“Enxergar o outro é salvar vidas.” Esse é o tema do Maio Amarelo de 2026.
Um tema simples, que na teoria faz refletir bastante sobre aquilo que realmente estamos fazendo no trânsito e sobre o quanto ainda estamos distantes de mudanças concretas, mas será que alguém leu e refletiu?
O Maio Amarelo surgiu em 2013, dentro da Década Mundial de Ação para Segurança no Trânsito proposta pela ONU, com o propósito de desenvolver campanhas e ações voltadas à redução dos sinistros e mortes no trânsito. Passados mais de dez anos, seguimos realizando campanhas, eventos, caminhadas, palestras e iluminações de prédios públicos durante o mês de maio. Mas a pergunta que eu faço é: isso realmente tem mudado alguma coisa?
Será que conseguimos modificar comportamentos? Será que conseguimos conscientizar de verdade? E, principalmente, será que conseguimos reduzir os números de mortos e feridos?
Infelizmente, os números continuam altos. O Brasil ainda registra mais de 30 mil mortes por ano no trânsito, além de centenas de milhares de feridos. Em Santa Catarina e também em Blumenau, seguimos convivendo diariamente com acidentes graves, atropelamentos, colisões e perdas que poderiam ser evitadas, infratores com conhecimento e dissernimento que jamais enxergam seu próprio erro.
Sinceramente, não sei até que ponto iluminar pontes, fachadas de prefeituras ou prédios históricos faz alguma diferença prática na redução de acidentes. Já participei e acompanhei diversas ações do Maio Amarelo e muitas vezes tenho a sensação de que elas acontecem sem continuidade, sem planejamento técnico e sem uma linha clara de trabalho. Em alguns momentos parecem até desconectadas umas das outras.
Uma coisa, porém, me parece evidente: os números que precisavam diminuir continuam acontecendo.
Em Blumenau existe o esforço de muitas pessoas comprometidas, gente que realmente doa tempo e energia para tentar melhorar o trânsito. Isso precisa ser reconhecido. Mas também precisamos admitir que a efetividade ainda parece pequena diante da dimensão do problema.
E talvez a responsabilidade seja de todos nós. Do poder público, que muitas vezes trata o trânsito como algo secundário, sem prioridade, sem investimento e sem planejamento permanente. E também da sociedade, que frequentemente só se sensibiliza quando a tragédia acontece perto de casa.
Óbvio que precisamos rever completamente a forma como tratamos o trânsito. Precisamos parar de fazer apenas o “mais do mesmo”. Precisamos de educação contínua, engenharia viária eficiente, fiscalização inteligente, planejamento urbano e ações permanentes, não apenas campanhas pontuais em maio e principalmente querer isso tudo.
Não adianta iluminar fachadas se não conseguimos convencer o Estado da importância de políticas públicas sérias para o trânsito. Na prática, o trânsito ainda é deixado de lado em muitos governos, mesmo sendo uma das áreas que mais mata e mais impacta diretamente a vida das pessoas e isso não é culpa do governo que não tenho dúvidas que referenda dentro do trânsito a vontade populista que o trânsito acaba se encaixando para o momento.
Quando o tema fala em “enxergar o outro”, eu entendo que isso vai muito além de olhar pelo retrovisor. É compreender que cada atitude nossa no trânsito interfere diretamente na vida de alguém. Respeitar limites, reduzir velocidade, usar menos o celular, respeitar o pedestre, o ciclista e entender que ninguém está sozinho na via são atitudes simples, mas que salvam vidas e quem fazes isso ?
Talvez esteja na hora de o Maio Amarelo deixar de ser apenas uma campanha de um mês e passar a ser uma política pública permanente. Porque vidas não podem depender somente de ações simbólicas feitas uma vez por ano e muito menos de ações que não impactam e não desenvolvem uma mudança completa do que está estruturado na sociedade hoje.
Em Blumenau, o trânsito continua sendo tratado de maneira secundária pelos poderes públicos, pela sociedade e incrivelmente quando é objeto de pauta, acaba sendo efetuada de uma forma populista e oportuna sem base técnica, sem critérios o dados, obviamente que isso não se trata de aumentos qualificação de vias implementadas e sim do contexto geral da educação ao implemento de melhorias para o trânsito.
Mesmo diante do aumento constante da frota e da complexidade da mobilidade urbana da cidade. Hoje, Blumenau já ultrapassa a marca de 270 mil veículos registrados para pouco mais de 360 mil habitantes, uma das maiores proporções de veículos por habitante de Santa Catarina. E o máximo que fazemos todos os anos no Maio Amarelo, são campanhas realizadas, prédios iluminados, mas a sensação para quem vive diariamente o trânsito da cidade é de que pouco muda na prática.
Os acidentes continuam acontecendo nos mesmos pontos, motociclistas seguem morrendo, pedestres continuam vulneráveis e o trânsito permanece sendo tratado mais como problema operacional do que como prioridade de saúde pública e preservação da vida, o trânsito parando a nossas vidas e nós nem ai.
Blumenau também precisa olhar para si mesma enquanto sociedade. A cidade muitas vezes normalizou comportamentos perigosos no trânsito. O excesso de velocidade, o desrespeito às faixas de pedestres, o uso do celular ao volante, a falta de empatia e até a agressividade entre motoristas passaram a fazer parte da rotina urbana. Parece existir uma cultura onde todos reclamam do trânsito, mas poucos estão realmente dispostos a mudar hábitos. Enquanto isso, vidas seguem sendo interrompidas diariamente em acidentes que poderiam ser evitados.
O trânsito em Blumenau deixou de ser apenas um problema de mobilidade há muito tempo — hoje ele representa um reflexo direto da falta de planejamento, da ausência de prioridade política e também da dificuldade coletiva de entender que trânsito é responsabilidade de todos.
Até a imagem do texto difere da campanha, e pouca gente vai perceber essa dissonância.
Com o trânsito não se brinca.
Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
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