Opinião | O peso invisível da credibilidade econômica

Imagem gerada com IA

A economia brasileira parece viver um daqueles momentos em que os números contam apenas parte da história. Alguns indicadores recentes melhoraram, especialmente no mercado de trabalho, mas o ambiente econômico continua cercado por incertezas sobre o rumo das contas públicas, o custo do capital e a qualidade das instituições. Não se trata de negar avanços, nem de celebrar resultados antes da hora. O que está em jogo é algo mais simples, e mais importante: saber se os sinais positivos de hoje são capazes de sustentar crescimento consistente amanhã.

Os dados mais recentes indicam que o país não enfrenta uma retração aguda. O desemprego recuou e determinados indicadores sociais evoluíram de forma favorável. Ainda assim, a economia segue marcada por juros elevados, dúvidas pertinentes sobre a trajetória fiscal desestruturada, e oscilações em setores relevantes, como a indústria. Há números positivos, mas também perguntas legítimas sobre o que vem pela frente.

O economista americano Milton Friedman, prêmio Nobel e uma das referências da economia moderna, costumava alertar que políticas econômicas podem produzir efeitos rápidos sem alterar problemas mais profundos. Essa reflexão ajuda a entender o cenário atual. O Brasil não vive um colapso econômico, mas também não demonstra ter resolvido desafios históricos ligados à previsibilidade fiscal, à produtividade e à confiança institucional.

É nesse contexto que a governança das instituições públicas volta ao centro do debate. A indicação do economista Márcio Pochmann para a presidência do IBGE, escolha direta do presidente da República, como prevê o modelo institucional brasileiro, reacendeu discussões sobre a importância da autonomia técnica dos órgãos responsáveis pelas estatísticas nacionais. Diversos veículos de imprensa e analistas destacaram seu histórico político e sua proximidade com correntes de pensamento associadas ao governo, o que naturalmente ampliou o escrutínio sobre a atuação do instituto.

Reconhecer essa controvérsia não significa desqualificar trajetórias acadêmicas ou negar legitimidade a escolhas institucionais. Em uma democracia, indicações políticas fazem parte do funcionamento do Estado e devem ser respeitadas. Ainda assim, permanece o alerta: órgãos técnicos vivem, acima de tudo, da confiança pública. Parte de servidores do próprio IBGE e economistas de diferentes correntes manifestou preocupação não com mudanças metodológicas, que não foram comprovadas, mas com a forma como os dados são interpretados e comunicados em um ambiente de elevada polarização.

O economista Friedrich Hayek, também vencedor do Nobel, lembrava que mercados funcionam melhor quando as pessoas confiam nas informações disponíveis. Estatísticas públicas não são apenas números; são sinais que orientam decisões de investimento, consumo e política econômica. Quando surgem dúvidas, ainda que apenas na percepção, o ambiente econômico tende a se tornar mais cauteloso.

Esse debate não precisa ser ideológico. Trata-se de compreender que confiança institucional é um dos pilares invisíveis da economia. Um país pode apresentar indicadores positivos no presente, mas, sem credibilidade duradoura, esses resultados raramente se traduzem em crescimento consistente.

Talvez a principal lição do momento seja evitar extremos. O Brasil não vive um desastre econômico, mas tampouco demonstra ter resolvido suas limitações históricas. Entre avanços pontuais e desafios persistentes, o país segue navegando em uma zona cinzenta que exige mais análise do que torcida.

Em economia, confiança nas instituições não é detalhe técnico; é condição básica para que números se transformem em decisões reais. E preservar essa confiança, com respeito às divergências, mas também com vigilância crítica, talvez seja o verdadeiro desafio deste período.

Jorge Amaro Bastos Alves, economista

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