Opinião | Eleições 2026 e a urgência da política

Imagem: reprodução

“Um espectro ronda o mundo!” (Marx). Diferente do anunciado por Marx e Engels, autores desta sibilina frase de abertura do livro “Manifesto Comunista” publicado em 1848, não se trata do comunismo. O espectro que ronda o mundo na atualidade é a insegurança e suas inseparáveis parceiras: a intolerância e a barbárie. Mas, de onde vem essa incômoda hóspede que afronta os indivíduos em sua cotidianidade? Por quanto tempo permanecerá? Aliás, será que em algum momento se dissipará? Quando? Sob quais condições? O medo é expressão das crises vigentes na atualidade, entre elas: crise ambiental, econômica, social, política, demográfica?  

Antes de prosseguirmos com as possibilidades de análise é preciso conceituar o termo crise. O que é uma crise? Uma crise é um fenômeno (phenomenum). Todo fenômeno se apresenta no tempo e no espaço e, como tal, podemos tentar compreendê-lo em suas relações causais. Um fenômeno pode se apresentar em âmbito estritamente natural, bem como em âmbito estritamente humano. Fenômenos naturais podem desencadear fenômenos humanos. Este é o caso da recente tragédia ocorrida no Nepal, onde um fenômeno natural arrasou comunidades inteiras provocando a morte de centenas de pessoas. Porém, a ação humana pode desencadear fenômenos naturais. Aqui estamos diante da questão do aquecimento global, que ao que tudo indica, provém da atividade produtiva e da forma de vida das sociedades modernas assentadas no consumo extensivo de combustíveis fósseis, cuja queima e despeja na atmosfera poluente tem a potencialidade de alterar as condições climáticas no planeta. As alterações climáticas que têm se manifestado demonstram o grau de comprometimento que incide sobre a reprodutibilidade e a continuidade de vida no planeta. 

Disto resulta que uma crise se caracteriza como um fenômeno humano ou natural, que desestabiliza as condições de normalidade em que se estabelecem as interações orgânicas e naturais que oferecem o suporte à dinâmica da vida em sua diversidade de formas de manifestação. Ou seja, uma crise é um momento de profunda instabilidade de uma determinada ordem, abalada em suas estruturas fundamentais. A incerteza dela decorrentes em relação à ordem vital e societária poderá resultar no rearranjo de forças em curso. 

Das diversas crises que se apresentam e dentre as quais estão as anunciadas acima, talvez a crise política seja a mais intensa e urgente. Pois se trata de reconhecer que a superação da crise econômica, social, demográfica e ambiental em curso depende de decisões políticas. Da capacidade humana e social de alcançar consensos em torno de formas de organização social e econômica, que contemplem formas de vidas comprometidas com a preservação dos bens públicos, da excelência do espaço público, da primazia do cuidado com a vida em relação a práticas individuais e sociais de produção e consumo. 

 A crise política se manifesta em múltiplas dimensões. Para situar algumas dessas dimensões é preciso que nos façamos a perguntar basilar: o que é política? Este é o questionamento primeiro, porque daquilo que achamos que mais sabemos é, por vezes, aquilo de que mais necessitamos conhecer. Ou seja, aqui não se trata de tomar a política como “coisa”, ou “negócio” de político. Também não se trata de tomar a política como atividade exclusiva de “partido político”. Ou ainda, como uma atividade exercida por pessoas, mas que não tem relação alguma com a vida ou com a morte cotidiana de indivíduos e populações. Trata-se de reconhecer a centralidade da política para a vida humana, para a organização social, bem como para a preservação e promoção da vida.

Disto resulta que a política é uma arte. Talvez a mais nobre das artes exercida pelos seres humanos, pois é a partir da convivência, do encontro com o outro que se afirma a condição humana. O humano é resultante da relação com outro humano. O reconhecimento da própria humanidade depende do reconhecimento da humanidade do outro. As regras, as normas, as leis que regem a vida humana se estabelecem a partir do reconhecimento mútuo entre humanos da dignidade da vida humana. A questão ética fundamental de nosso tempo é também reconhecer a dignidade de todas as formas de vida presente na biosfera, da qual a vida humana é apenas uma delas.  Assim, a política é uma arte, pois ela exige que se reconheça o belo, o bom e o justo na vida em sociedade. É inerente à beleza, à bondade e à justiça o equilíbrio nas proporções, a harmonia nas formas, o bom senso nas decisões e nas ações.  Assim, se a política é a mais nobre das artes praticada pelo ser humano, pois afirma a condição humana na vida em sociedade é preciso reconhecer que seu exercício pressupõe uma técnica, uma forma de fazer ou de exercer a política.

