Pelo menos a morte deveria merecer um minuto de reflexão

 

 

Alexandre Gonçalves

Jornalista

 

Confesso que pouco conhecia de Marielle Franco, assassinada junto com seu colega de trabalho, motorista, no Rio de Janeiro, com características de execução.

Sabia que era socióloga, defensora dos direitos humanos, vereadora, vinda da favela da Maré, uma das mais emblemáticas da outrora “cidade maravilhosa.”

Ou seja, a empatia é natural. Minha e de todos deveria ser (desculpa a minha modéstia pretensão).

Para começar, uma pessoa morreu. Independente de quem seja, sempre vale aquele momento de reflexão para pensar quem é este que partiu e nós na relação com a nossa existência.

Fora isso, é preciso sempre enaltecer aqueles que, por conta de sua atuação, trabalham em questões públicas (e não governamentais), que muitas vezes a sociedade prefere não saber. Mesmo que não concordemos.

Vale para a Marielle, para o motorista, para os policiais que tombam em serviço e as inúmeras vítimas diárias da violência urbana.  Vale para todos.

Mas nesta quarta-feira, a Marielle foi a vítima mais emblemática desta violência cotidiana. Ela que se foi.

Mas a violência de sua morte não parou nos dedos de quem apontou as armas para ela. Prossegue na insanidade que as redes sociais revelam de uma parte da nossa sociedade.

Marielle era do PSOL, portanto de esquerda, comunista.

Marielle era militante dos direitos humanos, portanto defendia bandido.

Marielle era da favela, “quantas vezes deve ter visto os bandidos e denunciou para a polícia?” Sim, li isso, num grupo de whatts.

Chega.

Eu fui conhecer a trajetória da Marielle, ao perceber que tinha uma história diferenciada. É de orgulhar o brasileiro. Independente dele ser de esquerda, direita ou seja lá o que for.

Mulher, negra, favelada, socióloga, vereadora. Não defendia bandido, combatia a banda podre da PM carioca, uma realidade conhecida por todos.

A visibilidade da morte dela não diminui a morte dos outros. A morte não compete com ninguém.

Estanca. Para.

Silêncio.

7 Comentário

  1. Concordo plenamente com a afirmação “a morte não compete com ninguém”, mas, sabendo das 60 mil mortes/ano, tendo noção do número de policiais que morreram no ano de 2017 e ainda prossegue em 2018, porque o brasileiro repercute e sai para manifestar a dor de uma vereadora e não a morte do policial Leonardo de Paula da Silva, ou do pai Cláudio Henrique da Costa Pinto, ou da mãe Dandara Damasceno de Souza morta por um tiro, ou da Emilly Sofia Neves Marriel que morreu sem saber o que estava acontecendo?

    A questão aqui, Alexandre Gonçalves, é mais que direita ou esquerda. Estamos olhando para um campo minado, onde todos os problemas estão sendo politizados. Afirmo que, o caso da Marielle Franco, foi mais uma entre tantos, pois o que aconteceu com ela já vemos mais de 60 mil vezes a cada ano. Não será através de plano político que mudaremos o que está acontecendo no nosso país, mas, sim, através de estratégias e planos de segurança.

  2. A morte da vereadora lembra também o assassinato da Juíza Patricia Acioli, considerada linha dura e que também combatia a banda podre da PM carioca.
    Esses assassinatos são um precedente perigoso, pois demonstra que esses assassinos não tem medo de nada quando confrontam o Estado de Direito.
    Entendo que não devemos acusar ninguém sem que a investigação aponte os verdadeiros culpados, mas, temos que reconhecer que a PM do Rio de Janeiro está podre e a limpeza da PM deve vir de dentro. Bons policiais devem combater os maus policiais, seja no Rio de Janeiro ou em qualquer lugar do Brasil.
    Quanto aos que acusam a vereadora de defender bandidos, fico com uma frase do Millor Fernandes: “Não se amplia a voz dos idiotas”, ou seja, não replique, não curta, não comente mensagens de ódio. Se o hater falar sozinho acaba desistindo.
    Esse evento ficara na lembrança de todos como mais um triste dia para nossa democracia.

  3. Finalmente leio algo coerente. Sem ódio, rancor e partidarizado. O que vale é o conjunto da obra. Parabéns.

  4. “Marielle era da favela, “quantas vezes deve ter visto os bandidos e denunciou para a polícia?” Sim, li isso, num grupo de whatts.”

    Ela denunciava bandidos. Policial corrupto É bandido, político corrupto É bandido, miliciano É bandido!
    Muitos fascistas acham que bandido é somente preto e favelado. Não enxergam os demais bandidos por estarem “entre” eles…

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