que os outros realmente precisam e que não estão se aproveitando.

Dia desses, chegando à Itoupava Central, vindo da Rua Dois de Setembro, deparei-me com a fila de veículos que desejavam seguir pela Rua Dr. Pedro Zimmermann, à qual se somam os veículos vindos da BR-470 que querem entrar na fila.

Na necessidade de chegar mais à frente, fiz uma manobra que até hoje não sei se foi tão equivocada ou desrespeitosa. Pela regra, quem está na Rua Dr. Pedro Zimmermann tem a preferência. Na prática, o pessoal que vem pela direita, da BR-470, acaba tendo a possibilidade de se encaixar primeiro na fila, deixando para trás quem teria a preferência. Para evitar isso, posicionei-me à frente, logo após a confluência.

Feito isso, o caminhoneiro, que pressupôs que eu estava furando a fila, ficou enraivecido e começou a buzinar e a fazer manobras para demonstrar seu descontentamento. O fato é que ele, sem dúvida nenhuma, presumiu que eu estava entrando naquele espaço para levar vantagem. Em nenhum momento passou pela cabeça dele a possibilidade de haver uma necessidade, uma mudança de ideia ou um entendimento diferente da regra.

O que ficou claro naquele momento é que, no trânsito brasileiro, temos uma certeza: a de que estamos certos segundo nosso julgamento individual. Não existe compreensão, pois, na opinião de cada um, o brasileiro no trânsito, assim como na vida, está sempre pensando em si.

Sempre querendo levar vantagem sobre o outro.

Quando sou eu que preciso, espero compreensão. Quando é o outro, suspeito que ele queira levar vantagem.

Essa é uma das marcas do nosso individualismo. O erro dos outros é sempre intencional; o nosso tem justificativa. Fechamos cruzamentos, paramos em fila dupla, disputamos espaços e transformamos pequenas divergências em verdadeiras batalhas. Tudo porque acreditamos que nossas necessidades são mais importantes.

Em Blumenau, com aproximadamente 380 mil habitantes e uma frota na ordem de 290 mil veículos, essa convivência é um desafio diário. Temos educação para o trânsito, fiscalização e agentes trabalhando nas ruas, mas nenhuma estrutura pública consegue compensar a falta de respeito de cada indivíduo.

A fiscalização é necessária, mas a mudança também precisa acontecer dentro de cada um de nós,  Não se trata de aceitar erros, mas de entender que nem todo erro é uma provocação e que perder alguns segundos é melhor do que colocar vidas em risco para provar que temos razão.

O trânsito é um retrato da nossa sociedade: queremos compreensão para os nossos erros, mas nem sempre estamos dispostos a compreender os erros dos outros.

Talvez o problema não seja apenas a falta de espaço nas ruas, mas a falta de espaço que estamos dispostos a conceder uns aos outros.

No fim, a melhoria  no trânsito começa quando deixamos de olhar apenas para o nosso próprio caminho e passamos a considerar o caminho do outro. Afinal, uma sociedade mais segura e respeitosa não se constrói apenas com leis e fiscalização, mas com a capacidade de reconhecer que não somos os únicos com pressa, compromissos ou necessidades. O desafio não é apenas aprender a dividir as ruas, mas aprender a conviver.

Com o trânsito não se brinca. 

Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito

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