A técnica por excelência, a partir da qual os seres humanos exercitam a arte da política é a linguagem, a palavra, o discurso. É por meio da linguagem que significa e que nomeia as coisas, os objetos, os afetos compartilhados pelos seres humanos, que se constitui o mundo. O mundo é resultante do intenso e ininterrupto compartilhamento da vida sustentado pela complexidade da linguagem e da memória característicos dos seres humanos ao longo de tempos que se perdem na trajetória temporal sobre a face da mãe terra.  Negociando por meio da linguagem suas ações, seus afetos, suas memórias os seres humanos afirmam publicamente sua humanidade. A política, portanto, é a arte cuja técnica assentada na negociação da palavra, do discurso, afirma o espaço público como condição de afirmação da vida e promoção do mundo.

Disto decorre que a crise política em curso manifesta-se primordialmente na forma instrumentalizada com que utilizamos a linguagem, a palavra, o discurso. Num contexto, de produção e massificação ininterrupta de informações e de imperativos de consumo, parece não haver tempo suficiente para a comunicação. A palavra “comunicação” deriva do latim “communicatio”, que deriva do verbo “communicare” que expressa: “compartilhamento; pôr em comum; participar de algo com alguém; repartir”. Ainda nesta direção, é importante observar que o verbo latino “communicare” advém de termo latino anterior “communis”, que significa: aquilo que é ou pode ser compartilhado por todos; comum.  Portanto, a comunicação requer interlocutores dispostos a fazer uma experiência com a palavra compartilhada por meio da comunicação. Não se trata de mera performance discursiva entre falantes, ou de fraseologias emitidas em função da pretensão de anúncio de soluções simples para complexos fenômenos humanos. 

Sob tais pressupostos, a política é a arte e a técnica que promove a experiência da comunicação que expressa, compartilha, torna comum ideias, propostas, projetos e possíveis consensos que passam a orientar a ação conjunta na preservação dos bens públicos necessários à promoção da vida em sociedade.  A arte da política requer um discurso que promova a comunicação entre os seres humanos diante da cotidiana e intransferível tarefa de afirmar a continuidade do mundo para as atuais e futuras gerações, o que exige exercitar experiências de comunicação assentadas na empatia, na fraternidade, na solidariedade.  

A crise da política reside em sua redutibilidade discursiva, comunicativa, que se manifesta na conformação de sociedades individualizadas. Neste contexto, os indivíduos encontram-se inseridos numa dinâmica social em que a economia assumiu a primazia dos modos de gestão das relações dos indivíduos consigo mesmos, com os outros e com a própria natureza. Trata-se de lógica econômica que tem como objetivo primeiro e último à produção do valor e sua concentração como garantia da continua reprodução do valor como fim em si mesmo. Ou seja, o capital resultante do conjunto das relações humanas entre humanos e com a natureza, compreendida como mero depósito de matérias primas a ser continuamente explorada destina-se exclusivamente a produção de mais capital numa espécie de espiral ascendente desprovida de limites na expropriação da vida humana e natural. 

Assim, a primazia da economia se manifesta cotidianamente sobre indivíduos e populações a partir do imperativo da plena competitividade como epicentro da ação no mundo. Indivíduos diuturnamente capturados pelos dispositivos econômicos de reprodução do capital dispensam experiências de compartilhamento do mundo em função das urgências no alcance das metas produtivas que incidem em seu modo de sobrevivência. Esta dinâmica econômica conduz a precarização das condições de reprodução e manutenção da vida na medida em que exige o máximo consumo de tempo vida em atividades laborais. O tempo de vida que resta após extensas e extenuantes jornas de trabalho é dedicado a reposição das energias vitais à serem consumidas no dia seguinte que abre novo ciclo laboral. Nesse cenário confirma-se a máxima da primeira ministra britânica Margaret Thatcher, que nos anos 1980 em plena implementação da agenda neoliberal na Inglaterra afirmava: “Não existe tal coisa como a sociedade”, indicando que o enfrentamento de problemas e soluções diante das dificuldades na luta pela sobrevivência era de responsabilidade de indivíduos e de famílias.

