Opinião: Filosofia não é entretenimento

Em tempos de pós-modernismo pandêmico realizar um encontro com o pensamento pode ser uma tarefa quase impossível. De tempos em tempos quando tudo se torna raso e superficial a realidade exige que você pense e reflita sobre sua natureza e exige que seja representada por conceitos precisos, mesmo que você não deseje realizar tal tarefa. Filosofia é coisa séria, não pode ser reduzida a autoajuda, ou simplesmente ao caos, como algo sem método, cinza e indiferenciado, ou melhor, relativo.

Por outro lado, algumas pessoas pensam em colocá-la como SERVA de algum sistema ideológico, e, por isso é preciso se perguntar: para que serve a Filosofia? Para nada. Ela não pode SERVIR a nada. Esta velha senhora nunca estará na condição de SERVA, ou simplesmente será caótica. A Filosofia nasce no Ocidente e não pode ser confundida com pretensas teorias religiosas com conotações “filosóficas” ou políticas.

O ato de filosofar nos exige distanciamento do objeto, precisão conceitual, epoché. Logo, nunca poderá existir um caos filosófico. Quando a Filosofia se encontra com o caos ou paradoxo, ou ainda, contradição, ela busca compreendê-lo racionalmente. Se o pensar for caótico, ele não pode ser compreendido e estará na condição de uma planta, um vegetal, na melhor das hipóteses, pura animalidade. Por isso, em tempos de pandemia, a reflexão necessária que deveríamos realizar seria:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” [A Gaia Ciência, §341].

Importante dizer que agora, neste exato momento, em que a morte está à espreita e se avizinha, se aconchegando em nossos quintais, ela exige de todos nós um verdadeiro comportamento ético de um homem superior ou além-homem: não seria aceitar alegremente que a morte é um fato da vida? Afinal, segundo Nietzsche, afirmar a vida não seria dizer um SIM de forma festiva a todo e qualquer sofrimento que esta pandemia poderia nos proporcionar?

Sem recorrer a qualquer outra forma de fuga: álcool, drogas ou a religião, sem ressentimentos. Quem de nós teria tal capacidade e força sobre-humana? Eu, por outro lado, sou apenas um homem, demasiadamente humano. Mas, consciente, de que a Filosofia não é um meio, mas um fim. Tolo, é todo aquele que deseja que o pensamento filosófico, um modo de ser e estar no mundo, possa ser colocado na condição de SERVILIDADE, seja da política, religião, ou de seus mais íntimos e impuros desejos: o entretenimento das massas nas redes sociais com sua escrita decadente e revolucionária.

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