Opinião | O ensino superior em Blumenau: desafios e transformações no futuro da FURB

Foto: FURB/Reprodução

As instituições de ensino superior enfrentam um cenário de profundas transformações socioeconômicas, tecnológicas e demográficas. Para uma universidade regional e de caráter público como a Universidade Regional de Blumenau (FURB), os próximos anos exigirão reflexão contínua sobre a sustentabilidade financeira, a eficiência do seu modelo de gestão e a capacidade de se manter relevante e integrada à comunidade regional.

A questão sobre o modelo de gestão, pauta constante na mídia e na agenda política local, passa pela discussão acerca da origem dos recursos da Universidade, em que três horizontes se vislumbram: o financiamento estadual pelo projeto Universidade Gratuita; o êxito no processo de federalização ou estadualização; e o aumento do número de vagas em cursos de graduação, pós-graduação lato sensu e stricto sensu.

O Artigo 170 da Constituição do Estado de Santa Catarina, de 1989, foi um marco pioneiro no cenário da educação superior brasileira por estabelecer o compromisso constitucional do Estado em prestar assistência financeira a estudantes catarinenses, determinando a aplicação de um percentual mínimo da receita corrente líquida do Estado para o fomento de bolsas parciais ou temporárias de estudo e bolsas de pesquisa.

Este expediente trouxe avanços expressivos para o desenvolvimento socioeconômico e educacional de Santa Catarina. Podemos citar, como efeito imediato, a inclusão social e democratização do acesso ao ensino superior, uma vez que permitiu que centenas de milhares de jovens de baixa renda e vulnerabilidade social ingressassem no ensino superior e concluíssem a graduação.

Destaca-se, ainda, o fomento à pesquisa e inovação, já que além de bolsas de estudo (focadas nas mensalidades), o dispositivo previa cotas para bolsas de pesquisa científica e tecnológica, incentivando a produção do conhecimento no estado. E, por fim, ressalta-se o fortalecimento do modelo comunitário, que sustentou financeiramente as instituições de ensino regional, que reinvestiam os valores em infraestrutura, laboratórios e projetos de desenvolvimento regional.

Outro passo importante no que diz respeito ao financiamento estudantil aconteceu em 2023, quando o governo do Estado de Santa Catarina promoveu uma reestruturação do modelo por meio da aprovação da Lei Complementar nº 831/2023, que instituiu o Programa Universidade Gratuita, fundamentado nas bases constitucionais do próprio Artigo 170. Entre as principais transformações, está a substituição da bolsa parcial pela gratuidade total: o modelo evoluiu do fornecimento de percentuais de desconto para a cobertura integral (100%) das mensalidades ao longo de todo o curso universitário para os estudantes elegíveis.

Por outro lado, a discussão sobre a federalização da FURB remonta pelo menos duas décadas e nasce da luta para consolidar o Vale do Itajaí como um polo público de ensino superior gratuito e de excelência. Desde os anos 2000, lideranças políticas, acadêmicas e comunitárias da região articulam propostas para incorporar a FURB à rede federal, visando atenuar a dependência financeira das mensalidades pagas pelos estudantes e aliviar o custeio municipal sobre a estrutura universitária.

Atualmente, o processo de negociação encontra-se na fase de análise técnica e institucional no âmbito do governo federal e do MEC. Embora a constituição de grupos de trabalho e agendas periódicas em Brasília tenham mantido o pleito em pauta, a efetivação da federalização ainda depende do equacionamento de garantias orçamentárias de longo prazo e da viabilidade jurídica para a absorção do patrimônio e do pessoal, fazendo com que a comunidade universitária continue acompanhando o tema com cautela e em paralelo com a discussão de alternativas estaduais e comunitárias.

Não se descarta, entre os gestores da instituição, o início dos trabalhos para adequação ou adaptação do projeto para um processo de estadualização da FURB, tema fomentado pela proximidade do relacionamento que a Universidade mantém com o governo do Estado nos últimos anos.

Entretanto, não é possível confiar o futuro da universidade apenas nas propostas de estadualização, federalização ou depender majoritariamente do repasse de programas de bolsas estaduais. Sob a perspectiva da governança, a gestão universitária moderna exige um equilíbrio cada vez maior entre a transparência administrativa, a otimização de recursos e a autonomia.

Desafios como a modernização da infraestrutura de Tecnologia da Informação (TI), o cumprimento das normas de governança de dados e a implementação de mecanismos eficientes de controle interno e conformidade estão no centro das discussões. Além disso, a busca por formas de desburocratização e a atualização do planejamento estratégico são vitais para garantir que a universidade responda com agilidade às demandas contemporâneas. 

A inovação pedagógica e o cuidado com a infraestrutura física também compõem essa equação. O avanço de tecnologias como a Inteligência Artificial e o crescimento do ensino híbrido impõem o desafio de adaptar o modelo educacional sem perder a essência da experiência universitária presencial. Do ponto de vista estrutural, manter os câmpus seguros, acessíveis e equipados com laboratórios modernos exige planejamento e captação contínua de investimentos. 

A dimensão da sustentabilidade — financeira, social e ambiental — configura-se como um pilar essencial para os próximos anos. A atração e retenção de estudantes, a diversificação da oferta de cursos e o acompanhamento rigoroso da saúde orçamentária situam-se em um contexto em que debates mais amplos sobre a natureza jurídica e institucional da FURB continuam em pauta na comunidade. 

Nada disso se faz, obviamente, sem o apoio e valorização da sua comunidade acadêmica — que abrange professores, servidores técnico-administrativos e estudantes. A instituição lida com o desafio contínuo de modernizar seus planos de carreira, promover um clima organizacional saudável e oferecer políticas sólidas de saúde física e mental. No âmbito estudantil, a permanência universitária surge como uma pauta urgente, demandando soluções para o apoio financeiro, a simplificação de processos e a criação de ambientes inclusivos e de convivência mais acolhedores.

Paralelamente, o resgate do engajamento em atividades de extensão, arte e cultura, assim como e a melhoria da mobilidade e internacionalização acadêmica são elementos chave para fortalecer o sentimento de pertencimento e o prestígio acadêmico. O futuro da universidade dependerá da capacidade de equilibrar sua identidade comunitária e regional com um modelo sustentável, aberto à inovação, garantindo uma gestão sólida, inclusiva e adaptada às transformações do século XXI. Precisamos, enfim, construir uma universidade regional voltada para o mundo, com os olhos no futuro.

Feliciano Alcides Dias, Professor do curso de Direito da FURB. Doutor em Direito pela Unisinos. Pesquisador em estágio pós-doutoral em Direito pelo Instituto Brasileiro de Ensino (IDP – Brasília).

Carla Fernanda Nolli, Professora do Curso Letras – Inglês da FURB. Doutoranda em Língua Inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

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