A crise política se aprofunda quando os indivíduos constatam que o Estado e suas instituições foram sequestrados por interesses de grupos econômicos e, pela dinâmica do capital especulativo e financeiro desterritorializado.  Os direitos sociais, os serviços públicos, os bens públicos são submetidos a constantes reformas a ajustes e planos de austeridade fiscal. Na prática isto significa que a prioridade fiscal imposta pelo poder econômico e assumida por governos de plantão, representantes da agenda política e econômica neoliberal e suas exigências de garantias de produção, acumulação e remuneração do capital se afirme na prioridade do pagamento dos juros da dívida pública aos portadores dos títulos da divida, Bancos privados, fundos de capital financeiro global, entre outros grupos desta natureza. Para esta forma de economia assentada na concentração do capital, os planos de austeridade, de ajuste fiscal impostos ao Estado e a sociedade apresentam-se como condição inegociável, o que implica a precarização de serviços, dos direitos sociais das populações, na intensificação via (via flexibilização de leis, de normas e de fiscalização) da exploração e destruição ambiental.

O ápice da crise política se apresenta na medida em que os indivíduos constatam as falácias da democracia representativa e das instituições que a constituem, submetidas as demandas da economia em seus imperativos neoliberais. Constata-se que os discursos de defesa da democracia são retóricos, vazios. Escancara-se que as instituições do Estado democrático foram sequestradas por interesses de grupos econômicos privados, por corporações cuja finalidade é fazer uso privado dos recursos públicos. Indivíduos e sociedades estão desprovidos de representatividade política e institucional. As esferas institucionais e políticas representam majoritariamente interesses de grupos minoritários em flagrante prejuízo aos direitos sociais, aos bens públicos e a prestação de serviços públicos de qualidade à população.

Esse cenário é revelador da crise política em curso manifestando-se na desinformação, na ausência de disposição ao diálogo e, por decorrência na intolerância expressa pelos indivíduos em relação às pautas políticas inerentes ao processo eleitoral em curso. Parece contribuir com o aprofundamento da crise o posicionamento de lideranças políticas e de candidatos, bem como a insignificância ideológica e programática dos partidos políticos. Um olhar ao passado, mais especificamente às primeiras décadas do século XX demonstra que em cenários sociais e políticos marcados pela incerteza e pela intolerância vicejam lideranças e movimentos de extrema direita propondo uma “revolução social” às avessas, baseada na acusação de inimigos da nação. Para líderes, partidos e adeptos da extrema direita, a nação está doente e, somente uma ação regeneradora da nação pautada em Deus, na família e na moralidade poderá salvá-la. A prosperidade da nação depende da prosperidade da ação individual acertada e orientada pelos valores morais, familiares, na crença em deus e, no respeito a propriedade privada. 

Diante do exposto é fundamental rememorar que as experiências da extrema direita no inicio do século XX, sobretudo na Europa, na Itália com o fascismo e na Alemanha com o nazismo levaram a guerras devastadoras consumindo de forma brutal milhares de vidas e, comprometendo o compartilhamento do mundo. Portanto, diante da campanha eleitoral em curso urge salvaguardar a política. Se a política não garante aos seres humanos o alcance do paraíso é fato que somente a política pode nos livrar do pior dos infernos.  O mundo humano é resultante do empenho de um sem número de seres humanos que já estiveram em vida neste planeta, bem como de todo e qualquer ser humano vivo que o coabita com outros seres humanos e, poderá pertencer à futuras gerações se formos capazes de politicamente garantir a continuidade do mundo como tempo e espaço de cuidado, manutenção e preservação da vida humana e da vida em sua totalidade de formas de manifestação. Desprovidos da disposição para a política o que nos resta é a intolerância, a barbárie e a destruição das condições humanas de compartilhamento e coabitação do mundo.

Sandro Luiz Bazzanella, Professor de Filosofia e Sandra Eloisa Pisa Bazzanella, Pesquisadora em Filosofia

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