Dizem que, há muito tempo, Platão contou a história de pessoas que viviam presas em uma caverna, olhando para uma parede e acreditando que as sombras projetadas ali eram a própria realidade. Se Platão vivesse no Brasil de hoje, na nossa versão tropical da caverna, os prisioneiros não estão acorrentados pelos pés, mas pelos algoritmos, pelas manchetes sensacionalistas, por aquela tia do grupo da família que recebe uma mensagem de voz de três minutos e já encaminha para outros quarenta e sete contatos com a legenda: “URGENTE! Acordem, povo!”.
No centro da caverna, a parede virou uma tela de celular. Nela, sombras de políticos aparecem prometendo salvar o país, acabar com a corrupção, defender a família, proteger os trabalhadores e resolver todos os problemas nacionais em apenas quatro anos. Alguns prometem tanto que, se cumprissem metade, o Brasil já estaria exportando felicidade em barris e o trabalhador, coitado, observa tudo depois de uma jornada cansativa. Seis dias de trabalho, quando não mais, enquanto isso, nas sombras da parede, alguém explica que direitos trabalhistas são um luxo, que descansar demais prejudica a economia e que o sujeito precisa vestir a camisa da empresa.
E, quando alguém sugere discutir jornadas mais humanas, salário digno e condições decentes de trabalho, logo surge um especialista de internet para explicar que o problema do país é a falta de esforço individual. Curiosamente, esse especialista costuma dar sua palestra durante o expediente de alguém que está trabalhando para que ele possa permanecer conectado. Na caverna brasileira, os direitos humanos também são apresentados em versões bastante criativas.
Para alguns, direitos humanos só servem para proteger quem eles consideram merecedor de proteção. Para outros, basta que uma pessoa tenha cometido um erro para que perca o direito de ser tratada como gente. Esquecem que direitos fundamentais não são medalhas distribuídas por bom comportamento, mas garantias que impedem a sociedade de transformar a justiça em vingança. É claro que combater a violência, responsabilizar criminosos e proteger as vítimas são tarefas indispensáveis. Mas segurança pública não precisa ser inimiga da dignidade humana.
Uma sociedade que deseja justiça não pode escolher entre proteger as vítimas e respeitar a lei. Precisa fazer as duas coisas, mesmo quando isso não rende uma frase de efeito tão boa para a campanha eleitoral. As mulheres, por sua vez, conhecem bem o
funcionamento dessa caverna. Algumas sombras dizem que elas já conquistaram tudo, que a igualdade existe porque está escrita na Constituição e que não há mais motivo para reclamar. Outras sombras sugerem que, se uma mulher sofre violência, talvez tenha feito alguma coisa para merecê-la. Há ainda aquelas que acham admirável uma mulher dar conta do trabalho, da casa, dos filhos, dos pais idosos e de todas as obrigações do mundo, desde que não reclame de cansaço. Afinal, a mulher moderna pode ser qualquer coisa, talvez o grande mistério da política brasileira seja explicar por que a igualdade parece tão fácil de defender em um discurso e tão difícil de praticar na vida cotidiana.
Na parede da caverna, alguns enxergam as políticas de proteção social como se fossem presentes oferecidos pelo governo a pessoas que decidiram não fazer nada da vida. É uma sombra conveniente, principalmente para quem nunca precisou escolher entre comprar comida e pagar uma conta. Programas sociais não substituem a necessidade de empregos dignos, educação de qualidade, saúde acessível e oportunidades reais. Mas podem representar a diferença entre uma família atravessar uma fase de vulnerabilidade com alguma segurança ou mergulhar ainda mais fundo na pobreza. O auxílio não apaga os problemas estruturais do país, assim como retirar o auxílio não cria empregos por milagre.
Seria ótimo se toda pessoa pudesse viver do próprio trabalho, com remuneração suficiente para suas necessidades. Mas, enquanto essa realidade não chega para todos, deixar alguém passar fome não pode ser tratado como estratégia de desenvolvimento econômico. Até porque a fome não espera o próximo plano de governo, não entende de calendário eleitoral e definitivamente não aceita pagamento em promessas. O problema não é discutir como os recursos públicos são utilizados, se os programas funcionam, se há desperdícios ou como aperfeiçoá-los. Isso é necessário.
