Opinião: Quem quiser vir fazer sexo com uma mulher fique à vontade!

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Por Karla Bento – professora, graduada em Letras, mestre em educação e doutora em desenvolvimento regional

Em nome das famílias tradicionais que temos no Brasil, o presidente declarou que turismo gay por aqui não pode, nada de ficarmos conhecidos como o paraíso do mundo gay. Fico pensando como seria, na cabeça do presidente, esse “paraíso do mundo gay”. Seria um lugar em que a prática de golden shower pelas ruas estaria totalmente liberada? O que será que se passa nessa mente que tem essa obsessão em perseguir, ofender, criminalizar pessoas que mantém relações homoafetivas, com orientação sexual que difere da hétero normatividade? Todavia, não vê nenhum problema com a prostituição, com colocar os corpos das mulheres brasileiras à disposição e incentivar o turismo sexual.

A justificativa para a proibição do turismo gay é que “Temos famílias”. Essa justificativa, porém, não se aplica à prostituição. Pode fazer sentido, já que na “família tradicional brasileira” o macho alfa costuma dar seus pulinhos para além da cerca… E, certamente, na cabecinha limitada dos que acreditam que existe realmente um só modelo de família, os gays nasceram de alguma conjuração entre purpurinas, unicórnios e arco-íris.

Estudos acerca do turismo sexual têm apontado que, em épocas de crise financeira, alto índice de desemprego e consequente incremento do mercado informal, este é um ramo que tende, naturalmente, a aumentar. Por si só, essa relação entre turismo e sexo já é problemática na medida em que objetiva e coisifica os corpos, principalmente de mulheres e meninas negras e pobres. Mas, além disso, é uma prática que traz consigo uma série de outros problemas como os relacionados à saúde pública, principalmente com doenças sexualmente transmissíveis, à violência física e sexual contra mulheres e crianças, à pedofilia e ao tráfico internacional de mulheres.

Dias Filho, em uma investigação científica com mais de dez anos de estudos cujos dados remontam o final do século XX e início dos anos 2000, traz à tona algumas características do que ele chama de circuito do turismo sexual no Brasil. Ele aponta as relações entre os diferentes estados brasileiros e os países estrangeiros, principalmente europeus, que inclui o perfil dos agenciadores (atores que promovem o turismo sexual e agenciam mulheres – e muitas vezes crianças e adolescentes), dos turistas sexuais e das mulheres. Muitos desses agenciadores promovem, também, o tráfico internacional de mulheres, muitas delas, em muitos casos, não passam de adolescentes pobres que recém entraram na puberdade.

Parece que essas informações são suficientes para repudiar e considerar inadmissível que o presidente do país afirme que “quem quiser vir fazer sexo com mulher fique à vontade”. O circuito do turismo sexual, espalhado por todo o território nacional, deixa claro que este é um problema a ser combatido e não uma prática a ser incentivada.

O estudo de Dias Filho foi publicado há quase duas décadas, porém as suas conclusões cabem perfeitamente no cenário atual, entre as quais, destaco:

A próxima temporada de verão promete ser igual a dos últimos anos e a nossa perspectiva não é nada otimista. Essa afirmação se baseia, em parte, nos dados apresentados anteriormente e nos rumos da economia, pois à medida em que consolida o seu modelo, relega milhões de pessoas à exclusão social, o que inclui as mulheres de baixa renda – principais alvos dos agenciadores nacionais e internacionais.

Para o autor, os turistas sexuais continuarão a vir atraídos pelos corpos das brasileiras, mulheres e meninas, e pelas facilidades que encontram por falta de leis mais punitivas nacionais e internacionais e campanhas de conscientização amplas e sistemáticas.

A frase do presidente desencadeou algumas ações pontuais nesse sentido, como a campanha lançada pelo Governo do Maranhão em virtude da proximidade das festas de São João. A campanha veio como resposta tanto à apologia em relação ao turismo sexual, quanto a segregação do turista por sua orientação sexual, afirmando que “o Maranhão já está de portas abertas a todos os turistas, sem distinção.”

Outros estados, como Pernambuco e Rio Grande do Norte, seguiram na mesma linha, afirmando que os respectivos estados estão à disposição dos turistas, mas a mulher pernambucana e potiguar, não. São positivas essas iniciativas, contudo é essencial que haja um compromisso nacional e internacional para combater essa prática.

Não fosse o histórico de ações, frases e posições misóginas, homofóbicas e preconceituosas do atual presidente, poderia considerar o fato como isolado, falta de informação sobre uma realidade específica e quem sabe aguardar algum tipo de retratação… Porém, a afirmação só reforçou o que ele pensa, acredita e defende e surge em um tempo de liberdades cerceadas, perda de direitos, aumento dos crimes de feminicídio e estupro, desarquivamento da proposta de emenda à constituição 25/2015, chamada “PEC da vida” que torna ainda mais difícil a realização de aborto, mesmo nos casos previstos em lei.

Lembremos sempre: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados” (Simone de Beauvoir). Quando o presidente do país oferece os corpos femininos para serem usados à vontade, a frase de Beauvoir é mais que um alerta, é um chamado para luta, para ocupação dos espaços e debates políticos, para pressionar e estar presente. Não há tempo para silêncios…

3 Comentário

  1. É de se estranhar que a cuja professora acima, com vários títulos, parece não saber interpretar certas coisas que no meu entender são propositais. Esta fácil você criticar agora. Onde você estava nos últimos 15 anos do governo petista/marxista? Saiu da casinha ? Abrace/assume, faça campanhas sobre a prostituição no Brasil , mas não ataque quem de fato, quer arrumar este Brasil, que vocês deixaram com esse desemprego assustador e pela roubalheira que fizeram.

  2. Parabéns professora pela coragem de escrever esse belo artigo. Os bolsominions tem a cara de pau de defender esse coiso miliciano/misógino/homofóbico assumido. Os canalhas sem argumentos falam em marxismo. Atacar quem quer arrumar esse país é uma piada de mau gosto. Qual é o projeto de país, se o próprio energúmeno falou que quer destruir? Parabéns professora?????

  3. Cara “professora mestre” (sic) rsrs…, o Brasil está vivendo esse lixo moral devido ao ódio, preconceito, discriminação e intolerância plantados pela esquerda golpista aos que são contrários ás suas infames ideologias, principalmente cristãos (a cristofobia é um FATO) e deixou nosso país um antro de imundícias e doenças de toda espécie.
    Não venha com esse discurso moralista esquerdistas execrável dona…
    Cuba,Venezuela,Coreia do Norte lhe esperam ansiosas!

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