Opinião: Brasil, um país de lama, fogo e óleo

Pátria amada, Brasil. Terra de riquezas onde a própria bandeira aponta para os tesouros patrimoniais brasileiros. Ainda que grande parte dos especialistas concordem que as cores verde e amarelo simbolizem, respectivamente, a casa de Bragança e a casa de Habsburgo, a cultura popular impõe outra interpretação. O verde representa nossas vastas e diversas florestas, já o amarelo representa a nossa imensa riqueza mineral cujo maior representante é o ouro. Seria o azul celeste e estrelado da nossa bandeira uma referência metafórica ao dito popular “o céu é o limite”? Considerando a faixa branca positivista que ornamenta a rica bandeira, o céu, com efeito, parece ser o limite, seja lá o que isso significa; um objetivo promovido por um sonho pujante que determina uma visão progressista rumo à conquista, mesmo que não se saiba do que exatamente, mas que se conquiste algo, custe o que custar, não importando que custe o próprio verde e amarelo.

É sabido que a inscrição “Ordem e Progresso” é inspirada no lema positivista de Auguste Comte: “L’amour pour principe et l’ordre pour base; le progrès pour but” (O amor como princípio e a ordem como base; o progresso como fim). É notável a exclusão de uma das três qualidades do lema comtiano. O lema da nossa bandeira se apropria da ordem e do progresso, mas exclui o amor.

De fato, ao observarmos as estruturas políticas brasileiras notamos uma direção – que parte de um desejo – com vistas à ordem social e ao crescimento econômico, mesmo que tal desejo não se realize e a direção política tome caminhos tortuosos para tentar alcançar o seu fim. Mas como se realizará sem o princípio do amor? Essa falta de amor não é sinal do fim dos tempos, como se ocorresse por um enfraquecimento moral progressivo, mas é a falta constituinte que funda o Brasil, pois o Brasil tem o seu fundamento no colonialismo de exploração que visava ao rápido enriquecimento de povos estrangeiros. Ou seja, na própria formação da identidade cultural do Brasil está a relação de usufruto com a terra (sem falar no descaso com a identidade cultural nativa). E, como a própria experiência nos ensina, o amor não explora, mas cuida.

Nisto vemos que, séculos após a controversa fundação do nosso país, a ordem e o progresso sem o princípio do amor estão tornando a nossa bandeira estéril. O céu almejado é jamais alcançado. O simples usufruto implica destruição, pois destruímos os objetos dados do mundo ao transformá-los para a nossa satisfação. Mas, sem o cuidado, a destruição para a nossa satisfação se manifesta como destruição da nossa satisfação, pois não podemos nos satisfazer mais quando não existe meio ambiente, visto que, pela lógica, quando o meio ambiente é destruído, é também destruído aquele que nele habita.

O direcionamento político aqui obviamente importa. O lado conhecido pela maior sede de satisfação econômica tende a ser o mais destrutivo. Ainda assim o problema não se dá apenas pela ordem macropolítica, dos poderes governamentais, mas também pela ordem micropolítica, das relações sociais e do indivíduo, pois a relação de usufruto com a terra que funda o país não funda apenas um aspecto ganancioso governamental, mas funda uma ideologia cultural nacional, que atinge todos os cidadãos. Portanto, até mesmo as relações interpessoais acabam tendo como princípio a rápida satisfação pessoal. A este princípio de estudo sociológico chamamos pejorativamente de “jeitinho brasileiro”. Nada mais é do que o governo dos desejos, relação de usufruto com tudo e a necessidade constante de satisfação imediata. É um problema de identidade moral nacional construído por séculos. A falta de amor é, portanto, estrutural e congênita.

Assim, se o governo vigente acaba por estimular ainda mais esse princípio é evidente que a velocidade da destruição alcançará altos patamares. E aqueles que defendem a exploração e o usufruto não contestarão tal destruição, pois será destruição para a satisfação, ou seja, é a destruição que visa à ordem e ao progresso.

Pela lógica aqui proposta, não nos causa admiração os desastres/crimes ambientais que nossa nação sofreu e sofre nos últimos anos. O viés político que toma lados opostos pela esquerda ou direita não é o verdadeiro culpado, mas a ganância precedida pelo desamor que produz uma falta de zelo para com a terra e os que nela habitam.