O problema é transformar pessoas vulneráveis em culpadas pela própria vulnerabilidade, enquanto os verdadeiros debates sobre desigualdade, orçamento e oportunidades ficam escondidos atrás de uma cortina de fumaça. E, assim, a política vai virando uma espécie de campeonato nacional de sombras. Cada grupo escolhe sua parede, seu comentarista favorito e seu vilão oficial.
O cidadão deixa de perguntar: “Essa proposta funciona?”. Passa a perguntar: “Quem falou isso? É do meu lado ou do lado deles?”. A verdade, coitada, precisa apresentar filiação partidária, comprovante de residência e três testemunhas antes de ser ouvida. Até que um dia alguém resolve sair da caverna. Lá fora, a luz incomoda. É difícil perceber que uma informação compartilhada milhares de vezes podem estar errada.
É desconfortável descobrir que o político admirado também pode falhar e que o adversário, em determinadas questões, pode apresentar uma proposta razoável. Exige esforço reconhecer que os problemas de um país não cabem em frases de quinze segundos nem em vídeos editados para provocar indignação.
Quem sai da caverna também descobre que a realidade é mais complexa do que as sombras. Percebe que direitos trabalhistas precisam ser discutidos à luz das condições concretas de quem trabalha; que os direitos das mulheres não são privilégios, mas garantias de dignidade e igualdade; que os direitos humanos protegem a sociedade inteira; e que políticas assistenciais precisam ser avaliadas pelo impacto que produzem na vida das pessoas, não apenas pelo potencial de gerar aplausos ou críticas.
Alguns dirão que ele foi enganado pela luz. Outros perguntarão quanto recebeu para mudar de opinião. E haverá sempre alguém que, sem ter saído do lugar, explicará com absoluta convicção que conhece melhor o mundo exterior. Talvez seja essa a parte mais engraçada e mais triste da história de Platão: sair da caverna não significa que todos acreditarão em você. Significa, antes de tudo, que você terá de aprender a olhar por conta própria. No Brasil, a democracia não exige que todos pensem igual. Exige que possamos discordar sem abandonar os fatos, respeitar a dignidade alheia e cobrar responsabilidades de quem exerce o poder.
Exige também que a população compreenda que direitos não deveriam depender da simpatia por um governante, e que nenhum programa social, nenhuma promessa econômica e nenhuma bandeira política estão acima da avaliação crítica. Afinal, a política não acontece apenas nos palácios, nos plenários ou nos palanques. Ela acontece na fila do posto de saúde, no ônibus lotado, na escola pública, na casa onde uma mulher teme voltar para o companheiro agressor, no mercado onde uma família calcula o preço do arroz e no local de trabalho onde alguém sonha com um salário que permita viver, não apenas sobreviver.
Por isso, talvez o maior ato de liberdade seja aprender a desconfiar das sombras, inclusive daquelas que combinam perfeitamente com nossas próprias convicções. E, se algum político prometer resolver todos os problemas brasileiros até sexta-feira, não precisa nem sair correndo para a luz. Basta fazer três perguntas: como, com quais recursos e quem será beneficiado? Depois, desligue um pouco o celular, converse com alguém que pensa diferente e vá descansar. Descansar também é importante, especialmente para quem trabalha seis dias por semana.
Porque, no fim das contas, o Brasil não precisa apenas de pessoas que escolham a sombra mais bonita. Precisa de cidadãos dispostos a acender a luz, examinar o que encontram e compreender que a democracia não é um espetáculo para assistir de longe: é uma responsabilidade que se exerce todos os dias. E que Platão nos perdoe, mas, se ainda estivermos presos na caverna, que pelo menos não nos cobrem ingresso, taxa de conveniência e juros no cartão para continuar olhando a mesma parede.
Keila Aparecida de Almeida, doutoranda em Geografia pela UFPR, Mestra no Ensino de Geografia pelo IFC – Campus Brusque, professora da rede estadual e privada no estado de Santa Catarina




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