Opinião | Dívida de rico e os riscos de usar o crédito rotativo como estratégia de gestão

Imagem: divulgação

Existe uma narrativa confortável sobre a dívida no Brasil. Ela diz que quem se endivida é quem não tem dinheiro, quem não se planejou, quem cedeu ao impulso numa loja de eletrodomésticos. Mas os números mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram outra face do endividado brasileiro: o recorde de dívidas também avança entre famílias de renda mais alta, justamente onde o crédito costuma ser tratado como “ferramenta de gestão” e não como problema.

Em maio de 2026, o percentual de famílias brasileiras que relataram possuir dívidas a vencer chegou a 81,6%, renovando o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Oito em cada dez famílias têm alguma dívida – e o avanço mais intenso, no acumulado de 12 meses, ocorreu entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos, com alta de 3,8 pontos percentuais no endividamento. Ao olhar o extrato da pesquisa, podemos reparar no desenho um novo rosto dos endividados no Brasil. E ele tem gravata, roupa bonita, muitas vezes fala mais de um idioma e gosta de uma viagem estilo ostentação.

Vejo isso com frequência no meu trabalho. Profissionais bem-sucedidos, empresários, executivos, médicos e tantas outras pessoas que já investem, que acompanham o mercado financeiro, que sabem o que é taxa Selic. E que, ainda assim, chegam até mim com um passivo que cresceu silenciosamente enquanto o padrão de vida era mantido na ponta dos dedos, financiado pelo cartão de crédito – muitas vezes, pelo temido rotativo.

A lógica que usam tem até uma certa elegância financeira, devo admitir. Se o dinheiro está rendendo bem aplicado, por que resgatar para pagar uma fatura? No raciocínio deles, o melhor é parcelar, usar o crédito e preservar o capital. Em tese, parece refinado: o patrimônio segue aplicado, o fluxo de caixa respira, o cartão faz a ponte. Na prática, tudo desmorona quando um imprevisto ocorre, a fatura não fecha e o rotativo entra em cena. Aí, meus amigos, o jogo muda completamente.

A taxa de juros do cartão rotativo no Brasil opera em patamares abertamente destrutivos: em março de 2026, essa modalidade cobrava 428,3% ao ano, permanecendo como a linha de crédito mais cara do mercado, mesmo após o início da queda da Selic. Nenhum investimento, por melhor que seja o gestor ou por mais sofisticada que seja a estratégia, chega perto dessa taxa de retorno. Portanto, não é racional deixar de quitar dívidas de cartão para preservar aplicações financeiras – é como tentar construir patrimônio enchendo um balde furado.

O comprometimento médio da renda com dívidas recuou ligeiramente e ficou em 29,3% em maio, o menor resultado desde 2019, mas ainda perto de um terço do orçamento já comprometido antes de qualquer decisão de consumo. Para quem tem reservas robustas e patrimônio consolidado, esse número pode até ser administrável no curto prazo. Já para quem está no limite do padrão que construiu – ainda que ganhando bem – trata-se de uma bomba com temporizador invisível, prestes a completar o ciclo.

Quando atendo uma família nessa situação, o primeiro passo é sempre o mais difícil: o diagnóstico honesto. Não o que a pessoa acha que gasta, mas o que ela realmente gasta. Mapear cada saída de dinheiro, identificar o comprometimento real com parcelas, crédito rotativo e serviços recorrentes precisa compor uma grande planilha – às vezes, mais de uma. Só depois disso faz sentido comparar esse número com o que está sendo efetivamente destinado à construção de patrimônio. Na maioria das vezes, a diferença entre o que a pessoa imagina e o que os números mostram é o tamanho exato do problema.

É neste processo que desencadeamos um movimento bastante curioso que, sem auxílio profissional, dificilmente se enxergaria com clareza. Consumo e construção de patrimônio vivem misturados na cabeça de muita gente: carro novo entra na conta do “investimento”, reforma cara vira “valorização do imóvel”, viagem de ostentação aparece como “experiência única”. Ao perceber o que isso representa de verdade no fluxo de caixa, o comportamento de escolha muda – ou precisa mudar – na hora de passar o cartão.

Gosto de explicar que evoluir no campo financeiro é também uma mudança cultural importante. Não fomos educados na escola para cuidar do nosso dinheiro. Dentro de casa, na maioria das vezes, a orientação é desconfiar de quem cuida do patrimônio alheio, como se todo profissional de finanças fosse um potencial vilão. Com isso, somos empurrados, ainda que involuntariamente, para longe de uma inteligência financeira adequada. O resultado aparece, mês a mês, na pesquisa da CNC: endividamento em alta, cartão de crédito como principal modalidade usada por 84,6% das famílias endividadas e juros que seguem em patamar proibitivo.

O mercado financeiro tem soluções sofisticadas para patrimônios consolidados. O desafio real é chegar lá sem se perder no caminho. O cartão de crédito é só uma das ferramentas que podem alavancar ou produzir a ruína financeira. Limites altos, parcelamentos “sem juros”, rotativo sempre à disposição: tudo isso parece conforto, mas pode ser apenas uma forma mais polida de alavancagem pessoal. Esta e tantas outras opções de organização e antecipação de fluxo de caixa precisam ser cuidadosamente estudadas para cada perfil e situação, sem romantizar a dívida como se fosse sinônimo de estratégia.

Preservar o que já se tem é o ponto de partida de qualquer jornada financeira consistente. Crescer vem depois. Para chegar lá, porém, é preciso primeiro parar de cavar e utilizar o buraco já aberto para construir uma base sólida, em vez de torná-lo ainda mais fundo. A partir daí, não importa o quanto o cartão de crédito brilhe no escuro da carteira: ele volta a ser apenas uma ferramenta, e não o fio frágil que sustenta todo o padrão de vida.

Roberto Pereira, especialista em planejamento financeiro e investimentos, CEO da ATEX Investimentos, credenciada à EQI Corretora, do Grupo BTG Pactual

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