O futebol possui um lado lúdico, um lado humano por excelência, porque diz respeito à capacidade de compartilhar um mundo através do jogo, do brincar, do estabelecer e seguir regras, do cooperar, do sorrir e disputar, juntos e ao mesmo tempo. É nesse exercício do jogo, da expressão máxima da potencialidade dos corpos, da harmonização entre 11 universos, que a experiência humana se revela como marcada por mais, muito mais, do que sangue e lama. No futebol enquanto atividade humana é que os indivíduos reconhecem uns aos outros como companheiros, como seres cujas individualidades encontram expressão no brincar em comunidade, no respeito mútuo e na capacidade de dividir o campo e o pão.
Desde os movimentos feministas na Inglaterra do século XX às quadras divididas pelas crianças no contra turno escolar, o futebol é ato: é jogo coletivo. Não se trata, de modo algum, de considerar o futebol como remédio para os problemas da humanidade, tampouco de apontá-lo como um mero “ópio do povo”. Por existir em meio às mais duras e mais belas experiências sociais, o futebol se apresenta também como aquilo de mais humano que há: a necessidade de comunidade, de expressão, de movimento e ludicidade, como formas de se apropriar do mundo, apesar de e com todas as misérias que perpassam as sociedades ocidentais contemporâneas.
Por isso é no mínimo confuso que uma atividade tão comum e tão promissora do ponto de vista da integração social se reduza à vitrine de chuteiras cor-de-rosa e aplicativos de aposta. Mais que isso, a realização da vigésima terceira edição da copa do mundo de futebol expôs as contradições inerentes à tentativa de realização de um espetáculo sobre os escombros de uma humanidade segmentada na ideia de Estado-nação. Isso porque se o futebol é promissor do ponto de vista de uma atividade coletiva, a noção de uma copa do mundo entre países escancara as mais brutais divisões e violências que emergem da ideia de “nação”.
Significa dizer que a copa do mundo é o palco ideal para a utilização do esporte, nesse caso o futebol, como ferramenta de mobilização do sentimento de nacionalidade. Se, por um lado, é precisamente este sentimento que pode unir os membros de um país durante os 90 minutos de jogo em que as desigualdades e a hostilidade social são suspensas a fim de um propósito maior (derrotar outra seleção), por outro lado, é também esse sentimento que acompanha cotidianamente discursos e posicionamentos apoiados na ideia de natalidade a fim de excluir e violentar estrangeiros, aqueles que não valem tanto quanto os “verdadeiros” naturalizados. É essa ideia, também, que justifica historicamente guerras, genocídios e a violação de povos que não compunham o território “nacional”.
Nessa direção, se o futebol é capaz de mobilizar a suspensão das diferenças do ponto de vista interno, a copa do mundo, da maneira em que reiteradamente é realizada, indica o triunfo da ideia de nação em sua dimensão violenta e excludente. Exemplos disso podem ser enumerados. 1) A iniciar pelo fato de a seleção do Irã ser proibida de permanecer em solo norte-americano nos períodos que excediam as partidas a serem disputadas. 2) A restrição da entrada de torcedores, destacando-se aqui a negação de vistos para torcedores haitianos. 3) A proibição de entrada em território norte-americano do árbitro Omar Abdulkadir Artan, da Somália. 4) De modo geral, as inúmeras dificuldades enfrentadas por jornalistas, torcedores e mesmo seleções (!) estrangeiras quando da chegada em aeroportos dos EUA. 5) O pedido de Trump para revisão de cartão vermelho sobre um jogador da seleção norte-americana por considerar a punição injusta.
Além dos mencionados casos pontuais e diretamente vinculados à realização do torneio, o triunfo da ideia de nação em sua dimensão excludente é expresso, em sua face mais tacanha, na realização de um torneio de nível mundial, amplamente celebrado, sobre os escombros da população de Gaza, sobre a violência exercida contra a população do Irã, sobre a desumanização de imigrantes africanos e latino-americanos mundo afora. A ideia de nação, aspecto fundamental para a organização da copa do mundo, permite, assim, a realização de um espetáculo alheio às mazelas e violências praticadas contra nações consideradas inimigas, menos importantes, descartáveis.
Também o racismo praticado por torcedores de algumas das seleções presentes na copa não deixa de estar fundamentado no pressuposto da natalidade incluso na dinâmica da nação. A contradição aqui é o fato de algumas das maiores estrelas de seleções europeias serem de famílias imigrantes que no contexto atual seriam rechaçadas, expulsas, não poderiam pertencer, de modo algum, ao prometido território nacional, reservado a verdadeiros cidadãos.
É nesse sentido, e diante de todas as violências que participaram, implícita ou explicitamente, dessa copa do mundo que não se pode afirmar a existência de vencedores. Que o campeonato tenha finalizado com a equipe da Espanha obtendo o melhor resultado e recebendo a taça do torneio mundial não impede que se afirme a necessária derrota humana diante da realização de um evento promovido a partir do objetivo do lucro, da circulação monetária, da visibilidade de marcas, da promoção de bets, e o mais grave: diante da ignorância deliberada sobre as guerras em curso sustentadas na reprodução do valor e na afirmação da superioridade nacional sobre os inimigos.
Uma vez que a copa do mundo se torna a expressão de um mundo dividido pela ideia de nação, onde é permissível a aniquilação do inimigo que ocupa um território “estrangeiro”, não se trata de apontar a realização de campeonatos como a origem das mazelas do mundo. Trata-se, isso sim, de apontar, na realização desta (e de outras) copas, a captura do aspecto de ludicidade e integração social próprias do futebol, em detrimento da financeirização de um evento internacional e do exercício do poder e da violência sobre indivíduos e nações.
A alternativa ao caráter comodificado e dessensibilizado da copa do mundo não pode ser a aniquilação do esporte, mas, de modo contrário, deve ser a afirmação do futebol em sua dimensão humana, lúdica, integrativa. Significa tomar o futebol sim como paixão nacional e assumir o espírito da ludicidade também na vida comum: é desafiando a categorização em “times”, “seleções”, “nações”, como forma de divisão de interesses e eleição de inimigos que o futebol retorna à sua potencialidade máxima: a profanação de um mundo cindido e a expressão humana no simples ato do jogar.
Sandra Eloisa Pisa Bazzanella, pesquisadora em Filosofia e Sandro Luiz Bazzanella, Professor de filosofia




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