De que forma temos que viver para evitar o adoecimento? Por que, mesmo diante de todos os esforços e avanços na área da saúde mental, os números de adoecimento continuam aumentando? Esse é um paradoxo inquietante que se apresenta diante de nós: o número global de pessoas com transtornos mentais saltou de 599 milhões em 1990 para 1,17 bilhão em 2023 — um crescimento de 158% nos casos de ansiedade e de 131% nos de depressão. Ao mesmo tempo, governos ampliam os investimentos em saúde mental, os tratamentos se aperfeiçoam e a conscientização pública aumenta. No entanto, essa guerra parece ter chegado a um estranho impasse: vencemos batalhas importantes pela acessibilidade, pelo tratamento e pela desestigmatização, mas continuamos perdendo a guerra contra o adoecimento psíquico.
Esse paradoxo revela algo que uma narrativa excessivamente simplificada costuma obscurecer: o sofrimento mental está longe de ser apenas uma falha biológica isolada ou o resultado de uma insuficiência na oferta de serviços. Trata-se de um fenômeno complexo, tecido por múltiplos fatores entrelaçados: condição socioeconômica, transformações culturais, disseminação da solidão, erosão dos vínculos humanos na era digital, pressões do trabalho, competitividade acadêmica e, talvez de maneira mais fundamental, a qualidade afetiva e o clima emocional das relações familiares.
É nesse ponto que a família precisa voltar ao centro da discussão. Ela não é apenas um núcleo de transmissão genética, nem simplesmente o primeiro espaço de socialização. É o lugar onde padrões emocionais, formas de apego, experiências de reconhecimento e rejeição e, em alguns casos, traumas transgeracionais encontram morada, são incorporados e podem se reproduzir ao longo das gerações.
A explicação para o crescimento do sofrimento psíquico, portanto, talvez não esteja apenas na ineficácia dos serviços de saúde, mas na própria natureza do adoecimento e em como ele é enfrentado. O sofrimento não é necessariamente uma falha isolada do indivíduo. Em grande medida, ele é também um fenômeno relacional, enraizado nas primeiras experiências de afeto, reconhecimento e pertencimento. Entre todas as relações humanas, a família permanece como o primeiro grande território onde o psiquismo se constitui — ou se fratura.
Freud e seus discípulos perceberam, cada qual a seu modo, a centralidade das primeiras relações afetivas na constituição da subjetividade. Décadas depois, a Teoria da Aceitação-Rejeição Interpessoal, desenvolvida pelo psicólogo americano Ronald Rohner e amplamente estudada em diferentes culturas, reforçou a importância da aceitação e do afeto parental e familiar para o desenvolvimento psicológico. A ausência persistente de aprovação, afeto e aceitação durante a infância está associada a consequências que podem atravessar toda a trajetória de vida.
Não se trata apenas de uma metáfora. Pessoas que vivenciam ou recordam níveis elevados de rejeição familiar apresentam maior vulnerabilidade a problemas de autoestima, insegurança emocional, dificuldades relacionais, depressão e ansiedade. A rejeição familiar aparece, em diferentes contextos culturais, como um importante fator de risco para o desajuste psicológico. O que recebemos — ou deixamos de receber — nos primeiros vínculos não desaparece simplesmente quando deixamos a infância. Muitas vezes, transforma-se na maneira como aprendemos a enxergar a nós mesmos e aos outros.
E aqui existe uma distinção importante. Nem todo sofrimento emocional é necessariamente uma psicopatologia. Há formas de desajuste que podem estar sendo tratadas exclusivamente como doença quando, em determinadas situações, expressam também uma história de carência afetiva. Pessoas que não foram suficientemente abraçadas, beijadas, compreendidas ou perdoadas; pessoas que cresceram sob a sombra de um olhar que não as confirmava como dignas de afeto; pessoas que aprenderam, desde cedo, que precisavam conquistar aquilo que deveria ter sido oferecido gratuitamente — todas elas podem carregar marcas profundas dessa experiência.
Rohner descreve, nesse contexto, disposições de personalidade associadas à rejeição, como hostilidade, dependência emocional, baixa autoestima e instabilidade emocional. Não estamos falando simplesmente de pessoas que não receberam carinho. Estamos falando de indivíduos cuja experiência fundamental de pertencimento pode ter sido comprometida justamente no período em que estavam aprendendo quem eram e qual era o seu lugar no mundo.
Quanto maior a carência afetiva experimentada nos vínculos fundamentais, maior pode ser a vulnerabilidade para administrar as demandas emocionais da relação consigo mesmo e com os outros. A autoestima — esse verdadeiro “sociômetro interno” que monitora nossa percepção de aceitação social — pode permanecer cronicamente fragilizada. A capacidade de regular emoções pode ser prejudicada. E a confiança básica no outro, aquela que começa a se formar nos primeiros vínculos, pode nunca se consolidar plenamente.
