Entre Nós | Você trata esse cachorro como se fosse gente!

Foto: Filme “Pais de Pet”/Divulgação

Existe uma frase que, durante muitos anos, funcionou como acusação. Ela é dita com aquele tom de quem flagrou alguém fazendo algo levemente ridículo. Se você tem um pet nos dias de hoje é bem possível que já recebeu algo como: “você trata esse cachorro como se fosse gente!” A intenção era clara, a forçar o ‘estúpido infrator’ a devolver o animal ao lugar que sempre foi o espaço dele. Lá fora, no quintal, na casinha de madeira, longe da cama, do sofá e conforto da residência.

Vamos ser sinceros? Ainda bem que o mundo gira e evolui. A frase perdeu o sentido e, agora, o quintal, para muita gente, não existe mais.

O Brasil tem hoje mais de 150 milhões de animais de estimação espalhados pelas casas do país. Somos o segundo maior mercado pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Uma pesquisa da Quaest revelou que 94% dos brasileiros têm ou já tiveram um animal de estimação. Outro levantamento, do Grupo Petz, aponta que 88% consideram o bichinho um membro da família. Mas, é um outro dado que o seu tiozão do almoço de domingo vai adorar odiar: cerca de 40% das pessoas colocam o pet entre as maiores prioridades da vida, dividindo importância com pais, filhos, cônjuge e Deus.

E se quase metade dos brasileiros entrevistados coloca o pet acima de familiares da mesma espécie, é evidente que o vocabulário também foi atualizado, acompanhando toda esta mudança. “Dono” saiu de cena e deu lugar ao “tutor”. Depois veio “pai de pet”, “mãe de pet”… Estas expressões foram adotadas pelo mercado que percebeu rapidamente que quem trata animal como filho gasta, compra, escolhe e exige um tratamento diferente.

Resumindo, não é frescura! A sociedade está mais aberta para o convívio multiespécies e isso altera o comportamento coletivo. Por isso, o caminho do dinheiro, de política pública e arquitetura das cidades estão em transformação.

A urbanização, por exemplo, compõe este processo. O último Censo do IBGE confirmou que o apartamento é cada vez mais o tipo de moradia escolhida pelo brasileiro. Os pets foram junto, no caminhão da mudança, compulsoriamente.

Você deve estar agora pensando se dá para ter cachorro ou gato em apartamento sem que o animal sofra com o confinamento, ou afastamento da grama, da lama e toda bagunça que o ambiente externo permite. Parece óbvio que sim. Mas, a resposta honesta é que depende muito mais de você do que do pet.

Muita gente escolhe raça pelo tamanho do apartamento e esquece do temperamento, da necessidade de exercício, do nível de estimulação mental que aquele animal precisa para não enlouquecer, não levar o tutor junto para o psico(pata)cólogo. Um golden retriever em 50 metros quadrados não é crueldade por definição. Porém, se ele for mantido trancado o dia inteiro, sozinho, sem espaço para queimar energia e pegar um solzinho, ai já não é amor, mas maus-tratos.

Os gatos, por sua vez, parecem que mergulharam no Brasil urbano bem antes da gente. Independentes, adaptáveis, sem exigir passeio obrigatório, a população felina cresceu mais de 20% nos últimos cinco anos. Os reis das torres de concreto, dormem o dia inteiro, julgam tudo e ainda te convencem de que foi uma boa ideia dividir o apartamento com eles.
Por trás dos números e do mercado em expansão, há algo mais silencioso e mais honesto: a solidão. A vida urbana ficou mais rápida, os laços mais frágeis, as famílias mais enxutas, a maternidade e a paternidade foram adiadas. Tudo isso, junto e misturado, encontrou no caminho uma pandemia que escancarou o quanto a gente precisa de presença, de calor, de
algo que responda quando chegamos em casa.

Deu para entender os motivos que fizeram os humanos tratarem os bichos como se fossem gente? Os pets preencheram um espaço que antes era exclusivo de outros humanos. O melhor é que os patudos entregam afeto sem julgamento, cobranças ou necessidade de explicações do porque você esqueceu uma data importante.

Então, da próxima vez que alguém disser que você trata o cachorro como gente, concorde. E talvez explique, com calma, que 150 milhões de animais no Brasil sugerem que você está em boa companhia. Aproveite para indicar a minha newsletter entrenospet.substack.com. Até a próxima!

Tarciso Souza, jornalista e empresário

 

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