Falar para calar

Suzana Sedrez

Psicóloga, Dra. em Educação, Mestre em Ciências Sociais

 

O insuportável e o inconfessável, aos olhos de cada um, nalgum tempo precisam ser ditos. Ao serem falados são nomeados, para serem compreendidos, nas suas razões e causas. Um processo que exige certo tempo para uma entrega visceral e sem a qual, não há trabalho de cura psíquica. Trabalho que implica no desvelamento de fantasias para identificação dos sintomas e ressignificação dos sentimentos.

Esse processo passa pela investigação cuidadosa dos conflitos que se expressam pelos sintomas. Conflitos entre as possibilidades dos desejos. Investigação onde seja possível rastrear desejos reprimidos e esquecidos e que resultam em neuroses. A ferramenta desta tradução está na fala. Nela se revelam os afetos recalcados que causam os sofrimentos. Daí ser nos conflitos que se encontram explicações para o significado das coisas.

A operação de separar o dizer do dito, na análise, permite que algo se estruture dessa fala no sujeito. Na tradução dialógica da emoção sublinha-se o equilíbrio e/ou excesso; o caminho e/ou seu sequestro. Propõe-se o discernimento entre o que é possível e o que está ao alcance para superação e/ou minimização do sofrimento do analisado.

Essa escuta de si para si faz com que o sujeito possa escolher o passado que lhe interessa possibilitando um balanço de um fim de sonho. Nesse sentido, felicidade é escolha para viver o que se quer e não, o que os outros querem, sustentando aquilo que acredita ser o seu querer.

Nesse processo, há aprendizado de controle dos pensamentos para o controle das emoções que resulte sentimentos de pertencimento. Nessa caminhada, há o aprimoramento das estratégias de enfrentamento nas várias etapas deste inventário em que não se sabe a extensão do que precisa ser superado nem a essência do que deve ser conquistado. Um exercitar de caminho de alteração constante sobre o modo como se reage às situações contingenciais. Uma possibilidade de antecipação às repetições, da qual somos marcados, vislumbrando redução de danos para uma vida de aprendizado de mais prazer.

É preciso vontade, desejo, discernimento e ajuda externa para não deixar-se intimidar pelos desafios que a vida manifesta. Essa ajuda vai na direção da restituição de crenças e convicções que amalgamam a constelação identitária que constitui uma pessoa ao seu meio.

Enfim, sair do desamparo, dentro de si mesmo, é sair do silêncio, pela fala, operando novas simbolizações possíveis. Nesse processo de deslocamento das angustias busca-se novos sentidos para a existência. Ou seja, nessa travessia o sujeito é instigado a criar, a partir do caos, a necessidade de se superar na vida que existe independente da vontade em vivê-la. É no movimento que essa vontade vai sendo retomada. Do movimento físico ao psíquico. Do alongamento do corpo ao alongamento da alma.

 

 

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