É preciso compreender, ainda, que o afeto não existe apenas no presente. Ele também é feito de memória. Conservamos imagens dos bons momentos vividos com aqueles que amamos: a lembrança do colo, do olhar aprovador, da mão que segura e acaricia, da voz que tranquiliza. Mas também conservamos imagens dos maus momentos: o desprezo, a humilhação, a indiferença, a ausência e a rejeição provocados justamente por aqueles de quem esperávamos proteção e afeto.
Essas memórias não são emocionalmente neutras. O pertencimento e o ressentimento constituem forças poderosas na organização da vontade humana. Aquilo que nos fez sentir amados pode tornar-se fonte de segurança e aproximação; aquilo que nos fez sentir rejeitados pode transformar-se em raiva, afastamento, busca compulsiva por aprovação ou necessidade permanente de provar o próprio valor.
É nesse terreno que pode surgir a auto rejeição. Quem não se sente desejado, aceito ou valorizado pode começar a incorporar a rejeição como uma espécie de sombra permanente. Já não é apenas o outro que o rejeita: a rejeição passa a habitar a própria imagem que a pessoa construiu de si. O olhar externo é internalizado. A criança que aprendeu “não sou suficientemente amado” pode transformar essa experiência em “não sou suficientemente bom”. Ou seja, toda rejeição em algum momento se transforma em auto rejeição.
A rejeição toca, assim, uma das necessidades humanas mais profundas: a necessidade de pertencimento. E sua dor não deve ser subestimada. Pesquisas conduzidas por Naomi Eisenberger e colaboradores demonstraram que a experiência de exclusão relacional envolve regiões cerebrais relacionadas ao processamento da dor, especialmente estruturas associadas ao sofrimento físico. A dor da rejeição, portanto, não é apenas uma metáfora poética. O cérebro responde à rejeição como uma experiência genuinamente ameaçadora.
Isso ajuda a compreender por que a rejeição familiar durante a infância pode deixar marcas tão profundas. Para uma criança, o vínculo com os cuidadores não representa apenas uma fonte de carinho. Ele está relacionado à segurança, à proteção e à própria experiência de pertencimento ao mundo. Quando esse vínculo é persistentemente ameaçador, indiferente ou rejeitador, aquilo que deveria constituir uma base de segurança pode transformar-se em fonte de sofrimento.
Mas a rejeição não produz apenas tristeza, raiva ou ressentimento. Em determinadas circunstâncias, ela pode produzir algo ainda mais silencioso: o embotamento afetivo.
Diante de experiências intensas ou persistentes de rejeição, algumas pessoas podem desenvolver uma espécie de entorpecimento emocional, reduzindo tanto a intensidade das emoções negativas quanto a capacidade de experimentar emoções positivas. É como se o psiquismo criasse uma anestesia para suportar aquilo que não consegue eliminar. A pessoa deixa de sentir não porque não se importa, mas porque sentir se tornou doloroso demais.
É justamente aí que podemos cometer outro erro de interpretação. Aquilo que parece frieza pode ser defesa. O que parece indiferença pode ser exaustão. O que parece incapacidade de amar pode ser, em alguns casos, uma tentativa desesperada de não sofrer novamente.
A rejeição crônica não apenas machuca. Ela pode ensinar o indivíduo a se proteger da própria capacidade de sentir.
Em suma, o paradoxo da saúde mental contemporânea talvez não seja resolvido simplesmente com mais medicamentos, mais diagnósticos ou mais serviços. Evidentemente, tudo isso é necessário. Mas talvez não seja suficiente. Se o sofrimento psíquico é, em larga medida, também sofrimento relacional, precisamos ampliar o olhar para além do indivíduo.
A família, como primeiro e mais profundo laboratório de afeto, reconhecimento e pertencimento, continua sendo um dos lugares fundamentais onde a psique se forma — e também onde pode adoecer.
Talvez, por isso, a pergunta mais urgente não seja apenas “como tratar o indivíduo?”, mas também: “como criar condições para que as famílias sejam capazes de oferecer aquilo de que todo ser humano necessita para se constituir emocionalmente: afeto, reconhecimento, segurança e pertencimento?”
Porque uma sociedade pode ampliar indefinidamente sua oferta de tratamento e, ainda assim, continuar produzindo pessoas emocionalmente famintas.
E talvez esse seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo: aprendemos cada vez mais sobre como tratar o sofrimento, mas ainda sabemos pouco sobre como evitar que ele seja produzido nos lugares onde deveríamos primeiro aprender a ser amados.
Alexandre De Paula Amorim, antropólogo, teólogo e graduando em psicologia





Seja o primeiro a comentar