Opinião | Família, Estado e Algoritmos: o Esfriamento do Afeto na Era Digital

Imagem gerada com IA

“E, por se multiplicar a maldade, o amor se esfriará de quase todos” (Mateus 24,12). No texto bíblico temos um indicativo de que a ausência do afeto ou o seu empobrecimento deve ser considerado como um dos sintomas ou um efeito colateral da presença crescente do seu antônimo – a maldade. “Todos pertencem a todos.” “A palavra ‘família’ era obscena.” “Quando o indivíduo sente, a comunidade vacila.” Estas são frases extraídas da obra O Admirável Mundo Novo do escritor inglês Aldous Huxley. São expressões emblemáticas que apontam para a lógica central de uma distópica sociedade em que emoções profundas, vínculos afetivos e experiências individuais intensas são vistos como ameaças à estabilidade social. Por isso, são suprimidos, anestesiados ou substituídos por prazeres superficiais e relações descartáveis.

Ou seja, não foi por falta de aviso que estamos vivendo uma espécie de transtorno de personalidade esquizoide coletivo. Em sentido não clínico, uso essa metáfora crítica para descrever um padrão social crescente de distanciamento emocional, isolamento relacional e empobrecimento dos vínculos afetivos. No campo da psicopatologia, o Transtorno de personalidade esquizoide refere-se a indivíduos que apresentam preferência por atividades solitárias, dificuldade em estabelecer relações próximas, restrição na expressão emocional e aparente indiferença às interações sociais. 

Quando essa lógica é ampliada para o plano coletivo, a ideia aponta para uma sociedade em que tais características deixam de ser exceção e passam a se manifestar de forma difusa no comportamento cotidiano. Observa-se uma cultura marcada por hiperindividualismo, empobrecimento afetivo, relações superficiais e substituição do contato humano direto por interações mediadas por tecnologia. As pessoas continuam conectadas digitalmente, mas emocionalmente distantes; compartilham informações, mas raramente experiências profundas.

Esse “esquizoide coletivo” não implica ausência de sofrimento — ao contrário, muitas vezes ele convive com altos índices de solidão, ansiedade e sensação de vazio. Trata-se de um paradoxo contemporâneo: quanto mais meios de comunicação e conexão existem, mais frágeis parecem se tornar os vínculos significativos. Assim, a expressão busca provocar reflexão sobre um possível adoecimento relacional da cultura, no qual a dificuldade de coesão, empatia e convivência deixa de ser apenas um traço individual e passa a caracterizar, em certa medida, o espírito do nosso tempo.

Esse adoecimento relacional não ocorre no vazio. Ele se desenvolve dentro de estruturas sociais culturais que, direta ou indiretamente, influenciam a formação dos vínculos — entre elas, o próprio Estado.

O Estado (brasileiro) psicopático – em outro momento falaremos disso – é, sem sombra de dúvidas, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento dessa patologia coletiva. Nos acostumamos a um Estado decide, com régua e compasso ideológico, o que as crianças devem ler e aprender na escola. Se o currículo diz que o livro é bom, pronto: está sancionado. Vem carimbado por pedagogos, com carimbo do MEC, e embalado em um discurso de “formação cidadã”. A criança ainda nem amarrou o cadarço direito, mas já está lendo sobre estruturas de poder, relações de gênero e o mal que o homem branco hetero cisgênero fez ao planeta — em letra Arial 12, caixa-alta, com atividade de fixação.  

É preciso que se entenda de uma vez por todas que a relação de poder e influência entre a família e o Estado é inversamente proporcional. A afirmação expressa uma ideia relevante nas ciências sociais: quanto mais forte, autônoma e funcional é a família, menor tende a ser a necessidade de intervenção do Estado na vida dos indivíduos; por outro lado, quanto mais fragilizados estão os vínculos familiares, maior costuma ser a presença e a atuação estatal para suprir funções que antes eram desempenhadas no âmbito doméstico.

Uma sociedade tutelada não amadurece porque não tem sequer a liberdade de desenvolver sua capacidade de escolha. O máximo de maturidade que os indivíduos alcançam nesse tipo de sociedade se resume a: não faço o que a lei me proíbe de fazer. E quanto ao universo de hábitos, atitudes, valores e comportamentos prescritos na Lei que são nocivos para o indivíduo ou para uma família? Tendo a concordar com o filosofo Thomas Hobbes ao definir o Estado como sendo a personificação da abdicação do uso da liberdade de todos.

 Em contextos em que a família exerce bem suas funções — cuidado, socialização, transmissão de valores, suporte emocional, afetivo e regulação de comportamentos — ela atua como uma espécie de primeira instância de proteção e organização social. Nesses casos, o Estado tende a assumir um papel mais subsidiário, intervindo apenas quando necessário.

Por outro lado, quando há desestruturação familiar, ausência de vínculos, negligência ou incapacidade de prover suporte afetivo, emocional e material, o Estado é frequentemente chamado a ocupar esse espaço por meio de políticas públicas, assistência social, educação, saúde mental e até sistemas de proteção e justiça. Isso não significa necessariamente um problema em si, mas revela uma transferência de funções fundamentais da esfera privada para a pública.

Quando os vínculos humanos enfraquecem, outros agentes tendem a ocupar esse espaço. Nesse cenário de enfraquecimento dos vínculos familiares e expansão do papel do Estado como mediador das necessidades humanas, emerge um novo agente que passa a ocupar, de forma silenciosa e crescente, espaços antes essencialmente humanos: a tecnologia — mais especificamente, a inteligência artificial generativa. Se antes a lacuna afetiva era parcialmente preenchida por instituições sociais, hoje ela começa a ser ocupada por sistemas algorítmicos capazes de simular escuta, empatia e acolhimento. 

