Caro irmão de trincheira,
Parabéns pelo negócio. Transformar insegurança em método e vender isso como “masculinidade” exige menos coragem do que parece, mas rende bem. Você pegou frustração, misturou com ressentimento e embalou como regra simples, culpe as mulheres, despreze sentimentos, finja controle.
A estética ajuda, frases curtas, promessa longa, postura de quem nunca erra. Só que o produto não forma homens fortes, forma personagens cansados. Gente que performa dureza o tempo todo porque não sabe lidar com rejeição, afeto ou frustração, e volta para o curso sempre que a realidade cobra.
Você ensina que vulnerabilidade é fraqueza, mas o que aparece é o contrário, incapacidade de lidar com o básico da vida emocional. Ensina que homem não sente, e o resultado é uma única emoção permitida, a raiva, que vira linguagem padrão.
Quando esse discurso sai da tela e vira prática, o impacto não fica no indivíduo. Ele alimenta uma cultura de desumanização que já mostra seus efeitos no mundo real, violência contra mulheres e contra a população LGBTQIA+, muitas vezes sustentada por essa ideia de que o outro é inferior, descartável ou inimigo.
E não se engane achando que isso nasce só nos seus cursos. Entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que em campos opostos, há um ponto de contato, ambos já recorreram a falas que reforçam visões machistas, em contextos diferentes, mas com grande alcance. Quando isso vem de quem ocupa o topo, ajuda a legitimar o mesmo imaginário que você vende como método, o do homem que se afirma diminuindo o outro. Você transforma em curso, eles em discurso, mas o efeito se encontra e ganha eco.
No fim, o que você vende como força é só medo bem editado. Porque ser homem de verdade não cabe em fórmula, não precisa de plateia e não se sustenta diminuindo ninguém.
Com admiração estratégica,
Um “irmão” que já entendeu que coragem de verdade não se ensina em curso, se pratica na vida real.
Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos



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