Opinião: o mito da realização profissional

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Pois sim, trata-se de um mito. Um mito refere-se a uma narrativa de tradição oral de elementos fantásticos, ou seja, é uma fantasia. Como fantasia, o mito está ligado à irrealidade, apesar de conter princípios educativos que, de certa forma, servem de guia para os seus ouvintes. Um mito é uma fantasia, mas não é inútil. Mas qual direção ou objetivo o mito da realização profissional propõe? Certamente não é o favorecimento que busca tal realização.

Ao se falar de realização profissional, são os próprios contadores de estórias, os promotores do discurso, os que fazem os ouvintes acreditarem que o mito é real, que são os verdadeiros beneficiados. São sacerdotes econômicos que ensinam o seu rebanho com um discurso dogmático em que eles próprios só acreditam se não os tirarem do seu sacerdócio. O discurso varia, mas o princípio é o mesmo: a venda de um ideal de felicidade pautado numa esperança que só virá a se cumprir mediante o acaso ou a uma disposição mental que nada tem a ver com o que se busca.

O caminho a seguir para a realização profissional é oferecido como valor cultural, mas que foi construído para a satisfação de poucos. O caminho segue uma lógica educacional sistematizada através de etapas, como se fosse uma escada em cujo topo seria possível encontrar a tão almejada satisfação. É um avanço gradativo, como o passar de fases. O ensino começa cedo e logo a criança é colocada dentro desse sistema sem que se dê conta. Na idade da razão já se encontrará plenamente doutrinada. Tal como uma criança que desde cedo é educada em uma religião, crescerá acreditando nos seus preceitos religiosos até o fim da vida se não fizer uma análise crítica da própria condição e julgar por si mesma no que deve ou não acreditar. Assim, crendo desde cedo, a fantasia não se torna tão absurda quando adulta.

A criança é então colocada na educação infantil, que é uma preparação para o ensino fundamental. O ensino fundamental – onde a criança já começa a vislumbrar no horizonte o grande objetivo da felicidade obtida através da realização profissional – é uma preparação para o ensino médio. O ensino médio é uma preparação para o estudo profissionalizante nas faculdades ou universidades. Este seria o último passo antes do ingresso no mercado de trabalho. O mercado de trabalho é uma monstruosidade composta por diversas fases sob a alcunha de “promoção”. Promoções vêm, novas oportunidades, novas etapas e fases de vida e a realização profissional está logo ali. Outros cursos, especializações, latu sensu, stricto sensu, são atalhos. É o que eles dizem, nossos sacerdotes.

O que ganham os fomentadores do mito, os que sinalizam o caminho que devemos trilhar? Ganham a mentira que vendem. Pois a realização profissional é medida pelo sucesso e, em nossos dias, sucesso é confundido com valor monetário. É de dinheiro que se trata. Nunca foi outra coisa além de dinheiro.

Quando, na nossa ilusão, seguimos o caminho por eles proposto, aceitamos nos colocar a serviço do seu senhorio. Transformam-nos em escravos. Tomam de nós o nosso tempo, nossa força e não é incomum que tomem nossa saúde. A bem da verdade, tomam a nossa vida transformando em vida deles e para eles. Lucram com isso, sem cessar de prometer lucro e satisfação para nós. Lucro que, quando chega para nós, não satisfaz, pois não repõe o que foi perdido. A culpa é deles, mas também é nossa. Voluntariamente aceitamos viver uma vida que não é nossa quando não faltam conselhos que sugerem o contrário. Mas é a avareza que cega. Este desejo concupiscente tão íntimo da natureza humana que não é espantoso quando um indivíduo alcança a tal realização e se vê completamente insatisfeito.

Se a busca por realização profissional se dá por meio de um ideal de realização que está em si mesmo adulterado, então o resultado não seria outro. Dessa satisfação só se encontra insatisfação. Atingir o sucesso não significa muita coisa e não raro um indivíduo de sucesso deve mentir para si mesmo mostrando-se feliz. Faz isso para que não percebam que foi tolo correndo atrás do vento.

Em vista disso, qual é a saída? De início deve-se saber perceber quando a vida vivida não é a vida que se gostaria de viver. Deve-se saber que a estrutura da vida não deve e nem pode ser definida de acordo com os princípios da economia. Somos homo sapiens, não homo oeconomicus como alguns definem. A sociedade de consumo não cessará de exercer pressão e controle sobre os indivíduos, pois são muitos os que promovem tal modelo de sociedade, uma vez que lucram com isso. Mas tolo é quem segue um tolo. 

A felicidade está em continuar a desejar aquilo que já se possui, diria Agostinho de Hipona. O mito da realização profissional consiste no fato de ser um projeto futuro. Está a realizar-se. O sucesso profissional é tão efêmero quanto a felicidade geral. A vida é volátil e tudo se transforma. O mito da realização profissional só deixa de ser mito e se torna realidade quando tal realização já é presente, quando é satisfação imediata sem depender dos valores monetários que a profissão proporciona. Isso significa que a única realização profissional que preenche os anseios menos viciosos e, portanto, preenche de forma mais eficiente o indivíduo trabalhador é a realização que é fruto da profissão por si mesma, ou seja, quando há prazer no trabalho e não – apenas – no salário.

Neste sentido, a verdadeira realização profissional é aquela que se distancia do mito da realização futura e que não depende do caminho proposto pelos sacerdotes econômicos, como se não houvesse outra opção. Este é o mito, de que os passos são os mesmos para todos e que não há outra forma de alcançar satisfação no trabalho se não for pelo meio deles. A realização possível se dá pela libertação do jugo da escravidão do sistema de fases e depende muito mais de uma correta disposição interna do indivíduo plenamente educado para a liberdade do que do seguimento de uma estrutura econômica que promete muito, dá metade e depois tira tudo. 

O caso em questão é complexo e a libertação é de uma dificuldade severa. Mas é necessário lutar pelo resgate da realidade e pelo controle da vida com vistas além do desejo econômico. Assim, quem sabe, uma sociedade mais livre, menos destrutiva e mais cheia de significado resplandeça entre nós, ou que seja assim ao menos nossa vida individual, uma verdade que sobrepuja a fantasia.

1 Comentário

  1. Legal…concordo!
    Nunca fiz lixo de faculdades/graduações e estou muito bem como investidor de ativos financeiros obrigado! 😀

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