Lembrai, lembrai do 5 de novembro de 2015, com o rompimento da barragem em Mariana e seus 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Os 18 mortos e 1 desaparecido somam à colossal magnitude da destruição ambiental causada pela lama que contaminou o Rio Doce e chega até o mar. O rio que era doce agora é morto e sem garantias de recuperação, e a toxicidade dos rejeitos remete à toxicidade do tratamento paliativo oferecido pela empresa Samarco, a responsável, oferecendo um quarto do valor necessário para reconstruir o município perdido. Só houve perdas e nenhuma compensação.

Mas se o final de 2015 foi marcado por esse desastre/crime, o ano de 2019 é puro crime e desastre ambiental. O rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019, é um dos maiores desastres com rejeitos de mineração do mundo. Os 252 mortos e 18 desaparecidos são resultado de economia. A barragem utilizada é a mais barata e a menos segura, mas a economia, segundo a opinião da Vale S.A., a responsável, valia o risco. Os 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, os 70 bilhões de reais perdidos pela Vale S.A., as três prisões, são números incomparáveis diante da perda humana.

Deixando a lama e indo ao fogo, sem data única – a não ser pelo Dia do Fogo (10 de agosto) –, 2019 foi marcado por mais de 160 mil focos de incêndios. Ainda que o Código Florestal permita os incêndios em certas situações, como o replantio e a produção de pastos para o gado, muitos dos incêndios registrados no Brasil são de origem ilegal, pois conseguir a autorização dos órgãos ambientais pode ser difícil. Assim, o desejo por lucro impera sobre o desejo de cumprir as normas legais e o desejo de cuidar do meio ambiente. Nessas situações é comum que se perca o controle do fogo e ele invada áreas não desmatadas, causando incêndios de grandes proporções e de severos impactos ambientais negativos. Sofrem os animais, os índios, e a longo prazo, nós mesmos; tudo em nome do progresso econômico.

Mas os desastres ambientais não cessam. No dia 30 de agosto de 2019, o IBAMA descobre as primeiras manchas de óleo nas praias do estado da Paraíba. Nos dias seguintes, o óleo invadiu praias de todos os estados do Nordeste e até o dia 21 de outubro de 2019 mais de mil toneladas de óleo haviam sido retirados das praias nordestinas. Trata-se do maior desastre ambiental do litoral brasileiro. O impacto ambiental poderá levar décadas para ser reduzido. Além disso, toda a região sofreu impacto econômico com a redução do turismo e até mesmo a redução do consumo de peixe e frutos do mar.

Os desastres/crimes ambientais que o Brasil sofre refletem o descaso e falta de zelo promovidos pela relação de usufruto que há entre povo brasileiro e o ambiente no qual ele se encontra. Tal relação é material e interpessoal. O governo, neste sentido, é reflexo do povo, enquanto o povo é reflexo de sua própria formação. O resultado não poderia ser outro, uma vez que do lema positivista da nossa bandeira pegou-se tudo, menos o princípio. A solução, no entanto, não será mudar a bandeira, pois ela é apenas um símbolo que na sua criação representava o pensamento cultural brasileiro. A solução é dar voz à indignação daqueles muitos que são capazes de ao menos notar o problema do desamor, mesmo que não saibam a controversa origem. A solução é não dar voz àqueles que manifestam indignação superficial partidária e que, ao invés de instalar o princípio positivista, o afastam ainda mais gerando discursos de ódio, que nada produzem a não ser mais destruição. A solução será não a negação, mas o conhecimento histórico das nossas origens, o que significa reflexão. A solução será a luta pacífica contra as injustiças promovidas pela economização da vida, contra o império do desejo e da satisfação imediata. Caso contrário podemos desde já instaurar o nosso país como nação cujo fim já é visível, que nosso país é uma terra de não brasileiros, nem de ordem, nem de progresso, mas de lama, fogo e óleo.

1 Comentário

  1. Filósofo André Gaulke. Você pode não acreditar, mas li todo o seu longo artigo: Brasil, um país de lama, fogo e óleo. Disse quase tudo e concordo. Também estou de acordo que faltou o AMOR na Bandeira Brasileira. Contudo, na minha humilde opinião, você nem fez menção ao maior problema que aflige o povo brasileiro hoje, nesse momento, que é o Saneamento Básico. Esse sim esta matando o Brasileiro no dia a dia de maneira sutil e vergonhosa.

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