Opinião | O blumenauense dirige muito mal

Foto: divulgação

O blumenauense dirige muito mal. Essa é uma frase muito comum e tenho ouvido constantemente em sala de aula, cursos, palestras e no dia a dia do trânsito. Parece até um mantra. Mas por que será que existe essa percepção?

Em um contexto geral, em sala de aula, quando ouvia isso, sempre fazia a devolutiva: se vocês aqui dentro estão dizendo que os ruins estão lá fora, quando os que estão lá fora estiverem aqui dentro, com certeza vão falar de vocês que estão lá fora. Fica a dúvida: quem está lá fora dirigindo mal ? 

O certo é que sempre achamos que nossos erros no trânsito são aceitáveis; os dos outros, não.

É evidente que as vias de Blumenau já não comportam mais veículos. Há pouquíssimos espaços para uma frota cada vez maior. O trânsito atual não aceita erros, tanto pelo risco de sinistros quanto pelo impacto direto na fluidez. 

Mas o que causa essa percepção de que o motorista blumenauense é barbeiro? Ou será que ele é mesmo? No caso a resposta é muito simples, somos nós mesmo, pois pode acreditar: os erros não são dos outros, são nossos.

Quem nunca transitou com pressa e, ao perceber o trânsito lento, começou a culpar tudo. Filas enormes que se formam e, quando se vê, nada impede o fluxo normal. O que poderia ter causado tanta fila? Só pode ter sido culpa dos péssimos motoristas blumenauenses.

Nesse sentido, há algum tempo, em um daqueles dias tortuosos do trânsito blumenauense, em que o congestionamento parecia fora de controle, a SMTT recebendo inúmeras indagações sobre o porquê de tanto trânsito em um dia no qual não havia ocorrido nenhum incidente, começamos a verificar de onde surgia tal problema. 

Até mesmo o prefeito, que transitava pela Rua Paraíba, questionou qual seria o problema, já que ficou completamente parado no local.

Ao analisar a origem e verificando as imagens das câmeras, percebeu-se que um buraco na Rua República Argentina, na saída da Rua México, estava causando tamanha comoção. Ao sair no semáforo da Rua México, os condutores precisavam passar muito devagar, impossibilitando que muitos veículos atravessassem no tempo semafórico verde. Como poucos veículos conseguiam passar, o congestionamento se estendeu até a Ponte de Ferro e, consequentemente, travou a Rua Tocantins, que bloqueou a São Paulo e a Paraíba. Com os veículos parados na Paraíba, houve impacto direto na Rua Sete de Setembro. A conclusão foi simples: tudo aquilo estava sendo causado por um buraco em uma única rua. Ao receber a resposta, a vontade do prefeito era demitir todo mundo.

Percebam que não se tratava de barbeiragem de ninguém, mas simplesmente da falta de opções viárias, da quantidade excessiva de veículos e de como pequenos percalços geram consequências enormes. 

Já ouvi diversos relatos e percepções sobre o motivo dessa certeza de que dirigimos em uma cidade de barbeiros: falta de educação, deficiência de treinamento (culpa das autoescolas), geografia do município, presença do rio, falta de pontes e viadutos, problema cultural, legislação, falta de fiscalização e uma série de outras justificativas para explicar tantos “barbeiros” na direção.

Em essência, o problema é tudo isso ou seja é estrutural: o trânsito no Brasil é compreendido como extensão do interesse individual, e não como bem público coletivo. Ruas e normas são interpretadas segundo conveniências pessoais, o que inviabiliza o funcionamento do trânsito como solução coletiva.

O trânsito não é seu e não é meu, é de todos. Ainda assim, o caminhoneiro acha que é seu, o motorista de automóvel acredita ter prioridade absoluta, o motociclista se considera invencível, o ciclista é corajoso demais e o pedestre, invisível. Ninguém está construindo coletividade.

Muito dessa percepção decorre do momento de Blumenau: uma cidade de escala regional, pequena para uma cidade média, com alta densidade demográfica. No senso comum, são motoristas acostumados a dirigir em cidade pequena, enfrentando problemas de trânsito de cidade grande. Aqui, conversões, retornos, paradas e estacionamentos ainda são feitos como nos anos 1990, quando havia menos veículos e mais espaço, quando essas ações não interferiam no coletivo, quando o erro era aceitável e possível. Muitos ainda não perceberam que isso não cabe mais, cada movimento individual integre no coletivo. 

Talvez a falta de fiscalização e a própria legislação não contribuam para esse processo. A sensação de impunidade gera, como consequência, a perda do senso de responsabilidade e a convicção do condutor de que pode agir livremente, à margem das normas. 

Não raramente, a SMTT, investida da prerrogativa de fiscalizar o trânsito, acaba por autuar uma infinidade de condutores desacostumados às práticas legais e necessárias à condução de veículos. Isso gera duas sensações distintas: para o autuado, indignação; para os demais condutores, a sensação de justiça. Em resumo: “me ferrei, mas não foi culpa minha”, ou “bem feito, quem mandou fazer errado”.

É muito comum, hoje em Blumenau, que o monitoramento por câmeras da SMTT flagre infrações cometidas por condutores que, na tentativa de ganhar tempo, ultrapassar veículos ou realizar conversões e retornos irregulares, transponham marcas de canalização. Por se tratar de infração gravíssima, com fator multiplicador três, a autuação e formalizada por meio de videomonitoramento, constando, inclusive, a imagem da infração no auto. Somada à ausência de abordagem no momento do fato, essa dinâmica acaba por gerar inúmeras controvérsias e surpresa ao condutor autuado, que muitas vezes não imagina que uma conduta aparentemente simples resulte em penalidade.

No fim, a percepção de que o blumenauense dirige mal não nasce apenas da conduta individual, mas da soma entre infraestrutura limitada, crescimento desordenado da frota, cultura de permissividade e dificuldade em compreender o trânsito como um sistema coletivo. Enquanto cada condutor insistir em enxergar a via pública como espaço de conveniência pessoal, qualquer falha, por menor que seja, continuará produzindo impactos desproporcionais, reforçando a sensação de caos e alimentando o ciclo de responsabilização sempre direcionado ao outro, trazendo consigo o peso de todos se acharem péssimos motoristas. 

Com o trânsito não se brinca.

Lucio R. Beckhauser, Agente de Trânsito, Especialista em Direito de Trânsito
Oferecimento:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*