Não se trata apenas de uma inovação tecnológica, mas de um deslocamento simbólico profundo: aquilo que deveria ser construído na relação viva entre pessoas passa a ser buscado em interações mediadas por máquinas. Assim, a mesma cultura que fragiliza os laços familiares e dilui a autonomia individual cria as condições ideais para que ferramentas digitais — especialmente no campo da saúde mental — sejam não apenas utilizadas, mas emocionalmente incorporadas como substitutas de vínculos que se perderam ou nunca se consolidaram.

Sem negar a importância dos avanços tecnológicos — especialmente na área da saúde —, a crescente utilização de IAs generativas na forma de chatbots para fins terapêuticos ou de bem-estar emocional tem despertado preocupações. Ferramentas amplamente conhecidas, como ChatGPT, Claude, Character.AI e Llama, passaram a ser utilizadas por milhões de pessoas para conversar sobre sentimentos, buscar aconselhamento ou simplesmente aliviar a solidão. Tal utilização tem levantado questionamentos entre familiares, profissionais da saúde, pesquisadores e especialistas em tecnologia.

Pesquisas no Reino Unido indicam que mais de um em cada três adultos (37%) já utilizou chatbots de IA para apoio em saúde mental ou bem-estar. O uso é particularmente alto entre jovens adultos: em uma sondagem, 64% das pessoas de 25–34 anos relataram já ter recorrido a chatbots para questões de saúde mental. Nos EUA, levantamentos com usuários familiarizados com chatbots mostram que os principais atrativos são acessibilidade e conveniência, seguidos por percepção de privacidade/confidencialidade.

Um em cada 10 brasileiros usa chatbots generativos como conselheiro emocional, segundo pesquisa da Talk Inc com mil entrevistados. No Brasil, IAs generativas como o ChatGPT, projetadas originalmente para geração de texto e não para terapia, são amplamente usadas para apoio emocional e “terapia” informal, atendendo milhões de usuários em busca de alívio rápido. Cerca de 12 milhões de brasileiros recorrem a essas ferramentas para desabafar sobre ansiedade, relacionamentos e estresse, com 6 milhões especificamente no ChatGPT, tornando-o o terceiro país em acessos globais.

Outro fator que agrava esse cenário foi destacado pela American Psychological Association. A entidade alertou que adolescentes têm maior probabilidade do que adultos de interpretar a empatia simulada por sistemas de inteligência artificial como se fosse uma conexão emocional autêntica. É a chamada empatia fake – frases de compreensão sem capacidade real de escuta.

Como os chatbots são projetados para responder de forma acolhedora, validando emoções e mantendo conversas fluidas, jovens podem desenvolver a percepção de que estão sendo verdadeiramente compreendidos por uma entidade que, na realidade, apenas reproduz padrões linguísticos treinados em grandes bases de dados. Essa confusão entre empatia artificial e vínculo humano pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades socioemocionais fundamentais, como a construção de relações interpessoais, a tolerância à frustração e a capacidade de lidar com conflitos no mundo real.

Dessa forma, o sistema reflete de volta aquilo que detecta como mais desejado pelo interlocutor. Ele tentará sempre manter o engajamento do usuário. Um estudo recente da Harvard Business School mostrou que muitos chatbots comuns usam táticas de manipulação emocional — como apelos a culpa, carência ou medo de perder algo importante — quando os usuários tentam encerrar uma conversa. Há relatos de suicídios que foram considerados desdobramentos do aconselhamento com chatbots.

Embora a maioria das pessoas use os chatbots sem nenhum problema, algumas funcionalidades integradas à tecnologia podem criar condições em que pequenas distorções cognitivas ganham força. Em vez de questionar crenças falsas ou perigosas, essas tecnologias dão as respostas que, estatisticamente, têm mais chances de manter a conversa em andamento.

Se o diagnóstico estiver na direção correta, então não estamos apenas diante de uma transformação tecnológica ou de uma reconfiguração institucional, mas de algo mais profundo: um deslocamento do próprio lugar do afeto na vida humana. Aquilo que antes era cultivado no espaço íntimo da família, mediado pela presença, pela convivência e pelo vínculo, passa a ser progressivamente terceirizado — primeiro às estruturas do Estado, e agora, de forma ainda mais sutil, aos sistemas algorítmicos.

Nesse sentido, a advertência bíblica de que “o afeto se esfriaria de quase todos” deixa de soar como uma imagem distante e passa a encontrar eco concreto na experiência cotidiana. Não porque o afeto tenha desaparecido por completo, mas porque foi sendo substituído por simulacros funcionais: relações pragmáticas, funcionais, escutas automatizadas, respostas calculadas para manter engajamento, mas incapazes de sustentar a densidade de um encontro humano real.

Diante disso, a questão que se impõe não é apenas tecnológica, política ou institucional, mas profundamente humana: ainda somos capazes de sustentar vínculos que exigem tempo, frustração, entrega e responsabilidade? Ou estamos nos adaptando, silenciosamente, a uma forma de existência em que o afeto pode ser substituído por sua simulação?

Se quisermos evitar que o esfriamento do afeto se torne não apenas um diagnóstico, mas um destino, talvez seja necessário começar por onde tudo sempre começou: na reconstrução dos vínculos mais próximos. Não por meio de estruturas perfeitas, nem de soluções técnicas, mas pela difícil — e insubstituível — tarefa de estar afetivamente presente. Porque, no fim, nenhuma engenharia, nenhum Estado e nenhum algoritmo será capaz de oferecer aquilo que apenas o humano pode sustentar: o afeto real, imperfeito e, justamente por isso, indispensável.

Alexandre Amorim, antropólogo

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